Anteontem faleceu de câncer, aos 80 anos, a cantora, compositora e atriz Dolly Parton, um dos maiores ícones da história da música country estadunidense. Dolly, pela sua força artística, era aliás um dos mais admiráveis nomes da música dos EUA em geral, com seis décadas de carreira e uma enorme porção de grandes sucessos, entre os quais “Jolene” e “I’ll Always Love You”, esta mais conhecida pelo público brasileiro pela versão de Whitney Houston.
A morte de Dolly Parton comoveu os EUA e várias personalidades, não só da nação norte-americana, mandaram mensagens de pesar. Paul McCartney foi um deles e o músico britânico adorou a interpretação da cantora para “Let it Be”. Também há a informação de que Brian Wilson, falecido no ano passado, era também um grande fã de Dolly.
A cantora foi marcada por um talento próprio e imenso, pela sua personalidade forte e afável e pela integridade artística profunda e versátil. Isso a fez exercer um poder social agregador na cultura pop dos últimos 50 anos. Daí sua popularidade e seu carisma genuíno que, somado ao empoderamento feminino de Dolly, fizeram a diferença dessa admirável estrela norte-americana.
Dolly Parton também foi beneficiada pelas transformações ocorridas na música country, que assimilou influências do rock, da soul music, do rhythm’n’blues e até do east listening, o pop orquestrado instrumental, no fim dos anos 1950, através do movimento Nashville Sound. Essas mudanças que tornaram a música country mais arejada permitiram que Dolly tivesse a trajetória que se encerrou com sua morte. Dolly Parton foi “filha” do Nashville Sound.
Quanto ao Brasil, seria impossível haver uma equivalente à Dolly Parton. Em primeiro lugar, porque a música country é um ritmo muito difícil de ser introduzido no Brasil. A música country, como o nome indica, é bem expressão dos EUA e só o Reino Unido e a Itália (através do faroeste no cinema e suas trilhas do maestro Ennio Moriconne) puderam entender bem a cultura western.
No Brasil só raramente a música country é assimilada de forma adequada. Temos os casos de Eduardo Araújo, Sérgio Reis e Raul Seixas, ou tlvez algum outro que não me lembro no momento. Mas o que se vende como “música country” no Brasil é de uma breguice e um viralatismo terrivelmente vergonhosos, que só servem para garantir os interesses econômicos do agronegócio e dos velhos latifundiários.
A música brega-popularesca em geral, com sua “diversidade” de ritmos, acostumou mal os ouvidos do povo brasileiro, que muitos pensam ser a “genuína cultura musical brasileira”. Grande engano. Seja “funk”, piseiro, sofrência, seja o brega mais antigo, seja o “pagode anos 90”, seja a axé-music, tudo se trata, sem exceção, do mais escancarado comercialismo musical, tão “artístico-cultural” quanto “nutritivos” são os alimentos transgênicos.
Quanto ao country brasileiro, não há como comparar com o Nashville Sound. Aqui o country soa, na sua maioria esmagadora, caricato e paródico, com seus “caubóis de SUV” e seu som medíocre, marcado de muita pieguice. Podem milhares de brasileiros lançarem mil teorias sobre a suposta brasilidade nesse “country” que tudo soa subjetivo, pois tudo o que se faz é arrumar desculpas para gourmetizar um entretenimento musical sem verdadeiros propósitos culturais.
Tem gente que se atreve a definir o breganejo mais antigo como “música de raiz”. É pura conversa para gado inteiro dormir. Até porque a antiga música caipira, a partir dos anos 1970, sucumbiu ao viralatismo através da bregalização, com elementos caricatos do Tex-Mex - ou seja, o country do Texas e o mariachi do México - que se acentuaram a partir dos anos 1980, se consolidando da década seguinte em diante.
O “sertanejo” de sucesso nas últimas décadas não tem vida, não tem cheiro de mato nem remete às raízes brasileiras. E sendo eventual pastiche do country, a situação piora consideravelmente. E isso não é preconceito, até porque, através de terceiros, como vizinhos ou motoristas de ônibus, pude verificar a ruindade do “sertanejo”.
Dolly Parton foi a grande artista que hoje fica na História porque a música country expressa a cultura do homem do campo dos EUA. Diferente do rock, do jazz e do reggae, a música country é um estilo difícil de ser digerido no Brasil, pois o que se vê no “country” brasileiro é uma grande caricatura sem vida, feita só para tocar em rodeios e festas noturnas do interior.
Portanto, lá fora Dolly Parton exalava vida e força que ultrapassou as fronteiras do country. Daí o valor inigualável dessa cantora que agora deixa saudades.

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