Pular para o conteúdo principal

A DECADENTE E VELHA AXÉ-MUSIC NA EXPECTATIVA DO CARNAVAL DE SALVADOR 2023


Uma amostra da decadência da axé-music, musicalmente velha, mofada e repetitiva, não bastasse ser ruim por si mesma, é quando uma rede de supermercados contratou Bell Marques para ser garoto-propaganda. O ídolo da axé-music demonstrou ser um péssimo cantor, do contrário da bajulação de um professor de cursinho para concursos que eu tive em 2006, que havia exaltado o então líder do Chiclete Com Banana.

Cantando um jingle com base num antigo sucesso do Chicletão, Bell não conseguiu adaptar o refrão para a rede de supermercados e ficou uma coisa malfeita, não bastasse o repertório musical do cantor ser muitíssimo ruim.

A voz de Bell Marques é péssima, horrível, só é bem processada nos discos de estúdio e "ao vivo" - ou melhor, de "estúdio com palmas", como havia dito Marcelo Nova certa vez - , e isso eu pode conferir, por volta de 1999, quando os carros tocavam CDs piratas de apresentações do Chicletão, que demonstravam o amadorismo tosco do então vocalista, diferente da mixagem profissional que remixa a voz de Bell para soar "palatável".

Pois Bell está fazendo excursão por um cruzeiro marítimo, o Vumbora Pro Mar, ao lado de Durval Lélis, do Asa de Águia. Bell e Durval são dos poucos intérpretes de axé-music que são empresários e comandam suas carreiras, pois a maioria dos grupos do gênero faz a linha "grupos de empresários", pois os empresários é que são os verdadeiros líderes desses conjuntos, apesar do vocalista de plantão ser usado como marca até em cartazes de eventos ao vivo de axé-music.

Mas, em todo caso, axé-music, que é uma mera dance music de baiano, sem vínculo real com as raízes africanas nem caribenhas, quer também a sua fatia nesse bolo fecal do falso vintage da música popularesca, esse "saudosismo de resultados" que tenta relançar o comercialismo musical brasileiro dos últimos 50 anos como falsa vanguarda, falsa sofisticação, falsa nostalgia, explorando principalmente as lembranças solipsistas do público ouvinte.

E aí vemos É O Tchan, Terra Samba, Gang do Samba e o extinto Harmonia do Samba - quase todos com o nome de "samba", mas que não honram esse estilo associado à luta por dignidade do povo negro - sendo alvos de pretenso saudosismo, com atores da Rede Globo dançando os sucessos nas festinhas diversas. E ainda tem Psirico, Léo Santana e similares no embalo.

O primeiro Carnaval de Salvador pós-pandemia, a ocorrer em 2023, tem esse gancho pseudo-nostálgico, num Brasil em que Michael Sullivan é tido como "vanguarda", um "Tom Jobim" para o gosto rasteiro dos vira-latas culturais enrustidos. Até a canastrona Ivete Sangalo, que se acha "dona da MPB", evidentemente está no embalo, dando um tempo na falsa sofisticação musical para fazer a tal "música pra pular brasileira". 

Só que a axé-music soa tão velha, repetitiva, sem graça e, como sempre, musicalmente ruim, e não há possibilidade de alguma renovação. Afinal, não adianta sequer implantar o ISO 9000 na axé-music para fazer Xanddy e Bell Marques terem, respectivamente, 1% dos talentos de Riachão e Moraes Moreira, que será inútil. Dinheiro e programa trainée não trazem talento em si. Deixemos de nos iludir.

Sei que a MPB autêntica, aparentemente, não trouxe, nos últimos 45 anos, ritmos considerados divertidos e vibrantes. E sei também que a música brega-popularesca virou o "novo normal" em termos de música brasileira. Mas não podemos levar gato por lebre e fingir que tudo é "genial" na música popularesca, e achar que música "não-comercial" é a tal "Novinha do OnlyFans".

A música brasileira merece respeito. Enquanto a música brega-popularesca, em suas diversas variações, é alvo de uma campanha pretensamente nostálgica, o "tribunal da Internet", principal instância do Supremo Tribunal do Umbigo, esculhamba saudosos emepebistas, como Elis Regina, João Gilberto e Renato Russo, que, infelizmente, viraram "vidraça" sem justificativa, devido às ações arrogantes dos sociopatas das redes sociais que acham que o universo gira em órbita por seus egos.

E aí vemos o comercialismo da música brega-popularesca se reciclando e crescendo como câncer maligno, enquanto a MPB se torna quase um Retiro dos Artistas musicais, ainda que vários de seus artistas, mesmo octogenários, estejam ativos e produzindo discos musicalmente vigorosos. Falta renovação e revigoramento na MPB autêntica, enquanto o comercialismo musical brega-popularesco engana a população com seu "saudosismo de resultados" para renovar o mais do mesmo. Triste.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

SIMBOLOGIA IRÔNICA

  ACIMA, A REVOLTA DE OITO DE JANEIRO EM 2023, E, ABAIXO, O MOVIMENTO DIRETAS JÁ EM 1984. Nos últimos tempos, o Brasil vive um período surreal. Uma democracia nas mãos de um único homem, o futuro de nosso país nas mãos de um idoso de 80 anos. Uma reconstrução em que se festeja antes de trabalhar. Muita gente dormindo tranquila com isso tudo e os negacionistas factuais pedindo boicote ao pensamento crítico. Duas simbologias irônicas vêm à tona para ilustraresse país surrealista onde a pobreza deixou de ser vista como um problema para ser vista como identidade sociocultural. Uma dessas simbologias está no governo Lula, que representa o ideal do “milagre brasileiro” de 1969-1974, mas em um contexto formalmente democrático, no sentido de ninguém ser punido por discordar do governo, em que pese a pressão dos negacionistas factuais nas redes sociais. Outra é a simbologia do vandalismo do Oito de Janeiro, em 2023, em que a presença de uma multidão nos edifícios da Praça dos Três Poderes, ...

"ANIMAIS CONSUMISTAS"AJUDAM A ENCARECER PRODUTOS

O consumismo voraz dos "bem de vida" mostra o quanto o impulso de comprar, sem ver o preço, ajuda a tornar os produtos ainda mais caros. Mesmo no Brasil de Lula, que promete melhorias no poder aquisitivo da população, a carestia é um perigo constante e ameaçador. A "boa" sociedade dos que se acham "melhores do que todo mundo", que sonha com um protagonismo mundial quase totalitário, entrou no auge no período do declínio da pandemia e do bolsonarismo, agora como uma elite pretensamente esclarecida pronta a realizar seu desejo de "substituir" o povo brasileiro traçado desde o golpe de 1964. Vemos também que a “boa” sociedade brasileira tem um apetite voraz pelo consumo. São animais consumistas porque sua primeira razão é ter dinheiro e consumir, atendendo ao que seus instintos e impulsos, que estão no lugar de emoções e razões, ordenam.  Para eles, ter vale mais do que ser. Eles só “são” quando têm. Preferem acumular dinheiro sem motivo e fazer de ...

COVID-19 TERIA MATADO 3 MIL FEMINICIDAS NO BRASIL

Nos dez anos da Lei do Feminicídio, o machismo sanguinário dos feminicidas continua ocorrendo com base na crença surreal de que o feminicida é o único tipo de pessoa que, no Brasil, está "proibida de morrer". Temos dois feminicidas famosos em idade de óbito, Pimenta Neves e Lindomar Castilho (87 e 84 anos, respectivamente), e muitos vão para a cama tranquilos achando que os dois são "garotões sarados com um futuro todo pela frente". O que as pessoas não entendem é que o feminicida já possui uma personalidade tóxica que o faz perder, pelo menos, 20 anos de vida. Mesmo um feminicida que chega aos 90 anos de idade é porque, na verdade, chegaria aos 110 anos. Estima-se que um feminicida considerado "saudável" e de boa posição social tem uma expectativa de vida correspondente a 80% de um homem inofensivo sob as mesmas condições. O feminicida tende a viver menos porque o ato do feminicídio não é um simples desabafo. No processo que se dá antes, durante e depois ...

ESTÁ BARATO PARA QUEM, CARA PÁLIDA?

A BURGUESIA DE CHINELOS ACHA BARATO ALUGUEL DE CASA POR R$ 2 MIL. Vivemos a supremacia de uma elite enrustida que, no Brasil, monopoliza as formas de ver e interpretar a realidade. A ilusão de que, tendo muito dinheiro e milhares de seguidores nas redes sociais dos quais umas centenas concordam com quase tudo, além de uma habilidade de criar uma narrativa organizada que faz qualquer besteira surreal soar uma pretensa verdade, faz da burguesia brasileira uma classe que impõe suas visões de mundo por se achar a "mais legal do planeta". Com isso, grandes distorções na interpretação da realidade acabam prevalecendo, mais pelo efeito manada do que por qualquer sentido lógico. "Lógica " é apenas uma aparência, ou melhor, um simulacro permitido pela organização das narrativas que, por sorte, fabricam sentido e ganham um aspecto de falsa coerência realista. Por isso, até quando se fala em salários e preços, a burguesia ilustrada brasileira, que se fantasia de "gente si...

ED MOTTA ERROU AO CRITICAR MARIA BETHÂNIA

  Ser um iconoclasta requer escolher os alvos certos das críticas severas. Requer escolher quem deveria ser desmascarado como mito, quem merece ser retirado do seu pedestal em primeiro lugar. Na empolgação, porém, um iconoclasta acaba atacando os alvos errados, mesmo quando estes estão associados a certos equivocos. Acaba criando polêmicas à toa e cometendo injustiças por conta da crítica impulsiva. Na religião, por exemplo, é notório que a chamada opinião (que se torna) pública pegue pesado demais nos pastores e bispos neopentecostais, sem se atentar de figuras mais traiçoeiras que são os chamados “médiuns”, que mexem em coisa mais grave, que é a produção de mensagens fake atribuídas a personalidades mortas, em deplorável demonstração de falsidade ideológica a serviço do obscurantismo religioso de dimensões medievais. Infelizmente tais figuras, mesmo com evidente charlatanismo, são blindadas e poupadas de críticas e repúdios até contra os piores erros. É certo que a MPB autêntica ...

A EXPLOSÃO DO SENSO CRÍTICO QUE ENVERGONHA A "BOA" SOCIEDADE

Depois de termos, em 2023, o "eterno" verão da conformidade com tudo, em que o pensamento crítico era discriminado e a regra era todos ficarem de acordo com um cenário de liberdade consumista e hedonista, cuja única coisa proibida era a contestação, o jogo virou de vez. As críticas duras ao governo Lula e as crises sociais do cenário sociocultural em que temos - como a queda da máscara do "funk" como suposta expressão do povo pobre, quando funqueiros demonstraram que acumularam fortunas através dessa lorota - mostram que o pensamento crítico não é "mera frescura" de intelectuais distópico-existencialistas europeus. Não convencem os boicotes organizados por pretensos formadores de opinião informais, que comandam as narrativas nas redes sociais. Aquele papo furado de pedir para o público não ler "certos blogues que falam mal de tudo" não fez sentido, e hoje vemos que a "interminável" festa de 2023, da "democracia do sim e nunca do nã...

COMO A BURGUESIA DE CHINELOS DISSIMULA SUA CONDIÇÃO SOCIAL?

A BURGUESIA ENRUSTIDA BRASILEIRA SE ACHA "POBRE" PORQUE, ENTRE OUTRAS COISAS, PAGA IPVA E COMPRA MUITO COMBUSTÍVEL PARA SEUS CARRÕES SUV. A velha Casa Grande ainda está aqui. Os golpistas de 1964 ainda estão aqui. Mas agora essa burguesia bronzeada se fantasia de “gente simples” e se espalha entre o povo, enquanto faz seus interesses e valores prevalecerem nas redes sociais. Essa burguesia impõe seus valores ou projetos como se fossem causas universais ou de interesse público. A gíria farialimer “balada”, o culto aos reality shows , o yuppismo pop-rock da 89 FM, Rádio Cidade e congêneres, a exaltação da música brega-popularesca (como a axé-music, o trap e o piseiro), a pseudo-sofisticação dos popularescos mais antigos (tipo Michael Sullivan e Chitãozinho & Xororó) e a sensação que a vida humana é um grande parque de diversões. Tudo isso são valores que a burguesia concede aos brasileiros sob a ilusão de que, através deles, o Brasil celebrará a liberdade humana, a paz soc...

THE ECONOMIST E A MEGALOMANIA DA BURGUESIA DE CHINELOS ATRAVÉS DO "FUNK"

A CANTORA ANITTA APENAS LEVA O "FUNK" PARA UM NICHO ULTRACOMERCIAL DE UM RESTRITO PÚBLICO DE ORIGEM LATINA NOS EUA. Matéria do jornal britânico The Economist alegou que o "funk" vai virar uma "febre global". O periódico descreve que "(os brasileiros modernos) preferem o sertanejo, um gênero country vibrante, e o funk, um estilo que surgiu nas favelas do Rio. O funk em particular pode se tornar global e mudar a marca do Brasil no processo". Analisando o mercado musical brasileiro, o texto faz essa menção em comparação com a excelente trilha sonora do filme Eu Ainda Estou Aqui , marcada por canções emepebistas, a julgar pela primeiro sucesso póstumo de Erasmo Carlos, "É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo", uma antiga canção resgatada de um LP de 1971. "A trilha sonora suave do filme alimenta a imaginação dos estrangeiros sobre o Brasil como um país onde bandas de samba e bossa nova cantam canções jazzísticas em calçadões de areia. Mas ...

A SOCIEDADE HIPERMERCANTIL E HIPERMIDIÁTICA

CONSUMISMO, DIVERSÃO E HEDONISMO OBSESSIVOS SÃO AS NORMAS NO BRASIL ATUAL. As pessoas mais jovens, em especial a geração Z mas incluindo também a gente mais velha nascida a partir de 1978, não percebe que vive numa sociedade hipermercantilizada e hipermidiatizada. Pensa que o atual cenário sociocultural é tão fluente como as leis da natureza e sua rotina supostamente livre esconde uma realidade nada livre que muitos ignoram ou renegam. Difícil explicar para gente desinformada, sobretudo na flor da juventude, que vivemos numa sociedade marcada pelas imposições do mercado e da mídia. Tudo para essa geração parece novo e espontâneo, como se uma gíria fabricada como “balada” e a supervalorização de um ídolo mediano como Michael Jackson fossem fenômenos surgidos como um sopro da Mãe Natureza. Não são. Os comportamentos “espontâneos” e as gírias “naturais” são condicionados por um processo de estímulos psicológicos planejados pela mídia sob encomenda do mercado, visando criar uma legião de c...

LULA QUER QUE A REALIDADE SEJA SUBJUGADA A ELE

LULA E O MINISTRO DA SECRETARIA DE COMUNICAÇÃO SOCIAL, SIDÔNIO PALMEIRA. A queda de popularidade do presidente Lula cria uma situação inusitada. Uma verdadeira "torre de Babel" se monta dentro do governo, com Lula cobrando ações dos ministros e o governo cobrando dos assessores de comunicação "maior empenho" para divulgar as chamadas "realizações do presidente Lula". Um rol de desentendimentos ocorrem, e acusações como "falta de transparência" e "incapacidade de se chegar à população" vêm à tona, e isso foi o tom da reunião que o ministro da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira, publicitário responsável pela campanha de Lula em 2022, fez com 500 profissionais de assessorias de diversos órgãos do Governo Federal, na última sexta-feira. Sidônio criticou a falta de dedicação dos ministros para darem entrevistas para falar das "realizações do governo", assim como a dificuldade do governo em apresentar esses dados ao ...