PRESIDENTE MÉDICI VISITANDO AS OBRAS FINAIS DA PONTE RIO-NITERÓI EM 1973. POUCO TEMPO DEPOIS, A DITADURA DECIDIU PELA FUSÃO DOS ESTADOS DO RIO DE JANEIRO E DA GUANABARA.
A fusão entre os Estados do Rio de Janeiro e da Guanabara criou uma zona de conforto que faz com que a burguesia rebaixasse as demais cidades do atual Grande Rio em subdistritos da hoje capital fluminense. E isso envolve Niterói, antiga capital fluminense e hoje reduzida a uma cidade-vassala do município vizinho, com sérias limitações para sua urbanização e qualidade de vida.
Só para sentir o drama, Niterói não tem uma avenida ou rodovia própria ligando dois bairros, como Rio do Ouro e Várzea das Moças, que dependem de uma rodovia estadual, a RJ-106, para se ligarem, atrapalhando o trânsito de quem vai e vem de longas distâncias através da referida estrada que é um dos troncos da Rodovia Amaral Peixoto.
Isso reflete até no atraso de distribuição de mercadorias em cidades como Saquarema, Maricá e Araruama, por conta do trecho da RJ-106 convertido em "avenida de bairro". Linhas de ônibus de Niterói e São Gonçalo também são prejudicadas com o prolongamento desnecessário dos percursos, devido a esse problema da rodovia estadual.
Do mesmo modo, a urbanização niteroiense também encontra limites, pois há uma resistência em construção de shoppings e a revitalização comercial é limitada apenas a interesses de grupos políticos, que não têm competência para analisar as sutilezas da mobilidade urbana e da vida comercial na cidade.
Um potencial shopping center que poderia ter sido o Rio Decor da Avenida Feliciano Sodré foi descartado, dando lugar a um condomínio fechado nos moldes anacrônicos do "resort", sem chance de construir um minishopping que é uma tendência no mercado imobiliário de São Paulo, criando uma lacuna comercial entre a Rodoviária de Niterói e o Supermercado Dom, prejudicando a revitalização comercial na área próxima aos acessos à Ponte Rio-Niterói.
A Ponte Rio-Niterói foi uma construção válida e necessária, mas além dela hoje ter uma estrutura saturada para o tráfego entre as duas cidades, a ditadura usou a sua construção para simbolizar a fusão arbitrária entre os antigos Estados do Rio de Janeiro e Guanabara, que de forma surreal segue inalterada, apesar da capacidade política do Brasil em ter criado novos Estados, Mato Grosso do Sul e Tocantins.
A fusão trouxe até piadas ofensivas a Niterói - que no passado era o Eldorado dos moradores do interior fluminense - , como declarar que "a melhor paisagem de Niterói é a do Rio de Janeiro" (em Niterói se vê, em sua orla, as vistas do Pão de Açúcar e do Corcovado), e ultimamente a população niteroiense é tão provinciana e vassala que os times mais populares de futebol não são os clubes locais Tio Sam e Canto do Rio, mas o Flamengo e o Vasco, na cidade vizinha.
Muitos se contentam com a permanência da fusão na zona de conforto político-administrativa. Mas só empresários, políticos e as oligarquias do crime organizado se beneficiaram com essa fusão que foi imposta pela ditadura militar, apesar de muitos tratarem essa junção como uma suposta vontade popular que faz muitos desavisados incluírem Niterói em páginas como "Rio Antigo" e "Rio Que Eu Não Vivi", nas redes sociais, como se a terra de Arariboia fosse um "quintal" do município vizinho.
Um texto que explica muito bem os aspectos políticos dessa fusão, que prejudicou as classes populares, foi escrito pelo advogado e cientista político Jorge Folena, no portal Brasil 247, que descreveu a perversa razão da fusão que faz muitos ingênuos dormirem tranquilos o sono dos anjos:
"Além da severa repressão, a ditadura, sem consulta popular, em 15 de março de 1975, impôs a fusão dos Estados da Guanabara e do antigo Estado do Rio de Janeiro, decorrente da Lei Complementar Federal nº 20/1974. A fusão possibilitou que a estrutura política da oligarquia do antigo Estado do Rio de Janeiro se sobrepusesse à organização de poder no novo Estado que foi constituído, sem ouvir as populações dos dois estados".
A fusão já foi pensada logo que Brasília foi inaugurada, em abril de 1960, e ela partiu de políticos conservadores e de empresários, que achavam que dividir negócios entre as duas cidades vizinhas era "oneroso" e "duplicado". As elites empresariais desejavam concentrar os negócios na cidade do Rio de Janeiro, fazendo com que Niterói virasse uma mera cidade-dormitório.
Havia interesses também de, com a fusão, se desfizesse o cenário político dos líderes de 1950-1960, como Juscelino Kubitschek, João Goulart e, principalmente, Carlos Lacerda, que governou o Estado da Guanabara. Um grupo político formado a partir de Roberto Saturnino Braga, marcado pelo fisiologismo político, se formou e hoje está representado pelo atual candidato ao governo estadual, Eduardo Paes.
Com essa deterioração política, Folena descreve o fato da CIA liberar a comercialização de entorpecentes para depois plantar o factoide do "combate ao narcotráfico" - algo comparável ao de um policial pôr uma trouxinha de droga na mochila de um estudante ou trabalhador e depois prendê-lo por "tráfico de drogas" - e da promiscuidade política com a contravenção, o tráfico e, mais recentemente, as milícias.
Folena também descreve que a CIA também investiu em seitas religiosas para combater as ações sociais e humanitárias da Teologia da Libertação católica, mencionando as igrejas neopentecostais. Isso é fato, mas o advogado se esqueceu que a CIA fez o mesmo com o Espiritismo brasileiro, promovido sob a falsa reputação de "ecumenismo progressista".
O Espiritismo brasileiro, que não passa de um nome de fantasia para o relançamento de velhas correntes medievais expurgadas da Igreja Católica, foi divulgado através do mito de um "médium" de Pedro Leopoldo e Uberaba, de passado sombrio (acusado de charlatanismo e falsidade ideológica usando nomes como o de Humberto de Campos) e que foi transformado pela ditadura militar a um pretenso "filantropo", pretenso profeta e dublê de dramaturgo, com o fim de anestesiar a população brasileira.
O "médium" foi promovido a "símbolo de caridade" nos mesmos moldes que o jornalista católico britânico, ultraconservador e colaborador da CIA, Malcolm Muggeridge, fez para "glorificar" a megera Madre Teresa de Calcutá, acusada de alojar miseráveis em condições degradantes. A campanha para exaltar o "médium" foi planejada pela Rede Globo de Televisão, emissora de TV que mais apoiava a ditadura.
O mais irônico é que o "médium da peruca" fez contra Niterói um julgamento de valor da mais extrema crueldade contra as pessoas humildes que assistiram a um espetáculo circense que resultou em tragédia devido a um incêndio criminoso cometido por um ex-funcionário vingativo, a uma semana do Natal de 1961.
Em um livro de 1966 de "cartas e crônicas", o "médium", usando levianamente o nome de Humberto de Campos (mal disfarçado pelo pseudônimo "Irmão X"), acusou, sem fundamentos, a população humilde que foi ao Gran Circo Norte-Americano ver o espetáculo de ter "pagado pelo que devia", sob a alegação de terem supostamente sidos, em encarnação distante, uma multidão da Gália do Século II que sentia prazer em ver pessoas sendo queimadas vivas em plena arena.
E o que aconteceu com o "médium"? Foi condecorado pela Câmara Municipal de Niterói em 1974 - a essas alturas por um grupo político depois beneficiado com a fusão - e recebeu homenagem com seu nome usado para uma "avenida de ciclovia" do bairro niteroiense de Piratininga, um logradouro sem asfalto que mal dá para passar automóveis residenciais e tem um grande trecho que mais parece estrada carroçável de alguma cidade rural perdida no interior.
Quanto à fusão dos Estados do Rio de Janeiro e da Guanabara, o resumo desta trágica ópera marcada pelo genocídio gradual da população pobre, principalmente crianças, mas também pelo eventual extermínio de turistas, inclusive estrangeiros, pelas tais "balas perdidas", é que, enquanto o Rio de Janeiro se sobrecarregou cuidando do restante do Estado, as demais cidades fluminenses próximas ao famoso município deixaram de ter a antiga autonomia, se degradando em cidadania e qualidade de vida.
Em outras palavras, o Estado do Rio de Janeiro passou a ficar dependente da cidade homônima, enquanto a cidade do Rio de Janeiro se desgastou com a responsabilidade de liderar com um Estado inteiro, quando, nos tempos da Guanabara, a antiga "Cidade Maravilhosa" tinha a oportunidade de cuidar somente de si mesma, uma cidade extremamente complexa e difícil de se lidar.
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