O jornalista Mário Sabino declarou, em entrevista à CNN Brasil, que a imprensa brasileira está sofrendo mais pressões do que no tempo da ditadura militar, no que se refere tanto à pressão estatal quanto aos padrões de autocensura nas redações. Disse o jornalista: “Nunca vi tantas ligações para diretores de redações com pedidos pela saída de jornalistas”.
A nosso ver, a imprensa brasileira vive a era do Jornalismo de Escritório, com a concentração de poder dos conselhos editoriais e a notícia cada vez mais tratada como mercadoria. É um fenômeno que se consolidou durante o governo Michel Temer, mas que o atual governo Lula deixou manter e até se ampliar. Um jornalismo em que a "liberdade de empresa" fala através da autocensura da mídia corporativa.
Essa triste realidade ocorre acima das ideologias. A grande mídia esticou a cordinha e, junto aos grandes veículos como Folha, Globo, Veja, Estadão etc, temos tanto O Antagonista e Oeste de um lado e, de outro, Diário do Centro do Mundo, Carta Capital e Revista Fórum. Brasil 247 não conta porque mais parece um fã-clube informal de Lula, um Diário Oficial do PT. E temos também veículos como a Super Rádio Tupi no embalo desse jornalismo para investidor inglês ver.
Esse jornalismo é a realização dos sonhos dos barões da mídia nos tempos do AI-5. Uma imprensa asséptica, insossa, com a notícia rebaixada a um produto de consumo. A questão não é ser esquerda ou direita, mas de vida, de função social da notícia, que desapareceu e deu lugar a um noticiário de cativeiro.
Até a overdose de informação dos “programas de locutor” e das rádios all news que despejaram o opinionismo de FM prejudicaram a verdadeira informação, pois o bombardeio de notícias e comentários impedia o ouvinte a parar para pensar.
Na verdade, a vida humana foi relegada a segundo plano, nesse jornalismo insípido e mercadológico. E não resolvem apelar para o pedantismo na Psicologia e na Filosofia, assim como no pretensiosismo de frases de famosos. Frases de personalidades como Oscar Wilde e Charlie Chaplin são atiradas ao vento.
E ainda temos o sensacionalismo estatístico sobre qual cidade é a mais barata do Brasil, qual a que tem mais mulheres e se elas são as mais afoitas. Ou pretensas análises de qual geração sabe resolver o problema ou se ela vai gerar pais mais responsáveis. Tudo com um pedantismo enciclopédico constrangedor.
Falta vida em grande parte do jornalismo atual. As reportagens de rua são apenas protocolares, mas falta aquele jeito vibrante de cobrir uma notícia. E não se fala de jornalistas coloquais ou com “sotaque de youtuber”. Fala-se de um Jornalismo honesto com os fatos e com a vida humana, que mostre o cotidiano como um organismo vivo e vibrante.
Não temos mais jornalismo investigativo de grande envergadura. Mas temos noticiários policialescos abusivamente irresponsáveis. A notícia como mera mercadoria é muitas vezes incompatível com o verdadeiro jornalismo investigativo, na medida em que a revelação dos fatos é corrompida pelo tendenciosismo e pela busca do sensacionalismo.
Daí as demissões dos jornalistas experientes, que incomodam menos pela ideologia e mais por um saber profundo que não raro prejudica os interesses dos detentores do poder, que temem pelo saber acumulado por veteranos que sempre primaram por um trabalho honesto e abrangente.
Os veteranos foram substituídos por jornalistas novatos de pouca vivência e que são até bastante comunicativos e, alguns, até esforçados, mas em maioria são desprovidos de uma visão de mundo mais consistente e que os faz mais submissos aos arbítrios dos patrões.
Hoje o Jornalismo trocou o senso crítico, que nos fazia pensar, pelo opinionismo que elitiza o saber e impede as pessoas de refletirem sobre um assunto. Daí as pressões para que se prevaleça um jornalismo trancado nas redações, que serve mais aos aninciantes e a grupos de poder político e econômico.

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