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ESQUERDAS ADOTAM "BRINQUEDOS CULTURAIS" PORQUE QUASE NÃO HAVIA MÍDIA DE ESQUERDA NO AUGE DA DITADURA


O "médium de peruca" é hoje conhecido como "símbolo de paz e amor ao próximo" por vontade de Deus?

A música brega é considerada "de vanguarda" pela natural vocação de incomodar as elites conservadoras?

O futebol brasileiro é um movimento revolucionário cujo combate está no método "pacífico" de destruir os inimigos através de uma bola no gol?

As mulheres-objetos são "feministas" cuja atuação ocorre de maneira intuitiva, sem precisar explicar nem falar sobre assuntos que não sejam a vida sexual e o "apoio" às causas LGBTQ?

Tudo isso habita o imaginário das esquerdas mais jovens, que não eram crescidos para entender João Goulart e os CPCs da UNE, e muito menos Getúlio Vargas, Luís Carlos Prestes, Ligas Camponesas e movimentos sindicais.

Paciência, as esquerdas mais jovens que passaram a apoiar Lula desde 2002 são, em boa parte, formada por pessoas de classe média que assistiam à televisão no auge da ditadura militar.

Iludidas com o culturalismo conservador que a Rede Globo e apresentadores como os hoje bolsonaristas Raul Gil e Sílvio Santos mostraram sob o selo do popularesco, as esquerdas acolheram esses valores no seu imaginário.

A impressão que se tem é que o imaginário das esquerdas estava muito mais próximo do culturalismo do "milagre brasileiro" do governo do general Emílio Garrastazu Médici do que dos períodos desenvolvimentistas de Juscelino Kubitschek e João Goulart, na primeira metade dos anos 1960.

Ver que os "heróis" dos esquerdistas se encaixam no culturalismo direitista dos anos 1970 é preocupante.

De repente "médiuns" e ídolos cafonas reacionários, já falecidos, passaram a ser acolhidos facilmente pelas esquerdas pelo artifício de alguma retórica vitimista ou positivista.

A ilusão de que a mídia venal durante o auge da ditadura militar (1969-1974, com reflexos midiáticos até 1979) tinha a mesma aparente isenção dos primórdios da ditadura (antes do AI-5) fazia nossos esquerdistas mais jovens, hoje com menos de 65 anos, se deixarem enganar com tal culturalismo.

Bastava a falácia de que esse culturalismo "fazia o povo pobre sorrir" para que qualquer direitista histérico da religião ou da música fosse classificado, gratuitamente e sem motivo lógico algum, de "marxista". E isso vindo das esquerdas e não de bolsomínions lunáticos e terraplanistas.

E por que isso acontece? Por que tanto endeusamento ao "funk", esse Frankestein (Funkenstein?) montado com valores do culturalismo conservador da mídia venal e de um sistema de valores que coloca os pobres como reféns de sua própria miséria?

Simples. É porque, no auge da ditadura militar, quase não havia mídia de esquerda.

Quando se fala em mídia de esquerda, fala-se de um formato jornalístico propriamente dito e estruturado como em revistas e jornais ou emissoras de televisão, no caso de incluir também atrações de entretenimento.

Quando muito, tivemos, no começo da ditadura militar, entre 1964 e 1968, uma experiência brevíssima da Folha da Tarde, do Grupo Folha, por iniciativa dos irmãos Cláudio e Perseu Abramo.

Ou da revista Realidade, o último veículo jornalístico de grande expressão a trazer uma visão mais realista do "médium de peruca", na edição de novembro de 1971 (depois disso passou a ser só passagem de pano no "bondoso médium", o que vale até hoje).

Em 1969, teve O Pasquim, jornal hoje demonizado por conta de suas críticas à "cultura de massa" (eu só concordo que eles pegaram pesado demais embarcando nas acusações infundadas e mentirosas contra o admirável Wilson Simonal).

Fora isso, eram pequenas publicações estudantis, camponesas e sindicais ou pequenos periódicos culturais. Ou pequenos panfletos mimeografados, poesia marginal, coisa parecida.

Não havia, no período do AI-5, uma mídia alternativa. Só havia uma narrativa oficial, trazida pela mídia empresarial solidária à ditadura militar.

Só tínhamos uma mídia de esquerda predominantemente sindical, concentrada demais nos assuntos políticos e econômicos.

A coisa ainda permanece, porque até mesmo o "culturalismo conservador" que muitos acreditam existir é tudo, menos Cultura. "Cultura", quando muito, são apenas posturas anti-identitárias e as campanhas políticas de líderes autoritários.

Mas, fora isso, temos um "culturalismo conservador" que é Política, Educação e Economia. Não Cultura. Cultura é uma ninfeta virgem correndo solta no paraíso. Ninguém toca nela.

Chamo esses valores de "brinquedos culturais" porque eles são adotados por esquerdas infantilizadas, dessas que acham que Lula é messiânico. E o acolhimento das esquerdas a esses "brinquedos" só legitima e fortalece o poder da chamada mídia venal.

Afinal Lula não é, para essas esquerdas piegas, o sindicalista que promete melhorar a vida das classes trabalhadoras, mas um novo Dom Pedro II com poderes modernizantes de Dom João VI.

E aí vemos como as esquerdas quebram a cara, porque boa parte dos valores culturais que acredita são de direita. Como se o Brasil ideal fosse o núcleo pobre da novela das nove da Rede Globo.

Durante um bom tempo, era recomendável ler Caros Amigos, Carta Capital e Revista Fórum evitando as editorias culturais e assuntos como religião. Nestes espaços predominava o culturalismo de direita.

E aí vemos que foi esta atitude infeliz das esquerdas que abriu caminho para o golpe político de 2016. E que pode influir na reeleição de Jair Bolsonaro em 2022.

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