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O “LÁPIS DE DEUS”, O CORONELISMO MINEIRO E O SILÊNCIO DA IMPRENSA


Um humilde blogueiro e semiólogo é esforçado e corajoso ao identificar as bombas semióticas distantes, sejam elas na Polônia, na Coreia do Sul ou na Espanha. Mas quando se trata de perigosos arsenais, paióis semióticos de potencial explosivo localizados em Uberaba, o nosso prestigiado professor troca o teclado do computador pela flanela, prestes a fazer suas melindrosas passagens de pano.

A traiçoeira mística em torno do “médium da peruca” tentou mais uma manobra há poucos dias, quando lançou mão de uma tese confusa, publicada em um periódico de baixíssimo fator de impacto na comunidade científica, que supostamente apontaria acertos na “psicografia” do obscurantista da fé “raciocinada”. 

A tese se baseou em uma gravação de quase uma hora feita em Pedro Leopoldo, em junho de 1955. Na imprensa brasileira, a notícia foi divulgada pela revista Veja, famosa pelas posições reacionárias divulgadas de maneira intensa entre 2002 e 2016.

A alegação feita pelos dublês de intelectuais que fazem de um núcleo da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Juiz de Fora um puxadinho do Espiritismo brasileiro, o que é uma afronta ao caráter laico que deveria ser o ensino superior e, sobretudo, o de pós-graduação, era de que as “psicografias” apresentavam dados “inacessíveis” através de contatos ou fontes comuns.

Isso tudo é papo furado, pois as informações podem ser inacessíveis para uns e acessíveis e óbvias para outros. O que uma suposta mensagem “mediúnica” diz pode ser desconhecida para alguns parentes e amigos de um falecido, mas podem ser bastante conhecidas para outros. Atribuir ineditismo para forçar uma autenticação a essas mensagens, que sempre apontam algum aspecto duvidoso, não faz sentido algum.

Vivemos numa época em que se aproximam as lembranças dos 65 anos da morte suspeita do jovem Amauri Pena, sobrinho do “médium”, a serem completados em setembro próximo. Apesar do caso estar prescrito e, havendo suspeitos, eles estariam falecidos, essa morte não só esteve longe de ser culpa da própria vítima como o óbito, provavelmente provocado com métodos mafiosos, teve seu provável motivo prenunciado com três anos de antecedência, pela revista Manchete de 09 de agosto de 1958.

Mas ninguém investiga o “médium” que, em que pese a imagem de “bondade absoluta” que carrega há pouco mais de 50 anos e lhe deu o título de “lápis de Deus” - um mito fabricado pela ditadura militar para anestesiar a população brasileira - , foi beneficiado pela mais absoluta impunidade desde que um juiz com atribuições semelhantes ao de Sérgio Moro deu por “improcedente”, em 1944, um processo judicial movido pelos herdeiros do escritor Humberto de Campos, subestimado escritor que hoje “sobrevive” apenas pelas grosseiras obras fake que carregam seu nome e foram trazidas pelo “médium da peruca”.

E por que ninguém investiga o “médium”? Porque seria “perseguição impiedosa a um homem de bem”? Nada disso. Por trás dessa imagem “bondosa” e do jeito “agradável” com que o “médium” envolvia e dominava as pessoas, estava um sujeito reacionário, maledicente e ranzinza, que não suportava ver pessoas lamentando o sofrimento e dizia para estas suportarem caladas as piores desgraças, sob a desculpa de “não atrapalhar a felicidade dos prósperos”.

Ninguém investiga porque, através de uma pesquisa, constatamos um histórico muito importante da profissão do “médium” que, atuando como inspetor sanitário de gado no Triângulo Mineiro, tornou-se não só um protegido dos ricos fazendeiros criadores de gado zebu, uma espécie bovina considerada uma das mais caras do mundo, como sua imagem de “humilde” teria sido derrubada quando o “médium” doava casarões para instituições “espíritas”. 

Ou seja, o “médium”, por trás de seu suposto “voto de pobreza”, quando supostamente doou a renda de seus livros “mediúnicos” para a “caridade” - na verdade, para dirigentes “espíritas” de caráter nacional e regional, neste caso em Minas Gerais - , teria sido um grande proprietário de terras, como prêmio por defender os interesses do coronelismo mineiro que exerce seu poder de ferro no Triângulo Mineiro.

O dito “lápis ou carteiro de Deus” também foi um colaborador estratégico da ditadura militar, pois foi homenageado pela Escola Superior de Guerra em 1972. A ESG - note o nome “guerra”, relacionado a alguém, em tese, associado à “paz” - era o cérebro da ditadura militar.

Foi montada uma narrativa, sem pé nem cabeça, que a homenagem teria sido uma manobra da ESG de se promover às custas de um “homem de bem” e que o “médium” aceitou para evitar a prisão. Não há um pingo de lógica. Ninguém é homenageado a força e ninguém homenageia outrem a contragosto.

A verdade é que o “médium” que chegou a enganar até setores das esquerdas, do ateísmo e até, pasmem, da cultura rock, que aderiram a ele através de uma clara Síndrome de Estocolmo, defendeu abertamente a ditadura militar no programa Pinga Fogo, da TV Tupi, em 1971, diante de uma grande audiência na época. Sua defesa da ditadura apresentava níveis de hidrofobia comparáveis aos que vemos nos bolsonaristas hoje em dia.

Mas há muito silêncio e muita passagem de pano nesse obscurantista religioso de ideias medievais, que fizeram o Espiritismo brasileiro ser apenas um nome de fantasia para a volta do velho Catolicismo da Idade Média que, através do colonialismo português, foi difundido no Brasil através do movimento jesuíta. E isso é tão verídico que o padre jesuíta Manuel da Nóbrega é considerado “pensador maior” entre os “espíritas”.

Esse silêncio parece lindo aos olhos dos incautos e de gente de boa-fé, mas se trata de uma omissão irresponsável e perigosa e que é motivada porque o “médium” de Minas Gerais tem um privilégio maior do que qualquer pastor ou “bispo” neopentecostal: o apoio dos mais ricos e poderosos fazendeiros do Triângulo Mineiro, que exploram a espécie mais cara de gado bovino e cujo poder vem desde o Ciclo do Ouro do período colonial. 

Portanto, é poder demais para classificar um de seus aliados como “símbolo de humildade, dedicação ao próximo e defesa do progresso humano”. Para quem pedia para os oprimidos suportarem calados as piores desgraças, essas atribuições positivas da frase anterior deste parágrafo soam pura cascata.

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