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TRAGÉDIAS EXPÕEM LADO SOMBRIO DO ENTRETENIMENTO FESTIVO

 
Semanas depois da descartável e nefasta Farofa da GKay e às vésperas de mais uma edição do intragável Big Brother Brasil, franquia transmitida pela Rede Globo, duas tragédias mostram o lado sombrio do entretenimento festivo, de um Brasil que prioriza o consumismo e as emoções baratas e permite que se promovam festas de verdadeira poluição sonora, perturbando a vizinhança que precisa dormir à noite para trabalhar no dia seguinte.

No dia 22 de dezembro de 2023, a jovem Jéssica Vitória Canedo, de 22 anos, se matou ao ser ridicularizada e humilhada por causa de uma mentira produzida pelo portal de fake news Choquei, que até então tinha canais no X (antigo Twitter) e Instagram. A garota teria sido apontada como suposta amante da subcelebridade Whindersson Nunes, e ela se matou depois de não suportar a depressão profunda que sentia.

Cinco dias depois, 27 de dezembro de 2023, foi a vez do influenciador e ex-VJ da fase final da MTV, Paulo Cezar Goulart Siqueira, o PC Siqueira, de 37 anos, ser encontrado morto, também com indícios de ter sofrido depressão profunda. Uma ex-namorada revelou que PC se matou na frente dela, não aguentando a decadência que ele sofria devido a vários escândalos.

Nos últimos anos, PC Siqueira era acusado de consumir drogas pesadas e de se envolver com pedofilia. As acusações de pedofilia, a partir de supostas publicações na Internet de fotos da filha de uma mulher com a qual ele conversava, junto a um amigo não-identificado. A defesa de PC Siqueira revelou que tudo não passou de boato montado por fake news criminosamente plantadas contra sua pessoa.

PC Siqueira era conhecido por ter sido, nos últimos anos, um influenciador digital e que havia feito uma cirurgia para corrigir um estrabismo. Na MTV ele era especializado em jogos eletrônicos (games, em "dialeto" portinglês). PC também participou de vários reality shows e até alguns filmes, como ator.

Quanto ao Choquei, o canal, voltado ao entretenimento e dedicado a publicar notícias falsas de apelo fortemente sensacionalista, daí o nome do portal, foi acusado de ser administrado pela empresa Mynd, de propriedade da empresária Fátima Pissarra e da cantora Preta Gil. Mas a Mynd emitiu um comunicado dizendo que não é dona do Choquei e apenas firmou contrato no âmbito do marketing de influência, como a referida empresa faz com outros canais nas redes sociais.

Em todo caso, o Choquei é apenas a ponta do aicebergue de toda uma sordidez por trás desse mundo vazio do entretenimento festivo, do hedonismo sem causa, que movimenta as redes sociais e a mídia, o que faz com que o cenário sociocultural brasileiro esteja em situação deplorável, algo que nem as injeções de dinheiro do Ministério da Cultura são capazes de resolver.

Pelo contrário, já rola muito dinheiro nos bastidores desse entretenimento festivo, desse processo de imbecilização cultural e até muitos "tribunais de Internet" são sustentados por empresas. Se essas empresas concordam ou não com os abusos diversos cometidos, isso é problema delas, mas independente disso o que se vê é que há um verdadeiro festejo da mediocridade sociocultural, que corrompe corações e mentes dos jovens em geral.

Portanto, esse entretenimento festivo não é o mundo cor-de-rosa que se imagina e, mesmo sob a marquize da "sociedade do amor" que tirou o bolsonarismo do protagonismo, os abusos ocorrem. Vide, por exemplo, o consumo exagerado de cerveja, algo que vejo ultimamente ocorrer de maneira preocupante aqui em São Paulo.

Nas apresentações do chamado "sertanejo de sofrência" também ocorrem abusos que geraram violências e mortes em plenas apresentações de seus intérpretes. No "funk", tão metido a posar de "pobretão", nota-se cada vez mais MC's ostentando riquezas como mansões, carrões e joias, sob a passagem de pano generosa da intelectualidade "bacana". Recentemente, dois MC's reclamaram de sumiço misterioso de joias. E há também os escândalos em torno do cruzeiro marítimo comandado pela subcelebridade do futebol, Neymar.

Algo precisa mudar, porque o cenário atual é devastador. O vazio sociocultural está terrível e pode se tornar uma referência negativa para novas gerações. Pelo menos devemos alertar a sociedade sobre o caráter nefasto deste universo, que envolve desde o hedonismo mais irresponsável até mesmo o reacionarismo vingativo e chantagista dos "tribunais da Internet" que, num momento, são capazes de agir em defesa de uma gíria, "balada" (©Jovem Pan), humilhando quem reprova essa gíria farialimer, mas em outro, são capazes de provocar a morte da garota Jéssica Vitória. Triste país.

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