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O SONHO E O PESADELO NO MERCADO DE TRABALHO

APESAR DA APARÊNCIA ATRATIVA, O TRABALHO DE CORRETOR DE IMÓVEIS MOSTRA O DRAMA DE ESTAGIÁRIOS QUE TRABALHAM DE GRAÇA ESPERANDO UMA COMISSÃO POR VENDA DE IMÓVES QUE É TÃO INCERTA QUANTO UMA LOTERIA.

A polarização política virou o embate entre o sonho e o pesadelo, e no contexto posterior da retomada reacionária de 2016, tudo o que as esquerdas fizeram foi negociar com a direita moderada os seus espaços políticos. E é a mesma direita moderada que faz consultoria econômica para a extrema-direita e oferece sua logística administrativa.

Quando falamos que o lulismo obteve um protagonismo de forma artificial, tomando emprestado os espaços políticos da direita temerosa, os lulistas não gostam. Falo de fatos, pois acompanhei passo a passo do período de 2016 para cá. Seria confortável acreditar que os lulistas conquistaram o protagonismo do nada por um toque de mágica do destino, como se a realidade brasileira fosse um filme da saga Harry Potter.

Não conquistaram. Tanto que Lula foi cauteloso demais com as pautas trabalhistas. Hoje ele prioriza o fim da escala 6x1, mas no começo do terceiro mandato ele desprezou esta necessidade, “entregando” o assunto para o “debate entre empresários e trabalhadores”. Empurrar o assunto para as vésperas das eleições, aliás, é bastante oportunista, para um presidente que passou a primeira metade do atual mandato apenas viajando e discursando.

Fico observando, com cautela e preocupação, os casos recentes de uma retomada morna das esquerdas, seja com Luís Arce na Bolívia e Cristina Kirchner na Argentina, esta vice de Alberto Fernandez, que demonstrou ser um neoliberal. Arce, Kirchner e Fernandez não estão mais no poder. A situação se repete com Lula, que tenta se vender ao mesmo tempo como um político com intenções de poder vitalício, como o do recém-deposto Nicolás Maduro na Venezuela, e um político conciliador "palatável" para o mundo capitalista.

Em todos os três casos, vemos que as classes populares foram deixadas de lado em nome de um "acordo democrático" com as elites, algo que soa desagradável noticiar para muita gente, principalmente para setores descolados da burguesia que, em nome das vantagens pessoais, principalmente a lacração nas redes sociais, tornaram-se, pelo menos na teoria, "esquerdistas de primeira viagem".

Daí a dificuldade de enumerar os defeitos do governo Lula. Para as classes populares, que não têm tempo nem dinheiro para usar as redes sociais, não há problema em apontar os defeitos do terceiro mandato, que demonstrou não ter o fôlego gestor dos dois mandatos anteriores, que eram moderadíssimos, mas de certa forma esforçados. O atual mandato de Lula decepcionou por se tornar mais voltado à propaganda, sem ações concretas relevantes que deixassem marca na população.

Para a burguesia ilustrada, no entanto, criticar Lula é um grande tabu, e o negacionismo factual lutou para dar a impressão de que o petista possui a mesma grandeza dos mandatos anteriores. Só que o problema é que Lula tornou-se um personagem midiático, encenando seu teatro político em discursos e outros simulacros. Lançava relatorismos com dados fantásticos demais para serem realidade e, quando não conseguia realizar algo, apenas opinava, como no caso dos alimentos caros e salários baixos.

Na Argentina, recentemente, o presidente extremo-direitista Javier Milei lançou uma reforma trabalhista nos moldes parecidos com os de Michel Temer. É um pesadelo para as classes trabalhadoras. Mas vendo o caso de Temer ocorrido há nove anos, vimos a atuação decepcionante e a falta de pulso firme de Lula, que na sua campanha de 2022 não prometeu romper de vez com o temeroso projeto, mas "rever".

Lula passou mais da metade do mandato mantendo a escala 6x1, consentindo com o sofrimento de muitos trabalhadores, forçados a se desgastarem por alguns trocados. Infelizmente as esquerdas médias não têm coragem de reverter retrocessos, vide o que se viu no âmbito sociocultural.

Daí que vemos os chamados "brinquedos culturais" da direita, que as esquerdas acolheram de maneira subserviente nos anos 2000 e 2010. De funqueiros a "médiuns espíritas", de mulheres-frutas a ídolos cafonas antigos, as esquerdas sonhavam em ver esse culturalismo de direita, oriundo ou derivado de valores difundidos pela ditadura militar, como um pretenso patrimônio esquerdista, pela desculpa esfarrapada de que, em tese, seus fenômenos "faziam o pobre sorrir".

Foi acolhendo esse culturalismo conservador enrustido que fez as esquerdas abrirem caminho para o golpe de 2016. E esse erro hoje está sendo repetido no âmbito político e econômico, perdido na luta entre o sonho de uma centro-esquerda conciliadora e o pesadelo de uma extrema-direita perversa.

Só que, nessa arena politizadora, a mesma direita moderada atua de maneira dúbia. Ao mesmo tempo que a direita moderada oferece a logística das ações econômicas e administrativas da extrema-direita, também estabelece as condições de relativa ruptura solicitada pela centro-esquerda mais branda.

Foi a partir desse prisma que Lula consentiu em boa parte do mandato em não acabar com a escala 6x1 do trabalho, apesar dele se posicionar contra (sempre as opiniões de quem não tem coragem de agir). Agora ele prioriza acabar com isso, mas se esquece que há outros problemas, como o trabalho 100% comissionado, cuja remuneração é incerta como uma loteria, e a regulamentação do trabalho nos feriados. Recentemente, por exemplo, o telemarketing teve jornada de trabalho no feriado de Carnaval.

Lula também endossou o discurso de Michel Temer sobre o "crescimento do emprego", conforme eu mesmo pude observar acompanhando de forma contínua os noticiários, mantendo o fio da meada da sucessão dos fatos. 

Não posso deixar a linha do tempo do golpismo de 2016 se fragmentar como uma peça cortada em pedacinhos. Lula, apesar da narrativa dos "recordes de emprego", nada fez para resolver o problema do trabalho precarizado, e sua ênfase na política externa fez as classes trabalhadoras verem no petista um traidor.

A luta entre o sonho lulista e o pesadelo bolsonarista faz com que a realidade não tenha voz nem vez. Os fatos não têm autonomia, e o que se vê é o negacionismo factual blindando Lula e se tornando uma espécie de "isentão do bem", no fundo com o mesmo apetite censor comparável ao dos rivais da extrema-direita.

Nesse cabo-de-guerra da polarização, os trabalhadores precarizados ficam sem um horizonte de emancipação e melhoria de vida. As classes trabalhadoras estão decepcionadas com Lula e eu posso ver isso em tudo quanto é lugar. 

Lula demonstrou que seu mandato é grandioso na embalagem, mas medíocre e fraco no conteúdo, e o setor que ele mais deveria ter se dedicado o tempo todo, as pautas trabalhistas, foi deixado em segundo plano e somente retomado para fins eleitoreiros. Assim os trabalhadores não voltam mais a confiar em Lula, que cada vez mais se encolhe como um governante.

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