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A AUTODESTRUIÇÃO DAS ESQUERDAS

COMPARAÇÕES COM JACARÉ FEZ AS ESQUERDAS CAÍREM NO JOGO COMUNICATIVO DE JAIR BOLSONARO.

As esquerdas, aos poucos, estão deixando de ser esquerdas. Sério.

Não é papo de direitista raivoso, de coxinha ressentido, de esquerdista recalcado que vira um neocon, nem de bolsonarista orgânico tirando onda de corretão.

É constatação de quem é e continua sendo de esquerda, mesmo, como eu, neste blogue.

Vejamos os seguintes episódios.

Laive da mídia progressista falando de "novas relações" de trabalho, como se passasse pano na reforma trabalhista que ninguém mais tem coragem de combater.

Artigo de jornalista progressista exaltando Reginaldo Rossi em detrimento do "cansado" Miguel Arraes.

Lacrações eventuais interagindo com Jair Bolsonaro e que fazem a agenda esquerdista mais parecer um zoológico: emas, cobras, jacarés.

Para quem não sabe, Jair Bolsonaro havia dito, a respeito da vacinação que ele não dá o devido valor: "Se você virar um jacaré, problema seu".

Aí as esquerdas-lacração vieram com trocadilhos tolos, se preocupando demais com tanta besteira desnecessária.

Sobrou até para o ex-dançarino do É O Tchan, Jacaré, enquanto as esquerdas tentam um esforço, em vão, em, finalmente, "guevarizar" a armação do empresário Cal Adan.

E aí temos o PSOL ganhando mais destaque do que o próprio PT. E o PSOL, em que pese suas eventuais qualidades, como seu empenho nos direitos humanos, coloca as causas identitárias acima das causas trabalhistas.

Mas isso é pouco, diante da articulação das esquerdas para apoiar Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados, para eleger seu sucessor no cargo.

Sim, o mesmo Rodrigo Maia que não demonstrou arrependimento pelo golpe e que fica passando pano em Jair Bolsonaro, apesar das "notas de repúdio".

As esquerdas parecem cansadas de tanto esquerdismo. Por que será?

É porque se predominam correntes pequeno-burguesas, só para usar um clichê do imaginário marxista.

É a pequena-burguesia, classe média de Oslo, pessoas que supervalorizam causas identitárias e as isolam do contexto de luta de classes.

Nota-se uma certa ojeriza com o esquerdismo clássico.

Mesmo os excessos da militância esquerdista são demonizados e não criticados na medida certa.

Aos poucos, as causas trabalhistas são desprezadas, porque bastam os valores trazidos pelo neoliberalismo e pelo golpismo político.

Os "brinquedos culturais" que as esquerdas herdaram do establishment centro-direitista impedem uma percepção realista dos problemas sociais sob o prisma progressista.

Até porque um dos ídolos dessas esquerdas definidas por Gustavo Conde como deslumbradas-conciliadoras, um certo "médium espírita" que apoiou a ditadura militar e, volta e meia, "reaparece" como suposto profeta e pretenso pacificador, defendia a precarização do trabalho humano.

Sei disso porque conheci a obra doutrinária dele. Trabalho exaustivo, servidão, submissão ao patrão, aceitação das perdas salariais sob pretexto de "desapego à matéria", se o tal "médium de peruca" é associado a um fato futuro, é a reforma trabalhista que ele teria apoiado com gosto.

Se as esquerdas apoiam uma personalidade assim, que esquerdismo iremos esperar dela?

Quando muito, o de Fernando Henrique Cardoso e Luciano Huck. Não adianta, depois, bajular Lula, saltitar e dizer que é progressista. Se apoia o tal "médium", já está com um pé no conservadorismo.

Devemos admitir que o Espiritismo brasileiro é um dos pratos típicos do cardápio do culturalismo conservador, em vez da ideia fantasiosa de Teologia da Libertação com espiritualismo. Espiritismo progressista ficou confinado na França de 1857.

Perdida entre "bailes funk" e "centros espíritas", entre ídolos cafonas do passado e lacrações bobas no presente, as esquerdas perderam o protagonismo.

Tentam agora se salvar com a coadjuvância ao lado de Rodrigo Maia para escolher o presidente da Câmara dos Deputados, também segundo suplente da Presidência da República.

Não creio que possa surtir efeito. Será um apoio ao Centrão, do mesmo jeito que Jair Bolsonaro tentou articular. E é uma compactuação com quem defendeu o golpe de 2016, como Rodrigo Maia, que parece não ter se arrependido por ajudar a soprar os ventos fortes dos últimos cinco anos.

As esquerdas insistem em querer furar a bolha pelo lado errado.

Podem dialogar com quem é de fora, sim. Mas deveriam ser os forasteiros certos, que não são, necessariamente, efusivos nem espetaculares.

As esquerdas perderam as eleições de 2020 porque não quiseram fazer um diálogo direto com as classes trabalhadoras.

Adotaram um discurso complicado, identitarista, marqueteiro demais.

Mas se até Lula teve propagandas que tinham mais gente dançando - como a "musiquinha" de 15 anos atrás, que rendia sátiras do saudoso Bussunda no Casseta & Planeta ainda em boa forma - , o que esperar então?

Esperar que as esquerdas deixem de lado sua condição pequeno-burguesa e recomeçasse a lembrar dos problemas cotidianos de proletários, camponeses, desempregados e sem-teto. Se agir assim, o esquerdismo voltará a respirar plenamente.

Caso contrário, as esquerdas se limitarão apenas a serem coadjuvantes do espetáculo da direita comportada.
 

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