O Brasil é um país muito complexo e, infelizmente, os lulistas não entendem essa realidade de forma adequada. Nem mesmo o próprio Lula. Numa reunião com líderes do G-20, no Rio de Janeiro, o presidente brasileiro alegou que o mundo é "majoritariamente conservador" e que o chefe da nossa nação declarou ser a "única alternância de poder que existiu nesse país".
Citando as vitórias eleitorais da Argentina e dos EUA, que colocaram a ultradireita no poder, Lula descreve que a maioria das vitórias políticas que ocorrem no Brasil envolvem representantes das elites mais ricas, principalmente os fazendeiros. Ele acrescenta que ele e o boliviano Evo Morales estão entre os poucos que romperam com a regra de que representantes dos mais ricos vencem as eleições presidenciais. Disse o presidente:
"O mundo é conservador. Quando você fala: ‘A direita ganhou as eleições agora este ano’… A direita sempre ganhou as eleições. Aqui no Brasil, a direita sempre ganhou as eleições. Eu sou a única alternância de poder que aconteceu nesse país. Porque sempre foi gente de cima que ganhou as eleições (…). Eram todos da classe dominante".
A declaração parece bem intencionada, embora lembremos que o próprio Lula é um político conservador. Infelizmente, porém, no contexto do atual mandato, Lula não parece tão empenhado quanto nos dois mandatos anteriores. Estes podem não terem sido ousados, mas tinham alguma ação mais corajosa, Lula conseguiu até zerar a dívida externa, pondo fim ao velho círculo vicioso do Brasil pedir dinheiro emprestado para pagar essa dívida e continuar contraindo novos dividendos.
Hoje Lula parece mais acovardado politicamente, embora faça de tudo para manter a aparência de um governo "mais ousado" que os anteriores. Tenta se destacar como orador, mas acaba falando mais do que agindo, mais preocupado com frases de efeito como "Quem tem fome é tratado como invisível".
"É preciso coragem para mudar essa história perversa (a da fome no mundo)", disse Lula. Mas ele mesmo não teve a coragem necessária para enfatizar as políticas internas no Brasil ao assumir o atual mandato, preferindo a política externa. Não se reconstrói um país "de fora", mas "adentro". E também não se reconstrói um país arrasado com um clima de festa.
O que eu entendo é que Lula ficou desorientado com os rumos do Brasil após o golpe de 2016. Me baseio em fatos. Ele também ficou empolgado demais com a recuperação dos direitos políticos, mas acabou se perdendo querendo conciliar demais com forças sociais e políticas adversárias, através de uma frente ampla demais para garantir algum projeto progressista.
Daí que Lula tenta obter apenas o mínimo denominador comum do seu já moderadíssimo projeto progressista e as concessões feitas para agradar a direita "democrática". Vejo o atual mandato de Lula como um misto de governo FHC com José Sarney. Um pouco de neoliberalismo, um pouco de "tudo pelo social". Quase nada da essência de um projeto político progressista se preservou.
Visando a sobrevida e as vantagens políticas, Lula acabou agindo como um pelego, dando muito pouco para os excluídos que diz ser sua prioridade e obsessão. Aumenta o salário-mínimo anualmente com um raquítico acréscimo de R$ 90, insuficiente para matar a fome de famílias pobres, geralmente numerosas.
A coragem que Lula cobra para "combater a fome" ele não tem sequer para combater a desumana escala 6x1 do mercado de trabalho. Se limitou, laconicamente, a cobrar um "debate" para garantir "formas dignas e equilibradas" de trabalho, sempre no mesmo estilo "conciliatório" de, supostamente, ouvir de maneira igualitária os trabalhadores e os empresários, como condiz a um pelego que acaba, neste falso equilíbrio, privilegiando os interesses do patronato.
Agindo assim, Lula se autoproclama o "único representante da democracia", tendo chegado a tratar a campanha presidencial de 2022 como um "plebiscito entre civilização e barbárie". Não queria disputar com outros candidatos e Ciro Gomes, ainda que esteja longe de ser um revolucionário político, foi linchado pelos petistas que não aceitavam dividir o combate ao bolsonarismo com outros candidatos além de Lula.
Nem que Lula prometesse o maior milagre do planeta e fosse o único a descobrir a origem do universo, isso lhe permite dizer que é a "única alternativa de poder" para o Brasil. Nem evocando sua origem pobre, até porque essa condição não lhe fez fazer um governo ousado, mas apenas dois mandatos bons e o atual medíocre e bastante confuso, com um presidente perdido entre a grandiloquência e a inoperância.
Notícias recentes mostram os movimentos sociais e culturais reclamando da falta de políticas para os respectivos setores. O esporte amador reclama que o Ministério dos Esportes não tem uma política para o setor, depois que a pasta foi entregue a um fisiologista político. Os movimentos culturais afrobrasileiros reclamam da falta de políticas do Ministério da Igualdade Racial.
Recentemente, as entidades ligadas ao cinema reclamam da falta de políticas do Ministério da Cultura, que em outros casos, como financiar as atividades do "funk" e outros ritmos brega-popularescos (principalmente a axé-music, mercado da terra natal da ministra Margareth Menezes, a Bahia), se empenha com recursos e outros subsídios para a realização de seus eventos.
A título de comparação, Getúlio Vargas e João Goulart eram fazendeiros, criadores de gado em São Borja, e estão entre os raros proprietários de terras que estabeleceram projetos ousados para as classes trabalhadoras.
Em 1954, Jango, então ministro do Trabalho de Vargas, dobrou o salário mínimo, assustando as elites e irritando os oficiais das Forças Armadas, que dez anos depois iriam derrubar o político, na condição de presidente da República. Já o presidente Lula, um antigo retirante nordestino, depois líder sindical e que "chora" ao falar da fome do povo pobre, só dá noventa reais para aumentar o salário mínimo todo ano. Até um pai daria uma mesada maior para um filho.
E aí vemos o quanto é complicada a atual gestão de Lula, que usa a palavra "democracia" tanto para alimentar sua promoção pessoal quanto para servir de eufemismo para as concessões à direita moderada, trazendo poucos benefícios para as classes populares.
Dessa forma, nosso país está muito complicado. Lula está perdido em querer demais e fazer muito pouco, em falar demais e agir menos. E se acha o "dono" da democracia, deixando seus seguidores na zona de conforto de se divertirem e consumirem conforme seus instintos pedem, esperando que um único governante, por sinal bastante idoso e de carreira já antiga e de velhas práticas, conduza praticamente sozinho o futuro dos brasileiros.
E aí vemos que democracia não tem dono e estamos vivendo o período mais complicado da História do Brasil. Lula não admite isso e se impõe como "única alternativa política", sem sequer ter o cuidado de treinar um herdeiro político. E isso com um governo medíocre que, na prática, agrada mais às elites abastadas que praticamente monopolizam o "bom senso" nos principais canais de opinião da mídia empresarial e da Internet.
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