A prisão de MC Ryan SP e MC Poze do Rodo, dois nomes do “funk ostentação” que introduziram a franquia estadunidense do trap - que no país hoje governado por Donald Trump era um derivado do gangsta rap - , fazem a gente pensar a respeito da longa choradeira em prol do”funk”.
Foram uns 25 anos de muita choradeira, que fabricou uma falsa reputação “libertária” do ritmo popularesco. O “funk” era só um pop dançante comercial, medíocre e às vezes até engraçado, mas foi só a polícia intervir para que se produzisse uma narrativa ao mesmo tempo vitimista e triunfalista, como o prato principal do grande cardápio brega-popularesco do discurso do “combate ao preconceito”.
Todos os ritmos brega-popularescos faziam a sua choradeira difundida pela intelectualidade “bacana”, mas foi o “funk” que apelou para essa retórica desesperada. E, enquanto famílias pobres viam com desconfiança o entretenimento funqueiro que, não raro, colocava meninos das favelas em encrencas e meninas na gravidez precoce, a burguesia ilustrada exaltava esse ativismo falso de uma etnografia postiça.
Havia o discurso da “cultura das periferias” dentro de um nada generoso ideário trazido por intelectuais e jornalistas endeusados por seus pares.
Nesse ideário, favelas eram “paraíso”, a miséria uma “identidade”, a prostituição um “empoderamento feminino”, a pirataria e o comércio clandestino formas de “guerrilha subversiva”, o subemprego uma forma de “gerar renda” e o alcoolismo uma forma de “consolo” para as tristezas da vida.
Sim, são visões perversas, vindas de uma elite que, dita “sem preconceitos”, era terrível e cruelmente preconceituosa, com apetite comparável ao dos bolsonaristas, em que pese essa gente “superbacana” jurar ser “de esquerda”.
E o “funk”, que nunca foi de esquerda - apenas se passava de “esquerdista” visando obter verbas de incentivo dos governos do PT - , por ter surgido sob as mesmas condições socioculturais do bolsonarismo, mostra agora que seu discurso de “pobreza” e “negritude” é uma farsa, apesar da “falácia do espantalho “ de seus defensores, que acusam indevidamente os opositores ao ritmo de serem “racistas” (ignorando, por exemplo, que muitos detratores dos funqueiros adoram jazz, blues e o funk autêntico de James Brown e derivados).
Os funqueiros sempre usavam a desculpa de que, ganhando mais dinheiro, “melhorariam” musicalmente, o que foi conversa para boi dormir. O “funk” sempre viveu da precarização musical, pelo rigor estético nivelado por baixo e pelas baixarias, das quais passava pano botando culpa na “sociedade”. Ou seja, hipócrita, o “funk” mantinha suas qualidades negativas sem ter coragem de combater, mesmo sendo fruto da realidade presente. As funqueiras se diziam “feministas”, mas seguiam com gosto os rituais da objetificação do corpo própria do machismo.
Depois do sucesso do “funk”, que agrada mais a burguesia ilustrada do que o pobre da vida real, que desconfia do falso ativismo do gênero, os funqueiros passaram a colecionar mansões, carros importados e jatos, além de joias. E tudo isso usando a negritude como carteirada. Assim os negros se sentem ofendidos, forçados a serem reféns do “funk” que, como toda vertente da música brega-popularesca, sempre trata o povo pobre como se fosse uma caricatura.
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