Infelizmente, no Brasil, quem interessa por gente talentosa é arrivista e corrupto, que precisa de uma aparência de bom profissionalismo para levar vantagem. É quando há patrões ruins em busca de ascensão e empregam pessoas com notável competência apenas para dar um aspecto de “respeitabilidade” para suas empresas.
Fora isso, o que temos são contratadores que acabam admitindo verdadeiras aberrações profissionais, enganados pela boa aparência e pela visibilidade do candidato canastrão que, todavia, é um mestre da encenação na hora da entrevista de emprego ou na videoconferência seletiva. Mas, para o cargo desejado, o sujeito decepciona, com 40% de profissionalismo e 60% de desídia. Para quem não sabe, “desídia” é o mesmo que “vadiar durante o expediente”.
Daí a invasão de influenciadores digitais e comediantes de estandape nos postos de trabalho sérios ligados à Comunicação. O caso do Analista de Redes Sociais é ilustrativo, um cargo qualquer coisa que ninguém define se é um serviço técnico ou um trabalho intermitente. Afinal, esse cargo serve para quê? Para influenciador gravar vídeos de propaganda ou para comediante contar piadas no intervalo para o cafezinho?
O mercado não enxerga os profissionais certos e corre o risco de, repousando nas zonas de conforto do prestígio, do clientelismo e da boa imagem, cair num processo de acomodação que pode soar insosso num primeiro momento mas, com o tempo, pode trazer prejuízo.
As empresas acabam sofrendo de baixa autoestima profissional, apesar da vaidade como pessoas jurídicas. É porque elas querem desenvolver a cosmética do ambiente de trabalho, contratando gente atraente, prestigiada, com visibilidade, experiência e, às vezes, até com carteira de motorista, hoje conhecida como CNH. Mas a “alma” profissional é deixada de lado, exigindo um trabalho qualquer nota.
E isso vale também para provas de concursos públicos que parecem produzir questões que só os burocratas com pinta de comentaristas esportivos conseguem responder de imediato. São atletas de concursos que vencem fácil as provas mas, depois que assumem os cargos, reclamam do trabalho.
Mas isso é uma outra história, diante do foco que trabalharemos aqui neste texto. Vamos verificar a questão dos currículos, antes exigidos pelo mercado de trabalho e hoje totalmente descartados. É um grande bombardeio de mísseis nos pés essa nova e triste decisão das empresas.
Antes exigia o envio de currículos, sem definir como deveriam ser. Primeiro, se pediu uma estética atraente e agradável para a leitura do recrutador. Depois se exigiu currículos com experiência profissional, mas para evitar enchimento de linguiça (“encheção” não existe; favor não insistir) se pediu algo mais resumido, pedindo a menção apenas dos trabalhos mais importantes. Mas aí, para evitar desvio de foco, se pediu um currículo específico para qualquer oferta de emprego.
Depois, com o fim dos currículos, se pediu uma atividade rotineira no LinkedIn, não sem antes permitir que se enviasse currículos de forma direta (a própria plataforma) ou indireta (páginas de emprego que anunciam na plataforma). Vieram "especialistas" dizendo que isso era inútil e, com seus cursos “100% gratuitos” que custam uma fortuna após a palestra introdutória, prometiam “ensinar” como aproveitar o algoritmo do LinkedIn para conquistar um emprego.
Aí já começam a haver queixas em fóruns nas redes sociais xingando o LinkedIn de “LinkeDisney” e a ver inutilidade no uso desses algoritmos. Quem procura emprego acaba ficando perdido, como que numa floresta sob trevas. E os recrutadores acabam pagando o preço da cosmética do ambiente de trabalho. Contratam profissionais ruins e, banindo os currículos, perdem a oportunidade de contratar os candidatos certos.
Isso porque quem realmente precisa de emprego recorre ao envio constante de currículos e, se estes são jogados fora pelos recrutadores, boas oportunidades de contratar gente de talento são desperdiçadas. Do ponto de vista do recrutador, é mais fácil e confortável contratar quem aparece e tem boa aparência, visibilidade, boa conversa, prestígio e um bom apadrinhamento.
Mas, muitas vezes, essas pessoas não trazem diferencial e, muitas vezes, a diferença está naquele currículo jogado no lixo, que pode ser de alguém mais preparado para fazer uma empresa crescer ou salvá-la de uma crise. Rejeitando currículos, os recrutadores acabam, de repente, jogando fora uma mina de ouro.
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