A gente não pode falar em indústria cultural no Brasil que a intelectualidade “bacana” sofre chilique e reage como se fosse um bando de dondocas contrariadas. Mas a verdade é que a música brega-popularesca, por mais que pareça agradável e “gostosa de ouvir” pelo grande público, ela segue critérios comerciais bem rigorosos.
A narrativa da intelectualidade ”bacana” fala de ideias maravilhosas como “expressão das vivências e emoções” do povo pobre. É aquela retórica da “livre expressão das periferias”, do papo furado do “popular com P maiúsculo” que nunca fez sentido lógico algum.
Depois do discurso do “combate ao preconceito” ter prevalecido na mídia, numa época em que o espaço de questionamentos nas redes sociais ainda não estava desenvolvido, se começou a desmontar essa narrativa assim que meu antigo blogue Mingau de Aço fez pressão para contestar a campanha pela bregalização cultural.
E aí vemos como o Brasil se tornou uma nação com sociedade hipermidiatizada e altamente mercantil. Tudo parece natural e fluente, mas na verdade isso é uma grande ilusão. A “cultura” do “popular demais” é tão “natural” quanto os alimentos que não são mais do que gordura, açúcar, corantes e imitadores de sabor.
Temos sorvetes que não são mais do que banha com altas doses de açúcar que não cobrem mais do que um terço do peso líquido anunciado. Mas também temos grupos de forró sem um pingo de genuína nordestinidade. O Calcinha Preta, por exemplo, misturava disco music, country, ritmos caribenhos e uma estética de cabaré com “piratas de Hollywood”.
Mesmo nomes tidos como “sofisticados” dentro da música brega-popularesca, como João Gomes, Péricles e Ivete Sangalo, não são exceção à regra. Eles se comparam com aquelas marcas de café que oferecem uma mistura nunca assumida de cevada, impurezas e outros ingredientes que, juntados e torrados, dão um falso aspecto de “café puro”.
Em nome da lucratividade do negócio, claro que se vende gato por lebre tanto na produção de alimentos quanto na música brega-popularesca, assim como se vende “autenticidade” em relação às subcelebridades ou, no caso do Espiritismo brasileiro, os falsos mortos que fazem um merchandising religioso enrustido.
Tudo tem que soar “verdadeiro”. Na música, temos a “MPB de mentirinha” de cantores, duplas e grupos que tentam adaptar a mediocridade artística para uma cosmética mais digerível ao público de maior poder aquisitivo. Como produtos, os ídolos popularescos “requintados” não podem ser questionados e sua “qualidade musical”, mesmo postiça, tem que ser vista como “indiscutível”.
E como vivemos na sociedade subordinada à mídia e ao mercado, o que vale é a mentira e a ilusão, para o bem da lacração nas redes sociais. Com isso, ocorrem festas e reuniões onde muita coisa é falsa, do café e biscoitos servidos até a trilha sonora musical. Uma verdadeira festa da mentira.
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