Nos últimos dez anos, o Jornalismo sofreu vários infortúnios. Além do empoderamento da mídia venal através da campanha lavajatista, vimos o fechamento de versões impressas dos periódicos, demissões em massa de jornalistas novos e veteranos e enxugamento das estruturas de grandes veículos de imprensa, que se tornavam “empresas pobres de empresários ricos”
E ainda temos o bonapartismo radiofônico do “jornalismo de FM”, espécie de extended versions dos noticiários de TV, oferecendo overdose de informação sem permitir ao ouvinte parar para respirar, pensar e, simplesmente, viver. Essas rádios ainda têm o descaramento de hierarquizar a opinião pública, tratando os ouvintes como se eles não tivessem opinião.
Com a decadência do bolsonarismo, fechando, em 2022, o ciclo abertamente golpista iniciado em 2015 (época das primeiras manifestações contra a presidenta Dilma Rousseff), a ciranda da mídia mudou. Uma imprensa mainstream passou a acolher veículos emergentes, tanto da mídia lavajatista quanto da mídia progressista.
Enquanto o “combate ao preconceito” que defendeu a bregalização cultural derrubou a revista Caros Amigos e encerrou a versão impressa da Fórum, e o lavajatismo viu a Época ser extinta e a Isto É, recentemente, aposentar sua versão de papel, uma nova rede de relações midiáticas se desenvolveu.
Nos últimos anos se desenvolveu uma mídia insípida, uma versão politicamente correta do que a mídia hegemônica reivindicava da ditadura que apoiava, uma autocensura que não atrapalhasse a agilidade da imprensa, mal que a Censura Federal trazia, com sua morosidade, até para veículos solidários ao regime, como o Estadão.
Foi criado um cenário em que temos impérios midiáticos como Globo, Folha, Abril e Estadão, mais veículos neocons como O Antagonista, Metrópoles e Oeste, veículos “neutros” como Poder 360 e Catraca Livre e veículos da mídia progressista como Diário do Centro do Mundo, Carta Capital e Fórum.
A notícia se rebaixa e mercadoria, sem o compromisso de fazer o público pensar, embora às vezes isso seja um efeito inevitável. Mas o compromisso social é mínimo, apenas dentro do que o “sistema” permite. A informação é hierarquizada e os fatos não falam por si, mas conforme deseja a elite que detém o poder.
Estamos falando de um jornalismo de escritório, a “frente ampla” de uma mídia empresarial que pode ter suas divergências ideológicas aqui e ali, mas cujos veículos se comprometem, juntos, a criar um padrão asséptico de sociedade, A ideia é botar nas mãos de equipes editoriais a posse da verdade e de narrativas “agradáveis” que possam anestesiar o povo sem oferecer risco às elites privilegiadas e fazer o debate sobressair para o lado de narrativas oficiais.
Com as “recompensas” noticiosas de enumerar cidades com melhor qualidade de vida, preços baixos e até as mulheres mais bonitas e os recursos minerais mais preciosos, o jornalismo de escritório também se destaca por ter no seu quadro profissional gente mais nova, com visão de mundo comparável à de um youtuber, mas com esperteza suficiente para argumentar e produzir narrativas convincentes.
Por isso vemos o quanto significou a debandada de jornalistas experientes na mídia dos últimos anos. Isso vai muito mais do que uma questão de economizar salários ou renovar o quadro de profissionais, mas de tirar de circulação gente com vivência e visão de mundo mais consistentes, substituída por jornalistas novos e mais obedientes e que podem usar o Wikipedia para compensar a baixa vivência e a pouca compreensão do mundo em que vivemos.
Aí, quem sabe o jornalista mais ou menos entra numa editoria especial e, recebendo releases de prefeituras, possa enumerar qual cidade brasileira se equipara às melhores cidades da Europa. Ou então reproduzir frases de filósofos com direito a uma foto de Inteligência Artificial para ilustrar. Serão pequenas doses se água com açúcar para compensar um jornalismo asséptico que só serve para transformar a notícia em mais uma mercadoria sem graça como as outras.
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