A realidade é complexa e nela não cabem linearidades nem maniqueísmos fáceis. A constatação de que Lula agrada mais aos ricos do que aos pobres, estes em boa parte alinhados a Flávio Bolsonaro, revela o quanto o Brasil não é um país para principiantes.
Na verdade, as elites veem em Flávio Bolsonaro o “monstro” que eles criaram e do qual querem se livrar, temendo o efeito bumerangue de tantos golpes. A burguesia derrubou Getúlio Vargas em 1945 e 1954, derrubou João Goulart em 1964 e, mais recentemente, pediu o golpe contra Dilma Rousseff em 2016.
As elites do atraso desenharam em 1974 um modelo de país funcionalmente conservador, embora quase moderno na fchada. Bregalização musical e comportamental, ônibus padronizados (com trabalho opressivo dos rodoviários), a idolatria e o falso altruísmo dos “médiuns”, o rock pasteurizado difundido pela 89 FM, tudo isso se desenvolveu por interesse das elites que defenderam a anestesia social dos brasileiros.
A velha ordem social que, através desses e outros valores do nível, se ascendeu em 1964 e se consolidou durante o “milagre brasileiro” agora se desespera com o risco do feitiço virar contra o feiticeiro. A desesperada adesão da burguesia à reeleição de Lula, mesmo com um terceiro mandato ruim do petista, mostra essa situação insólita e que muitos acreditam ser impossível.
A elite do bom atraso, que é a elite do atraso na sua recente tradução politicamente correta, se esquece que o bolsonarismo é o reflexo de anos de golpismo e que, agora, Flávio Bolsonaro é o espelho dessa classe que tem medo de se ver nele. Temendo o efeito bumerangue dos antigos golpes, a elite do bom atraso agora vê que Lula é inofensivo com as classes dominantes e, por isso, ganhou o apoio maciço da burguesia ilustrada e até da alta burguesia.
Embora não tenha sido formalizada em chapas partidárias, a frente ampla demais de 2022 continua, unida pela democracia de um homem só destinada a salvar o parque de diversões chamado Brasil. Justiça social é só um detalhe, para a burguesia de chinelos. Quando muito, um ítem a mais no discurso de Lula.

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