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BOLSONARISTAS ACREDITAM QUE SOFREM "PERSEGUIÇÃO" DE LULA


Os bolsonaristas podem ser lunáticos, delirantes e, de certa maneira, bobos em seu reacionarismo nervoso. Mas são muito perigosos. Todo fascista parece um palhaço, mas não podemos rir dele, porque ele é vingativo e sua reação, conforme registram os fatos, costuma trazer efeitos bastante trágicos.

O lulismo atual está mostrando seus pontos fracos, suas debilidades que vão sendo ignoradas por duas ilusões de autossuficiência: a do dinheiro e das instituições. Como se fosse possível sustentar a democracia com dinheiro e com a legalidade. Esquecemos que, com um quadro bem menos fantasioso, João Goulart foi deposto por um golpe que gerou uma ditadura militar de duas décadas.

A ditadura militar foi tão grave que construiu um sistema de valores que sobrevive até hoje e, pasmem, foi ressignificado de maneira bastarda e artificial de forma a ser assimilado pelas esquerdas. Sim, até entre os lulistas boa parte dos herois é proveniente desse culturalismo dos anos de chumbo.

O Brasil não consegue superar os paradigmas conservadores do pós-1964. E digo conservadores no sentido lato, ou seja, amplo, pois não se trata de um conservadorismo meramente formal, mas essencial, que pode incluir até a tal "liberdade do corpo", que voltou a moda nesses tempos de embriaguez social hedonista que se intensificou no Carnaval.

Como um cachorro vira-lata perseguindo o próprio rabo, o Brasil teima em se tornar prisioneiro do culturalismo da Era Geisel. Muito do viralatismo cultural mais antigo se vende sob a falsa reputação de "cultura vintage", com base no cacoete dos brasileiros médios de que coisa ruim que dura muito tempo vira "genial", como se fosse possível haver um perecimento às avessas.

E aí vemos apenas uma dicotomia entre o Brasil de Geisel "não-raivoso" e o Brasil de Geisel "raivoso". Um contraste artificial entre a raiva e a alegria, uma oposição que, em textos deste blogue, já geraram boicotes porque ninguém entende as armadilhas do discurso não-raivoso.

No caso dos feminicídios, por exemplo, ninguém percebe que os criminosos desta natureza não conquistam mulheres puxando pelo cabelo e fazendo ameaças. Eles sempre atuam como ótimos conquistadores, são os piadistas de bar e cavalheiros de ocasião. Tanto isso é verdade que muitos desses crimes chocaram vizinhos. Em mais de uma vez, vi notícias desses crimes horrendos com pessoas falando "ele (o feminicida) era uma pessoa tranquila", "o cara era gente boa, muito calmo e simpático...". 

O maniqueísmo fácil e simplório entre raiva e alegria acaba gerando distorções de abordagem. Quem denuncia a opressão com um discurso enérgico é erroneamente tido como bolsonarista. Pode ter a consciência social de um Paulo Freire, mas leva a conta como se fosse um Malafaia rosnando de muito ressentimento.

Diante desse raciocínio algorítmico e binário, temoso outro lado, cujo exemplo no Espiritismo brasileiro é bastante caraterístico. O pregador de voz suave, sempre de ar afável e benevolente, constantemente sorrindo, fala que o aflito tem que suportar desgraças sem fim, que não adianta remorso porque o destino quer que a pessoa enfrente essas provações sem fim, mesmo que elas soem como aquele remédio dado em dose excessiva, que pioram a doença em vez de curá-la.

Um discurso desses do tal pregador é de conteúdo essencialmente bolsonarista, mas dito de maneira amigável essa pregação enganou setores das esquerdas, que chegaram a definir esse discurso como "progressista", levando gato por lebre, vendo erroneamente a Teologia do Sofrimento como derivado (e não como oposto, o que realmente é) da Teologia da Libertação.

Esses erros cometidos pelas esquerdas nos mandatos anteriores de Lula e nos mandatos de Dilma Rousseff, fruto das armadilhas da sabotagem cultural dos governos petistas anteriores a 2016, criaram condições para a ascensão do golpismo que se seguiu depois dessa fase.

Em que pese a ação da Justiça para punir Jair Bolsonaro e Sérgio Moro, além de outros aliados similares, seus defensores não parecem intimidados nem se consideram derrotados. A recente prisão de Valdemar da Costa Neto, antigo aliado dos bolsonaristas, não parece inibir a rapaziada.

Pelo contrário, esse pessoal, afeito a produzir fake news, apela para o vitimismo e se julga "perseguido" pelo presidente Lula. Do lado bolsonarista, circula a narrativa de que o Brasil vive um momento de "extrema dificuldade", representada pelo rosco de prisão do seu "mito".

O maior risco é que, com o valentonismo infantilizado dos lulistas, a ilusão de autossuficiência do presidente Lula e sua consequente ilusão de que tudo está bem, os bolsonaristas possam reagir em breve, depois que Bolsonaro for preso. É claro que Bolsonaro e Moro, assim como seus pares, merecem ser presos pelo que fizeram contra o país, mas não podemos brincar com fogo.

Infelizmente, os lulistas vivem na ilusão de um empoderamento que não possuem, e que foi tomado de empréstimo do Supremo Tribunal Federal. O Brasil, na verdade, continua neoliberal, o lulismo apenas "alugou" seu espaço sob o rótulo de "democracia", com Lula na prática tendo que fazer muitas concessões à direita moderada. Portanto, nada de esquerdismo revolucionário nem de fazer o Brasil ser um país "socialista de Primeiro Mundo" (a História colocava o mundo socialista como Segundo Mundo).

E, com essas ilusões todas, temos a ameaça da ascensão fascista na Europa, do fenômeno Milei na Argentina, na busca de Donald Trump pela reabilitação, e na atuação dos bolsonaristas no exterior, como na Argentina, EUA, Itália e Portugal. Vai ser difícil para o Brasil infantilizado vencer uma extrema-direita articulada, ainda mais quando se teima em reconstruir o nosso país com um clima de festa, priorizando o consumismo e o hedonismo e deixando as classes trabalhadoras à deriva.

Daí o nosso aviso do risco de o bolsonarismo cooptar os excluídos da festa lulista, que não se identificam com esse clima de consumo voraz de emoções baratas e da "sociedade do amor" de pessoas coisificadas. O humanismo ressentido não tem o apoio do fascismo, mas o fascismo, quando quer, busca atrair aqueles que os festejos identitários das esquerdas médias abandonaram. Convém tomarmos cuidado.

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