Se existe, no seio do lulismo, algum fator bastante negativo que ameace a reeleição de Lula, o arcabouço fiscal foi o que mais contribuiu de maneira decisiva para afastar boa parte do povo pobre do apoio ao petista.
As viagens ao exterior influíram, e muito, na queda de popularidade de Lula, mas ainda mantinham o estereótipo de líder popular de certa forma intato. Mesmo priorizando a política externa, Lula ainda poderia trabalhar sua imagem pública de acordo com o imaginário popular, com o argumento de que o petista havia virado cidadão do mundo a buscar investimentos e acordos político-econômicos em benefício dos brasileiros.
Houve até uma narrativa de que Lula estava promovendo o fortalecimento da imagem internacional do Brasil e buscando proteção estrangeira para a nossa democracia. As viagens poderiam ter sido um erro crasso devido à ausência do presidente no projeto de reconstrução do Brasil, mas dava para criar uma boa narrativa, mesmo que tudo não passasse de conversa para boi dormir.
Já o arcabouço fiscal, não. E ele fez estragos profundos no terceiro mandato de Lula. Deixou o presidente não apenas em contradição com seus princípios mais fundamentais, como o desgastou diante da sua omissão em combater os juros altos da dívida pública.
Lembremos que Lula comprou briga contra o então presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, que pelo nome descende de um famoso economista e ministro da ditadura militar, Roberto Campos, da pasta do Planejamento do governo do general Castelo Branco.
Lula bradava irritado contra os juros altos de Campos Neto, mas nada fez para tirá-lo de modo imediato do cargo. Seu sucessor Gabriel Galípolo era a esperança para baixar os juros altos e no entanto os manteve. Lula, mesmo sendo contra os juros altos, passou pano nas taxas, e isso foi desastroso para o presidente da República.
Os juros altos da dívida pública são uma medida imposta pelo Banco Central do Brasil para fazer o arcabouço fiscal atingir o déficit zero. A ideia seria manter os cofres públicos do Governo Federal sem prejuízo. Mas, ironicamente, o déficit foi pior devido às viagens ao exterior e às emendas parlamentares, com o valor assustador de onze trilhões de reais.
Foi a partir da manutenção dos juros altos que a economia do governo Lula causou estragos. Empresas falindo ou à beira da falência, desemprego em massa, multidões de endividados, aumento de população de rua, preços caros que quase fazem a cesta básica ficar vazia, entre outros problemas sérios. O arcabouço fiscal acabou sendo um cabo eleitoral negativo para Lula.
A hipocrisia das classes abastadas que apoiam Lula finge generosidade com o povo pobre, mas, à maneira do “amigo dedicado” do conto de Oscar Wilde, reage com desdém quanto à vida precária dos chamados excluídos sociais. Acham que a vida de pobre é uma beleza, que as favelas são paraísos de festas sem fim e que o trabalho precário é uma “oportunidade de crescimento”.
Mas o.povo pobre se sente traído e abandonado por Lula e é curioso que são os que estão bem de vida que mais apoiam o petista. E aí, com os juros altos, Lula não queria dar “cavalo de pau” na Economia, mas levou um coice que deve custar sua reeleição.

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