O resultado do desfile da Acadêmicos de Niterói, cujo tema foi “Do Alto do Mulungu surge a esperança: Lula”, pode ter sido um alívio para os lulistas diante da forte acusação de crime eleitoral que poderia causar. A escola foi rebaixada e voltou ao grupo de acesso, um ano após ter chegado ao grupo de elite do Carnaval do Rio de Janeiro.
A vencedora foi outra escola niteroiense, a Viradouro, o que permitiu a visibilidade da cidade de Niterói, que há 51 anos teve tirado, da ditadura militar, o status de capital do Estado do Rio de Janeiro, condenada a uma vassalagem que só beneficiou o empresariado e acostumou mal a população, mesmo sendo a maos prejudicada neste processo.
Niterói hoje se reduziu a um quintal do Rio de Janeiro, um playground de luxo para os vizinhos do outro lado da Baía da Guanabara se divertirem. Só para perceber o absurdo da situação, muitas matérias dos noticiários nacionais produzidos no Rio creditaram Niterói, de forma irresponsável, como “Rio de Janeiro -RJ”, metralhando, com fuzil AR-15, as regras do bom jornalismo.
Mas isso é outro assunto. Afinal, estamos falando de um enredo de escola de samba que homenageia um presidente em mandato corrente e que não só busca a reeleição como já se considera virtualmente reeleito. Está clara a vantagem de um candidato se distinguindo dos demais por conta desse espetáculo, o que dá indícios de crime eleitoral.
Lula, desde 2022, deixou claro que quer ser o “candidato único”. É a tática da “democracia de um homem só”, de um único líder que se acha “melhor que os outros”. Mesmo que haja vantagens aqui e ali, nenhum candidato pode se impor previamente como o favorito, ele tem que competir com outros concorrentes, que são legítimos na busca de votos do eleitorado.
Lula já traiu a democracia que tanto defende se impondo como “única opção”. E o presidente sempre buscou levar vantagem quando não devia, e isso se tornou claro com o enredo carnavalesco, cuja parte mais divertida foi a ala dos “Neoconservadores em conservas”, uma merecida cutucada nos patéticos seguidores de Jair Bolsonaro.
Mas diante dessas polêmicas todas, com os bolsonaristas se sentindo ofendidos contra o que chamam de “agressão contra a família cristã”, os lulistas viram no rebaixamento da Acadêmicos de Niterói o esfriamento não só das narrativas extremo-direitistas, mas também do próprio enredo na agenda setting brasileira.
No entanto, não é nulo o risco do episódio ser negativamente explorado por opositores de Lula. A tentativa de levar vantagem com uma homenagem é evidente, mesmo com todas as sutilezas que permitiram os lulistas de considerar que “não” houve ilegalidade nem crime eleitoral. Só no país do jeitinho para avaliar isso, mantendo o caminho de Lula para a reeleição.
Só que as sutilezas não anulam o problema, até agravam. Afinal, de qualquer forma, Lula mantém vantagem abusiva sobre outros concorrentes, e a exploração dos opositores já sinaliza a torcida após o rebaixamento da Acadêmicos de Niterói. Ou seja, para os opositores de Lula, hoje quem cai é a escola de samba, amanhã será o próprio presidente.
A performance decepcionante de Lula se comprova até neste caso do samba-enredo. Se Lula fosse sério, teria proibido a homenagem vendo que isso traria complicações políticas. Mas Lula foi o primeiro a apoiar e até acompanhar, na arquibancada, qualquer festejo carnavalesco aqui e ali. Logo o próprio presidente que, pelo jeito, tornou-se o Rei Momo da burguesia ilustrada.
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