A elite do bom atraso, da Faria Lima aos burgueses enrustidos que se espalham entre as pessoas comuns nos bares da vida, quer sempre parecer legal. Seu esforço em se dissociar das desventuras golpistas que a própria classe tramou é hercúleo, se configurando como uma elite supostamente civilizada e pretensamente comprometida com a "democracia".
São empresários caprichando na produção de entretenimento convidando um sem-número de atrações internacionais. São executivos virando dublês de intelectuais em palestras como coaches. São executivos andando pelas avenidas mais bacanas do Rio de Janeiro e de São Paulo como se fossem as pessoas mais fantásticas do planeta.
A Faria Lima privatizou a cultura rock, com a 89 FM A Rádio Rockefeller praticamente monopolizando os negócios. A Faria Lima financiou os intelectuais e a comunidade acadêmica para defender a precarização da música brasileira atual sob a desculpa do "combate ao preconceito". A Faria Lima até tenta, a qualquer preço, transformar uma gíria privada, "balada", numa expressão "acima dos tempos e das tribos".
Sim, a Faria Lima é expressão da megalomania de toda a burguesia enrustida, que comanda a frente ampla do elitismo social que envolve, também, a pequena burguesia de esquerda, os ex-pobres tornados novos-ricos e os famosos milionários. Essa frente ampla é que se autoproclama o "Brasil único", o "país dos predestinados a dominar o mundo".
Daí a grande ilusão, cultivada entre 2022 e 2023, dessa "democracia" de poucos, desse país das maravilhas onde nem todo mundo pode ser "todo mundo", onde uns são "mais únicos" do que outros. E ver que as pessoas cheias da grana confundem cidadania com consumo para vender uma "democracia da curtição", é, no mínimo, um dado assustador.
Afinal, a "democracia" lulista - que começou mal com o próprio Lula sabotando o compromisso democrático da diversidade eleitoral, se impondo como "candidato único" - apenas serve aos interesses da elite do atraso repaginada numa classe "mais legal do mundo", que mascara suas atrocidades, as mesmas que fizeram seus avôs e avós bradarem pela queda de João Goulart em 1964, com uma personalidade a mesmo tempo festiva e pretensamente engajada.
Essa burguesia parece legal até deixar de sê-lo. Defendendo a precarização cultural através da bregalização, a domesticação da juventude, a burguesia enrustida também defende a precarização do trabalho e a proteção dos privilégios dos super-ricos, e aí vemos o quanto ela defende, por exemplo, aberrações profissionais que tentam prevalecer nos tempos "democráticos" de hoje.
Vide, por exemplo, a catástrofe profissional da "escravidão de luxo" dos corretores de imóveis, dependentes de uma remuneração 100% comissionada que, na prática, é como uma loteria, pois as comissões por vendas de imóveis não são uma certeza, e muitas vezes os corretores acabam trabalhando de graça, coisa que faria um senhor de engenho do período colonial ficar de queixo caído.
Hoje temos a pauta da PEC contra a escala 6x1 do mercado de trabalho, ou seja, a escala que determina a sobrecarga horária de seis dias de serviço com um dia de repouso, insuficiente para os profissionais recarregarem suas forças e terem o tempo livre para descansar, se divertir ou mesmo cuidar de seus interesses pessoais.
De autoria da deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), a proposta é mais do que necessária, visando cancelar um dos pilares da precarização do trabalho da "ponte para o futuro" de Michel Temer. E é lamentável que o fim da escala 6x1 não tivesse sido uma das primeiras medidas do governo Lula, pois o presidente preferiu comemorar a vitória eleitoral com seu "festival do futuro" e depois viajar para o exterior, deixando a reconstrução do país em segundo plano.
Essa realidade desmascara o caráter "legal" de nossos ricos "democráticos", que parecem muito simpáticos como animadores e mecenas de um Brasil feito parque de diversões, escondendo a precarização do trabalho que existe até em festivais de música "descolados" como o Lollapalooza Brasil.
Ou seja, a velha Casa Grande continua se orgulhando dos seus tataranetos, que até assustam seus familiares mais velhos quando adotam costumes populistas como gostar de futebol, fazer festas em condomínios de luxo imitando as festas da laje com muito "pagode" e falar português errado. Ou seja, a aristocracia ortodoxa às vezes treme de medo quando vê a aristocracia heterodoxa exagerar no faz-de-conta de ser "gente como a gente".
Mas quando o assunto é a precarização dos empregados e a manutenção dos privilégios dos super-ricos, os descendentes da velha Casa Grande, com todo o aparato modernoso e pretensamente popular, continuam enchendo de orgulho as velhas oligarquias. E continuam envergonhando o nosso Brasil, que clama pelo fim dos abusos dessa burguesia bronzeada.
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