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ANTÔNIO FAGUNDES ESTÁ COM TODA RAZÃO

 PEÇA BAIXA TERAPIA, COM ANTÔNIO FAGUNDES, ENCENADA NO SHOPPING DA GÁVEA, NO RIO DE JANEIRO.

Elite do atraso não é só aquela que causa vandalismo político, promove golpes e fala a língua do hidrofobês. Há elites do atraso "bacanas", "legais" e que se acham "parafrentex", mas são dotadas de profunda irresponsabilidade sociocultural.

Um incidente ocorrido há poucos dias, no Rio de Janeiro, mostra o quanto a "gente legal" apronta, de forma não muito diferente dos bolsomínions da vida. Foi num dia de encenação da peça Baixa Terapia, com Antônio Fagundes no elenco, no Teatro Clara Nunes, no Shopping da Gávea. Além de Fagundes, a ex-mulher Mara Carvalho e a atual esposa do ator, Alexandra Martins, estão no elenco.

O ator divulgou a norma da produção do espetáculo, que proibe que pessoas cheguem em cima da hora do espetáculo começar. Fagundes procurou ser bem educado e gentil, pedindo às pessoas que chegassem meia-hora antes, e que evitassem falar no celular durante a encenação.

Pois um grupo de retardatários chegou tarde e causou uma enorme confusão na entrada do teatro, indignados com o que pensam ser seu "justo direito" de chegar no horário que quiserem. Uma "liberdade" burra, estúpida, que fez com que essas pessoas tentassem até mesmo empurrar a porta do teatro, além de reagir com gritaria e protestos. A polícia chegou a intervir no protesto, mas ninguém foi preso.

Antônio Fagundes, em entrevista ao jornal O Globo, classificou o episódio como um problema cultural, justificando que a proibição é para garantir a realização plena do espetáculo teatral, o que é justo. Disse o ator:

"Eu me sinto até desconfortável de falar sobre isso, porque é como se a gente tivesse que explicar para as pessoas o que significa a palavra ‘começa’. Se uma peça começa às 20h, a pessoa não pode chegar no teatro faltando dois minutos para as 20h e achar que ela está no direito de atrapalhar as outras pessoas. Esse não é um problema particular do Rio de Janeiro. É um problema cultural, nosso.

É como se fôssemos tão especiais que as coisas só pudessem então começar quando a gente chega. Parei de ir à cinema por causa disso. As pessoas são impossíveis: acendem a luz do celular e ficam falando. É um transtorno tão grande! Não quero que o público das minhas peças sofra o mesmo mal-estar".

Muitas pessoas não percebem que o espetáculo teatral exige atenção do público. A peça é para ser vista, dentro de uma disciplina que pode variar conforme a natureza do espetáculo. O movimento Living Theatre, nos anos 1960, por exemplo, exige que a pessoa se prepare para ela interagir com os atores do elenco, e esse tipo de teatro foi introduzido no Brasil por José Celso Martinez Correa.

O caso de Baixa Terapia é outro, mais convencional, mas muitíssimo válido. Afinal, como toda peça teatral, há um grande trabalho para ensaiar, memorizar o texto, para os atores envolvidos se dialogarem no enredo da peça, e tudo tem que ser impecável. A peça tem um enredo que precisa ser visto no seu todo, não tem a menor graça chegar atrasado e tirar onda que foi ver um ator famoso.

Esse público "bacana" que só vai para os eventos para aparecer - o que, para eles, faz com que não haja diferença entre um concerto com Maria Bethânia e uma apresentação da popularesca Ivete Sangalo - já fez horrores em 1999, quando vaiou o saudoso João Gilberto, que reclamou dos problemas acústicos do então Credicard Hall, em São Paulo, que prejudicava a sua refinada performance de Bossa Nova, que exigiu até mesmo posições específicas entre cantor e orquestra e um microfone próprio para o violão.

E o que dizer das centenas de celulares erguidos por cada público numa apresentação ao vivo, algo que atrapalha muito ver o artista no palco? É outra falta de respeito, sobretudo se vermos a obsessão doentia dos "cineastas de smartphone" que, querendo gravar um concerto para publicar no YouTube, acabam fazendo um trabalho porco, focalizando o palco à distância e com qualidade de imagem ruim. Grande perda de tempo, em que se perde a oportunidade de se emocionar em ver um artista no palco, e gravar o show na memória afetiva de ver e sentir a apresentação do artista e a expressão de seu talento.

Esse público "muito legal", que tenta fazer bem na fita nas redes sociais e que acha que representa "tudo de bom" na vida humana, é o mesmo público que joga comida fora quando almoça em restaurantes de shopping centers. É um público que, a pretexto de publicar filosofia e ideias intelectualizadas, fica postando frases curtas qualquer nota, sem medir escrúpulos de publicar obscurantismo religioso travestido de "lição de vida".

Ou seja, essa gente "culta" não se prepara para ter responsabilidades, como no caso de tentar chegar o mais cedo possível para ver uma peça de teatro, chegando ao Shopping da Gávea com várias horas de antecedência, talvez até passando o dia inteiro no local. Em vez disso, o pessoal ainda quer se impor e pedir respeito ao seu falso direito de ter que atrasar para ver uma peça, o que é uma alienação cultural grotesca, porque pouco importa entender uma peça, na obsessão de apenas ver pessoalmente um famoso.

Afinal, esse pessoal "descolado" deixa a máscara cair, pois pouco se interessa em ver uma peça de teatro. Pensa que, vendo Antônio Fagundes no palco, pode-se ver a peça a partir do meio, como se estivessem em casa zapeando na televisão e ver o mesmo ator na reprise de O Rei do Gado, num fragmento de cena, enquanto brincam com o controle remoto para ver o que cada canal está passando, tipo um jogo de futebol no Sportv, uma reprise do Chaves no Multishow, um reality show perdido por aí...

Antônio Fagundes está com toda razão, e ele, seus colegas de elenco e a equipe técnica dão duro para oferecer um espetáculo que é para ser visto. Mais do que ter carisma, Fagundes é um ator e se deve ver a peça como um todo, do começo ao fim, para entender uma obra artística. Isso é cultura, que exige que se aprecie obras artísticas e não sucumbir ao mero fetichismo ou à obsessão narcisista de dizer que "esteve lá". Uma peça teatral merece respeito, daí a obrigação de chegar antes do horário para receber os atores numa encenação que é uma experiência ímpar.

Encerramos publicando o comunicado da produção de Baixa Terapia, com uma nota bastante simpática e respeitosa:

"Entendemos plenamente as dificuldades, principalmente nas grandes cidades, de se programar para cumprir as regras de um evento com horário marcado: o trânsito pesado, às vezes a chuva, uma blitz ou até mesmo a insegurança da própria cidade. Assim como também entendemos que imprevistos pessoais muitas vezes nos pegam de surpresa.

Porém, independentemente de qualquer situação adversa nós precisamos adotar uma única política de compromisso com o público para que sejamos justos e respeitosos. A peça Baixa Terapia começa rigorosamente no horário marcado - com relógios acertados pelo horário de Brasília – e não é permitida a entrada na sala de espetáculos após o início da sessão, também não será possível a troca de ingressos e nem a devolução do dinheiro. Esta informação é amplamente apresentada em todo nosso material de divulgação e no site de vendas de ingressos.

A compra do ingresso firma compromissos da Produção com o Espectador e vice-versa: o Espectador assistirá ao espetáculo no lugar escolhido e a Produção apresentará espetáculo que foi prometido, na hora marcada. Quando um ingresso é vendido o lugar no Teatro fica absolutamente bloqueado para a pessoa que fez a compra e não poderá ser vendido para mais ninguém. No caso de ausência do Espectador o espetáculo não é suspenso, ele acontece da mesma forma e a Produção não pode ser penalizada pela ausência do Espectador na sessão.

Em não permitir a entrada depois do início da peça, temos como único objetivo preservar o espetáculo para todos os Espectadores que já se encontram na sala assistindo à peça em curso. Todos nós sabemos o transtorno e incômodo que pessoas entrando atrasadas numa sala escura, falando, usando a lanterna dos celulares e procurando seus lugares para se sentar trarão injustamente aos demais espectadores, aqueles que se programaram para chegar com antecedência ao Teatro. Vale ressaltar que em todas as sessões, no horário marcado, mais de 95% do público já se encontra sentado dentro da sala pronto para assistir ao espetáculo.

No caso do Teatro Clara Nunes no Shopping da Gávea você precisa, se for o caso, estacionar o seu carro no subsolo ou na cobertura do prédio ou desembarcar na entrada principal do shopping no térreo, caminhar pelos corredores para localizar o Teatro no terceiro piso e aí então entrar na sala e achar o seu lugar. Assim, para que você esteja na sala no horário em que o espetáculo começa é necessária a chegada ao Teatro com antecedência.

Com todo nosso respeito e carinho, temos certeza de que você ficaria muito desconfortável em perder cenas da peça com pessoas falando e passando na sua frente enquanto o espetáculo acontece. Nós da Produção precisamos pensar em todos e entendemos, portanto, que essa é a melhor regra de convívio e respeito para que o público possa se divertir, se emocionar e viver a melhor experiência no Teatro.

Volte! Você será sempre muito bem recebida (o)!"

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