Pular para o conteúdo principal

NÃO, GUNS N'ROSES NÃO REABILITOU O HARD ROCK

 
NOVEMBER RAIN - AMOR DE PRIMAVERA EM CHUVA DE VERÃO.

O instinto vira-lata do brasileiro médio contemporâneo contamina geral. A elite do bom atraso difunde seus valores privativos como se fossem universais e acha que o mundo inteiro, quiçá o universo todo, podem caber na palma da mão dessa sociedade megalomaníaca, desses 30% de brasileiros que se acham donos de tudo.

Certa vez o vício de linguagem fez uma matéria de um acidente em Belo Horizonte, anteontem, em que um Porsche em velocidade altíssima de 260 km/h bateu em pistes e árvores na Avenida Barão Homem de Mello e um passageiro foi arremessado para fora do veículo e morreu. O motorista, que dirigia embriagado e tinha a carteira de habilitação vencida, saiu ferido. Coisas da sociedade que quer demais na vida, bebendo cerveja adoidado e comprando carrões caríssimos. O Porsche ficou destruído.

E o vício de linguagem? O repórter teve a ideia infeliz de dizer que a dupla "saiu de uma balada" insistindo no uso da gíria "balada", jargão da Faria Lima, de Luciano Huck e da Jovem Pan. Mesmo que esta palavra fosse mencionada por algum depoimento, é porco citar essa gíria. O certo é dizer que os caras "sairam de uma festa noturna". Daqui a pouco vão noticiar estupro com um homem preso por fazer "nheco-nheco" na vítima. O jornalismo, mesmo em crise, merece respeito, com o uso das palavras sem os vícios de youtubers, né?

Mas voltando ao nosso assunto - se bem que a gíria "balada" é expressão desse culturalismo vira-lata enrustido, que vai muito além do perímetro urbano e rural do bolsolavajatismo - , a elite do bom atraso tem seus herois privativos, de "médiuns" a funqueiros, expressando esse viralatismo embalsamado pelas redes sociais.

Só mesmo nesse Brasil atrasado temos falsos gênios. Michael Sullivan é a velha raposa do brega que quer tomar para si o galinheiro da MPB. Outro Michael, o Michael Jackson, só é considerado "gênio indiscutível" aqui no Brasil, porque lá fora ele foi apenas um cantor bom, nada excepcional, que decaiu com o sucesso e terminou a vida como uma subcelebridade. Ainda vamos falar nisso em breve.

No rock, em que temos a supervalorização de nomes apenas medianos e pouco representativos lá fora, como Outfield e Johnny Rivers, Guns N'Roses são outros falsos gênios endeusados com cego fanatismo pelos brasileiros. Não me esqueço de um universitário que em 2001 folheou meu zine O Kylocyclo (o cara não comprou, por "fala de dinheiro") e fez cara de estado de choque com um texto cujo título já negava que a banda de Axl Rose fosse um grupo de classic rock.

Mesmo críticos musicais com notável competência acabam embarcando na lorota de que o Guns N'Roses "reabilitou o hard rock no mundo". A lorota é a seguinte: bandas de metal farofa estavam fazendo muito sucesso na segunda metade da década de 1980 e eis que o Guns N'Roses, com seus dois primeiros álbuns, teria "imposto moral" no rock, retomando o peso e a energia e blablablá.

A virada dos anos 1980 para os 1990 seria então a "vitória" do rock pesado graças a Axl e companhia. E aí essa narrativa prevaleceu no Brasil, cuja cultura rock se torna refém de uns mauricinhos esquentadinhos que pensam ser rebeldes e ouvem as canastronas 89 FM A Rádio Rockefeller da Faria Lima e a Rádio Cidade, do Rio de Janeiro, hoje a web radio da Barra da Tijuca. Esses jovens não ouvem 99% do legado geral do rock e se acham donos da cultura rock, espalhando terror e vomitando arrogância contra quem discordar do que pensam  esses peões de Barretos escondidos em jaquetas de couro.

Mas a verdade é que o Guns N'Roses nunca foi rock clássico. Essa ilusão é coisa de quem nunca ouviu rock de verdade, sobretudo quem nasceu nos últimos 45 anos, cujo máximo de rockão era "Fera Neném" e "Ursinho Blau-Blau", pois Legião Urbana era "rock progressivo" demais para esse pessoal. E aí vemos o quanto músicas fáceis tipo "Sweet Child O'Mine" (quase uma cover de "Fogo e Paixão" do Wando) são consideradas a "Stairway to Heaven" da geração Tik Tok, a mesma que tem em Michael Sullivan o "Tom Jobim para chamar de seu".

E falando em Sullivan, difícil não lembrar das canções xaroposas de José Augusto, o autor de "Evidências", quando se houve a breguíssima "November Rain". Os arranjos de "November Rain" se encaixariam no repertório do cantor brega bolsonarista e parece "chupada de "Sonho por Sonho" do ídolo brasileiro.

Achar que uma banda que faz uma canção tão cafona assim reabilitou o rock, principalmente o hard rock, é um grande contrassenso. Pura preguiça bem de acordo com a mente provinciana que contamina nosso país, onde até os roqueiros se acomodaram nas zonas de conforto do hit-parade.

Quanto às canções mais vigorosas, o Guns N'Roses nunca passou de uma patética caricatura do Led Zeppelin, mil anos-luz inferior à icônica banda britânica. O som do Guns N'Roses não difere muito do de outras bandas de metal farofa que contaminaram o cenário roqueiro dos anos 1980.

E imaginar que os roqueiros mauriçolas ouvintes da 89 e Cidade fazem pose de durões destemidos mas fogem de medo do verdadeiro rock, é coisa típica desse Brasil vira-lata. Um país atrasado que apela até para a exaltação da mediocridade musical, trilha sonora exata para os valores chinfrins tidos como "geniais" por essa elite do bom atraso metida a ser dona de tudo.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

DOUTORADO SOBRE "FUNK" É CHEIO DE EQUÍVOCOS

Não ia escrever mais um texto consecutivo sobre "funk", ocupado com tantas coisas - estou começando a vida em São Paulo - , mas uma matéria me obrigou a comentar mais o assunto. Uma reportagem do Splash , portal de entretenimento do UOL, narrou a iniciativa de Thiago de Souza, o Thiagson, músico formado pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) que resolveu estudar o "funk". Thiagson é autor de uma tese de doutorado sobre o gênero para a Universidade de São Paulo (USP) e já começa com um erro: o de dizer que o "funk" é o ritmo menos aceito pelos meios acadêmicos. Relaxe, rapaz: a USP, nos anos 1990, mostrou que se formou uma intelectualidade bem "bacaninha", que é a que mais defende o "funk", vide a campanha "contra o preconceito" que eu escrevi no meu livro Esses Intelectuais Pertinentes... . O meu livro, paciência, foi desenvolvido combinando pesquisa e senso crítico que se tornam raros nas teses de pós-graduação que, em s...

MÚSICA BREGA-POPULARESCA CRESCEU DEMAIS E SUFOCA RENOVAÇÃO NA MPB

"EMEPEBIZAR" O SOM BREGA-POPULARESCO, COMO NO CASO RECENTE DO ÍDOLO DO PISEIRO, JOÃO GOMES, SOA FORÇADO E CANASTRÃO E NÃO RESOLVE A CRISE QUE VIVE A MÚSICA BRASILEIRA DE HOJE. Uma demonstração de que vivemos numa situação de devastação cultural é o crescimento das várias tendências da música popularesca, numa linhagem que começou com os primeiros ídolos cafonas e hoje se desdobrou em fenômenos como o piseiro, a sofrência, o trap e o arrocha. Depois que vieram críticos musicais alertando sobre a gravidade da supremacia popularesca nos anos 1990 - com Ruy Castro e os finados Arnaldo Jabor e Mauro Dias mostrando sua contundente e nem sempre agradável lucidez - , houve uma reação articulada pelo tucanato cultural, envolvendo setores da USP ligados ao PSDB, as Organizações Globo e a Folha de São Paulo e, é claro, o empresariado da Faria Lima. Eles montaram uma narrativa que toma emprestado jargões da militância terceiro-mundista, usados de maneira leviana e tendenciosa pela intele...

O BRASIL CONTINUA CULTURALMENTE DEGRADADO

WAGNER MOURA EM CENA DE O AGENTE SECRETO , FILME DE KLEBER MENDONÇA FILHO. A premiação dada ao filme O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho como Melhor Filme Estrangeiro e de Melhor Ator para Wagner Moura, no Globo de Ouro (Golden Globe Awards, em inglês) pode ser animador para nosso cinema e incentiva reflexões a respeito de políticas culturais para o nosso país. Mas isso não significa que o Brasil esteja em um excelente cenário cultural. Nosso cenário cultural está péssimo, deteriorado. O que preocupa é que casos pontuais como os de O Agente Secreto e outro filme, Eu Ainda Estou Aqui, de Walter Salles Jr., não dão o diagnóstico total de nossa cultura, já que temos uma cultura de qualidade, sim, mas ela dificilmente rompe as bolhas sociais de seu público específico. Os dois filmes são mais exceção do que regra. Mas exceção é uma van que todos querem que tenha a superlotação de um trem bala de trinta metros de comprimento. Todos querem soar como exceção a si mesmos. E aí, no caso d...

“COMBATE AO PRECONCEITO” ENFRAQUECEU LUTAS POPULARES NO BRASIL

PRETENSO ATIVISMO SOCIOPOLÍTICO, O "FUNK" ENGANOU AS ESQUERDAS, QUE ENDOSSARAM NARRATIVAS PRODUZIDAS PELOS GRUPOS GLOBO E FOLHA. A campanha do “combate ao preconceito”, que gourmetizou os fenômenos popularescos sob a desculpa de ser o “popular com P maiúsculo”, foi uma guerra cultural tramada pela Globo e Folha para enfraquecer as lutas populares no Brasil e permitir a retomada reacionária de 2016. Mordendo a isca, a mídia alternativa, seduzida pelo capataz freelancer de Otávio Frias Filho, Pedro Alexandre Sanches, que passeou pelas redações da imprensa de esquerda para fazê-la pensar culturalmente “igual à Ilustrada”, quase faliu ao empoderar supostos fenômenos populares que são patrocinados pelo latifúndio, pelas grandes corporações e pelas oligarquias midiáticas. A bregalização, ao ser vista como um pretenso ativismo sociopolítico, sob a desculpa da “provocatividade” e da “reação contra o bom gosto”, desviou as classes populares da participação do projeto progressista de L...

MERCADO REABILITA MPB, MAS TENTA JUNTÁ-LA AO BREGA-POPULARESCO

  NO INTERIOR, A MPB ENCONTRA DIFICULDADES DE ACESSO DEVIDO À SUPREMACIA DOS RITMOS POPULARESCOS LOCAIS. A reabilitação da MPB entre o público médio ocorre muito gradualmente e de maneira tímida. Sinaliza uma possibilidade de nomes como Novos Baianos, Gal Costa, Maria Bethânia, Caetano Veloso e Gilberto Gil, além de outros como Zé Ramalho, Milton Nascimento e Elis Regina, serem aceitos largamente por um público que, antes, dependia das trilhas de novelas para ouvir alguma MPB mais acessível. No entanto, se esse processo é um progresso diante da intolerância do "combate ao preconceito" em relação à MPB - que o "deus" da intelectualidade "bacana", Paulo César de Araújo, definia jocosamente como "MPBzona", fazendo um trocadilho entre a suposta grandiloquência e a palavra "zona", sinônimo de "bagunça" - , ele também não é gratuito, pois a supremacia brega-popularesca quer usar a MPB para uma associação forçada, visando interesses ...

NAÇÃO WOODSTOCK REJEITARIA “EVIDÊNCIAS” E OUTROS SUCESSOS “DESCOLADOS”

Anteontem fiquei abismado quando uma moça, presumivelmente com 19 anos estava no celular ouvindo “Lula de Cristal”, sucesso de Xuxa Meneghel, nas redes sociais. Gente com idade para entrar na faculdade pensando que sucessos popularescos como este, da lavra de Sullivan & Massadas, são “vanguarda”. Mas isso é fichinha para uma sociedade que chama “Evidências”, na versão de Chitãozinho & Xororó, de “clássico” e acha que João Gomes, ídolo do piseiro, é “a nova sensação da MPB”. Vivemos uma catástrofe cultural e muita gente vai dormir tranquila com esse triste cenário. Ainda temos uma sutil repaginação do É O Tchan que, diante da má repercussão da adultização de crianças, tem que agora se vender para o público universitário, tentando parecer ‘cult’ para um país em que muitos adoram “tomar no cool”. Ver que canções comerciais como "Evidências", "Lua de Cristal", "Ilariê", "Xibom Bom Bom", "Dança do Bumbum", "Segura o Tchan",...

ASSALTO NA OSCAR FREIRE É UM RECADO PARA “ANIMAIS CONSUMISTAS”

No último dia 14, um assalto seguido de tiroteio ocorreu numa padaria no entorno da Rua Oscar Freire, no bairro de Cerqueira César, na Zona Sul de São Paulo, próxima à Avenida Paulista. A padaria é a Lé Blé Petit, situado na rua próxima, a Rua Padre João Manuel. O que assusta é que o incidente ocorreu numa tarde bem movimentada, no horário pouco antes de 16 horas. Houve correria no local. Três ladrões fugiram, embora um deles tenha sido baleado e outro, atropelado. Alguns bens roubados foram recuperados. O fato nos põe a pensar fora do velho moralismo elitista costumeiro. Afinal, a sociedade burguesa, e falamos da burguesia enrustida, a burguesia de chinelos Havaianas, invisível a olho nu, comete seus abusos. Ganha dinheiro demais, embora finja ser pobre, e já está batendo o ponto na defesa da reeleição de Lula, até porque este virou um político pelego. Essa elite bronzeada quer demais para si. Acha que, só por ter liberdade para consumir e se divertir, pode abusar da dose. Já transfor...

O SENTIDO EXTREMAMENTE GRAVE DE UMA ACUSAÇÃO CONTRA QUEM REJEITA O “FUNK”

O "FUNK" NÃO FICARIA MELHOR SE SEUS RESPONSÁVEIS E SEU PÚBLICO FOSSEM DE ETNIAS GERMÂNICA E HOLANDESA. Os casos de Thiagsson e Fernanda Abreu revelam o desespero e a paranoia de quem apoia o “funk” e não consegue convencer através de argumentos equilibrados. Forçando a barra, os apoiadores do “funk” agora deram para acusar de “racistas” quem rejeita o ritmo. Isso é tão leviano quanto um vizinho denunciar à polícia um cidadão que levou dois dias para devolver uma furadeira usada para a reforma da casa. Acusar os críticos do “funk” de racistas é de uma gravidade extrema. Afinal, trata-se de um juízo de valor leviano, baseado no etnocentrismo daqueles que defendem o “funk” é que já possuem um padrão pré-determinado de pobreza, uma pobreza ao mesmo tempo “pobre” e “higiênica” dentro de um padrão de “periferia” que envolve favelas, bares decadentes e velhos, ruas sem asfalto, uma miséria tornada espetáculo em todo o imaginário do brega e do “popular demais” em várias de suas verte...

"FUNK" FOI PROMOVIDO A "GRANDE COISA" DEVIDO AO ETNOCENTRISMO DA BURGUESIA

A preocupante glorificação do "funk", agora retomada por uma exposição sobre o gênero no Museu da Língua Portuguesa, mascara a realidade de um gênero que é meramente comercial, sem objetivos artísticos nem culturais, mas que insiste em narrativas falsamente libertárias que não possuem sentido lógico algum. A exposição tem o nome pretensioso e oportunista de "Funk - Um grito de ousadia e liberdade", e serve apenas para mostrar o quanto a intelectualidade "bacana", espécie de think tank  da burguesia ilustrada, investiu em muito etnocentrismo para glorificar esse gênero da música brega-popularesca. O "funk" era somente um pop dançante comercial, feito para puro entretenimento. É marcado pela relação hierárquica entre o DJ, o "cérebro", e seu porta-voz, o MC. Sua principal caraterística é o rigor estético não-assumido e nivelado por baixo. No "funk", não há arranjadores nem compositores no sentido criativo do termo. Uma batida pa...

MTV E RADIALISMO ROCK SÃO FORMATOS DIFERENTES, MAS TIVERAM UMA SINA COMUM

Refletindo sobre o fim da MTV, lembremos que o rótulo de “a TV do rock” é completamente estúpido e equivocado, pois isso restringe o valor e o horizonte cultural que a Música Television exerceu ao longo de sua existência. No Brasil, atribuição de “TV do rock” não só foi equivocada como acabou derrubando outro formato genial que há décadas não irradia mais: o formato de rádio de rock, assim, com a preposição “de”. Confundir o formato da MTV com o de rádio de rock, nos anos 1990, foi crucial para desnortear emissoras pioneiras, inclusive a Fluminense FM, que depois foram extintas uma a uma, enquanto, até hoje, o formato de rádio de rock até agora nunca foi introduzido de forma adequada em muitas capitais do Brasil, até hoje esperando, em vão, o aparecimento de uma Flu FM local. Enquanto isso, quem se deu bem foi a 89 FM, de uma família apoiadora da ditadura militar e líder do empresariado da Faria Lima que, tomando “emprestado” o estilo e a linguagem da Jovem Pan - no fundo, os Camargo, ...