Pular para o conteúdo principal

MUDANÇAS NA LEI ROUANET NÃO MELHORARÃO, EM SI, A CULTURA BRASILEIRA


Esta semana o governo Lula divulgou a nova Lei Rouanet e regilamentou as leis Aldir Blanc e Paulo Gustavo, criadas para ajuda emergencial durante a pandemia da Covid-19. Mudanças foram feitas, principalmente na Lei Rouanet, muito criticada por bolsonaristas.

Entre as mudanças da Lei Rouanet, temos, além de editais e plano plurianual, a descentralização regional e um ponto positivo, que é a exclusão de arte sacra que, por ser religiosa, não pode ser contemplada pelo Estado laico, no que se refere às verbas para a cultura.

Mas um ponto que merece muito questionamento é referente ao "combate de toda forma de preconceito". Embora seja condenável a discriminação à diversidade cultural, o que vemos é que o combate ao preconceito virou desculpa para o avanço da precarização cultural do brega-popularesco.

Ou seja, em nome do "combate ao preconceito", abriu-se caminho para um processo de idiotização cultural, que já trata o povo pobre de maneira caricatural - ao modo de humorísticos e novelas da TV - , e que de tão hegemônica, tornou-se quase totalitária.

O alvo da discriminação hoje não são os ídolos cafonas do passado, os funqueiros ou os ritmos pipularescos de ocasião, como arrocha, tecnobrega ou piseiro. Hoje a discriminação atinge os ritmos populares autênticos, a música culta (MPB de classe média) e o Rock Brasil, que perderam seus próprios espaços em prol da bregalização.

A situação é tão grave que existe a condição, seja para tocar no interior do país, na Bahia ou na Baixada Fluminense, de fazer um dueto com um ídolo popularesco local ou de tendência musical local (se o ídolo for de outro Estado) para poder se apresentar em determinada cidade.

Por exemplo. Se um grupo de Rock Brasil quiser se apresentar em Apucarana, no Paraná, ele tem que gravar um dueto com uma dupla do "sertanejo universitário" (que de "universitário" só tem o nome) para ter o passe liberado. Se é para tocar em Belém do Pará, tem que tocar ao lado fe um nome do forró-brega ou coisa parecida (tecnobrega ou piseiro).

O nome da MPB sofre da mesma exigência. Até um nome do Clube da Esquina, se quiser tocar em Caratinga, tem que dar respaldo a algum breganejo. É enfiar, entre um "Amor de Índio" e um "Todo Azul do Mar", uma cover de "Evidências ", numa apresentação ao vivo em Belo Horizonte, por exemplo. Senão não pode sequer tocar em Juiz de Fora. 

E se o caso é um sambista, se ele não fizer parceria com o canastrão "pagode romântico", está barrado até para se apresentar em algumas casas de espetáculos da Barra da Tijuca e proibido de tocar na Zona Norte carioca, em São Gonçalo e na Baixada Fluminense.

A cousa é braba. Afinal, há toda uma choradeira "contra o preconceito", que o meu livro Esses Intelectuais Pertinentes corajosamente procurou enumerar, que na verdade nunca passou de um juízo de valor de uma elite de intelectuais burgueses que, dotados de muita carteirada, achavam que podiam julgar o povo pobre pela maneira com que este aparecia na TV.

A ideia do pobrismo, do mito da "pobreza linda" e da "periferia legal" em que se exaltava até a prostituição e o alcoolismo como aspectos de "prosperidade de vida" do povo pobre, quase destruiu o país e entregou o Brasil, durante alguns anos, a uma plutocracia que quase fez perpetuar um fascismo à brasileira, já que o pobrismo nunca passou de uma apologia à vida precária e a também precária expressão cultural.

Com isso, a intelectualidade de classe média, burguesa, passou a defender que a cultura popular deva ser sempre precária, aceitando como "geniais" formas medíocres de expressão. Cantores de vozes esganiçadas, músicas toscas, temáticas que nunca saem dos terrenos precários da pieguice, do grotesco ou do coitadismo, num processo claramente comercial de produção musical.

Junto a isso, temos a fábrica de subcelebridades e todo um imaginário que, "sem preconceitos", é altamente preconceituoso, devido ao etnocentrismo falsamente generoso de intelectuais, uns arrogantes (tipo Eugênio Raggi), outros coitadistas (tipo Paulo César de Araújo). É uma burguesia intelectual que pensa que é "mais povo que o povo" e monopoliza as narrativas sobre a cultura popular contemporânea.

Temos que repensar esses critérios. A bregalização cultural estrapolou seus espaços e, na desculpa de ter seus próprios espaços, acabou tomando os espaços dos outros. Hoje é a MPB, o Rock Brasil e a música popular de raiz que sofrem discriminação e muitos de seus músicos tiveram seus trabalhos paralisados durante a pandemia, enquanto os ídolos brega-popularescos sempre arrumavam um jeito para estarem em evidência.

Entre as questões que devem ser consideradas é reconhecer que existe música comercial no Brasil e que, queiram ou não queiram, é Michael Sullivan, Anitta, Chitãozinho & Xororó, Barões da Pisadinha, Benito di Paula, Bell Marques e É O Tchan, entre outros. Nada de terraplanismo cultural de internautas arrogantes nas redes sociais que acham que "comercial" é Legião Urbana, Angra e João Gilberto, enquanto "não-comercial" seria o "funk", hoje na sua fase de batidas com som de lata de ervilha.

Devemos ver a diferença entre as empresas de entretenimento que bancam o "funk", o piseiro, a axé-music, o "pagode romântico" e os nomes do folclore tradicional desprotegidos do mercado. Devemos ter uma discussão amadurecida em vez de sucumbir às narrativas de uma intelectualidade porralouca que, sob o pretexto de lutar contra o preconceito, quase destruiu o Brasil. Devemos lembrar que o bolsonarismo e "pensadores" que vão de Olavo de Carvalho, Rodrigo Constantino e vão até o Monark são, como "filhos indesejados", subprodutos do "combate ao preconceito", como espelhos das narrativas pró-bregas prevalecentes.

Se ficarmos só pelo discurso genérico do "combate a todo tipo de preconceito", correremos o risco de aceitar narrativas em prol da precarização cultural, prejudicando quem deveria receber verbas da Lei Rouanet, que, por si só, não irá trazer melhorias para a cultura do nosso país.

Não seria legal vermos as verbas da cultura financiarem as mansões de Léo Santana e Luan Santana, as fazendas de Bell Marques e Chitãozinho & Xororó, as postagens "sensuais" de Valesca Popozuda nas redes sociais, as encrencas do MC Guimê, os carrões do Péricles e os apartamentos de luxo dos novos funqueiros munidos de suas "latas de ervilhas". 

A música popularesca, as subcelebridades e similares já têm rodo um suporte privado, que inclui até apoio de multinacionais, daí não precisando da ajuda estatal direta ou indireta prevista pela Lei Rouanet. Precisamos investir na cultura de quem realmente precisa e não na de quem tem muito dinheiro em suas mãos.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

PAOLA CAROSELLA É UMA VOZ REALISTA QUE SE ENCAIXA EM TEMPOS DISTÓPICOS COMO HOJE

Fico refletindo o quanto há muitos estrangeiros que se demonstram tão ou mais brasileiros do que muito nativo deste Brasil deitado eternamente em berço esplêndido. Mino Carta, por exemplo, é um jornalista honrado, lúcido, experiente e mais apaixonado pelo Brasil do que muito jornalista hidrófobo que quer entregar toda a condução da política e economia de nosso país para paus-mandados de Wall Street, da Casa Branca e do Pentágono, aqui nascidos. Temos Noam Chomsky, que sabe mais do que muitos brasileiros que houve golpe político em 2016, um evento que começa a desaparecer até da memória de muitos esquerdistas iludidos com o identitarismo fácil. Temos alemães que, lá do seu país, nos alertam para o risco de endurecimento fascista do governo Jair Bolsonaro. Temos japoneses e estadunidenses que apreciam a mesma MPB autêntica que é demonizada pela nossa intelectualidade tupiniquim, mais identificada com os "bumbum tantãs", os "tecnobregas" e as "pisadinhas" da ...

“FARMAR A AURA” É HOJE O QUE A GÍRIA “BALADA” FOI NOS ANOS 1990-2000

O jornalismo de escritório, fechado para o mundo e de costas para os fatos, ainda insiste na palavra “balada”, como de vez em quando ocorre no noticiário “sério”, pelo qual não se poderia usar uma gíria, mas ela é usada de forma abusiva, comprometendo a boa escrita jornalística. Comparo isso com a nova moda de “farmar a aura”, um processo de idiotização cultural num contexto em que o que era imbecil ou medíocre há trinta anos hoje é considerado “genial”. Fala-se que o “sertanejo” de hoje só fala de “encher a cara”, mas os canastrões promovidos a “gênios” Chitãozinho & Xororó tiveram um sucesso chamado “Cerveja”. A onda de “farmar a aura”, antes de mais nada, é composta de rituais estranhos de rodas de jovens que se competem abanando as mãos, fazendo gestos inusitados ou qualquer coisa que possa chamar a atenção dos amigos. Algo tolo e inócuo, mas que a geração Z brasileira está adotando junto a um vocabulário inspirado em jogos de Minecraft, em sucessos do trap e em reality shows ...

COM ÔNIBUS “PADRONIZADOS”, EDUARDO PAES VIROU PADRINHO DO BOLSONARISMO

NÃO DÁ PARA ESQUECER O QUE FOI FEITO NOS VERÕES PASSADOS. Enganando a população se vendendo como um falso esquerdista, o hoje candidato a governador do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, impôs, com o autoritarismo de um ditador, a pintura padronizada nos ônibus, medida que confunde as pessoas comuns e deixa as empresas de ônibus serem reconhecidas apenas por “especialistas”, sejam busólogos, autoridades e tecnocratas. O “pesadelo sobre rodas” foi retomado em 2025 e criou um “baile de máscaras” que demonstrou a arrogância de Paes, que fala e age como um Luciano Huck da política, com a curiosa observação de que os dois são muito amigos e sentem admiração um pelo outro. A pintura padronizada é apenas a cereja do bolo que inclui uma degradação do trabalho de fazer Michel Temer ficar de queixo caído. Motoristas acumulando função de cobrador e tendo que cumprir horário, sendo obrigado a aumentar a velocidade para compensar trechos congestionados dos trajetos. Redução de frotas de ônibus em circul...

O MEDO QUE MUITOS TÊM DE ADMITIR O CULTURALISMO DA FARIA LIMA

Corre um forte medo nas redes sociais. A constatação de que o sistema de valores degradado que atinge o Brasil e deixa muita gente na zona de conforto é em grande parte planejado por executivos e publicitários da Faria Lima faz muitos internautas reagirem e recusarem a admitir essa realidade. Reagem achando que esse sistema de valores prevalecente em nosso país se desenvolveu com a naturalidade do ar que respiramos e, só por fazer parte do cotidiano de muitas pessoas, seria “impossível” atribuir qualquer manipulação ou qualquer processo de alienação sociocultural. Tudo parece agradável, mesmo diante de cenários de idiotização cultural, de obscurantismo religioso e de processos de indução ao consumo cego e voraz. Pessoas acordam, passam o dia e vão dormir tranquilas se submetendo a esse processo que lhes parece natural e espontâneo. A gente vê que o Brasil decaiu muito. Em termos culturais, o Brasil está,no conjunto da obra, pior do que em 1963. Até agora, o Brasil não resolveu seus ent...

A GROSSERIA DE LULA, EM MAIS UMA GAFE

Em mais um "pum" declaratório, o presidente Lula cometei mais uma de suas gafes, desta vez das mais grosseiras. Foi durante a cerimônia do programa Brasil Sorridente, em Brasília, ontem. O programa se destina a fabricar próteses dentárias através da tecnologia 3-D, considerada sofisticada. Lula fez um discurso que soou agressivo, mesmo quando disse que "pobre gosta de coisa boa". A declaração, da maneira como foi feita, foi deplorável. Eis o que o presidente disse, mostrando o sinal obsceno do dedo do meio: " Porque nós precisamos acabar com essa história de que eles pensam que pobre não gosta de coisa boa. Aqui para eles [mostra o dedo do meio]. Nós gostamos de coisa boa. Nós queremos tudo de primeira. Tudo. É comida de primeira, roupa de primeira, viajar de primeira, dentista de primeira, médico de primeira ". Só que não foi coisa boa essa grosseria do sinal do dedo e do comentário bruto do presidente, que peca por ser bastante impulsivo. Com certeza, nã...

MARMANJOS BRASILEIROS SÃO MAIS INFANTILIZADOS QUE ADOLESCENTES NOS EUA

  Existe uma coisa esquisita, entre os EUA e o Brasil. Nos EUA, jovens com menos de 30 anos de idade estão ouvindo sons mais antigos. Não apenas um passado relativamente mais recente, como o som dos anos 1980, mas veteranos ainda mais antigos, como Fleetwood Mac, Bob Dylan e os pioneiros da Invasão Britânica dos anos 1960, os Rolling Stones e os dois remanescentes dos Beatles, Paul McCartney e Ringo Starr. Em contrapartida, no Brasil, pessoas com mais de 30 anos mergulham fundo na mediocridade musical dos sucessos popularescos e, quando há alguma nostalgia, ela se situa nas breguices que fizeram sucesso comercial há 30, 40 e 50. Michael Sullivan, É O Tchan, Gretchen, Odair José, e a versão de “Evidências” com Chitãozinho & Xororó. É preocupante que,num momento em que uma parcela privilegiada da sociedade brasileira vive uma megalomania crônica, se achando dona do mundo e ávida pela entrada do Brasil no Primeiro Mundo e no protagonismo mundial pleno,o cenário cultural esteja tão...

ELITE DO BOM ATRASO NÃO GOSTA QUE SE CRITIQUE O UFANISMO DAS FAVELAS

  Um caso foi divulgado no portal Investi Brasil, que citou a grande repercussão da frase de um jovem, que declarou: “Favela não é cultura. Favela é pobreza, desordem e caos”. O jovem reforçou sua tese argumentando sobre a necessidade de criar políticas habitacionais para a população carente. Embora o internauta tenha recebido manifestações de solidariedade nas redes sociais, ele sofreu ataques e foi vítima de cancelamento. Tudo porque os descolados não gostaram do comentário do rapaz de que favela não é cultura. Antigamente, os jornalistas sérios alertavam para o problema crônico das favelas, definidas como uma grande tragédia social, consequente do abandono da população pobre depois da Abolição da escravidão. É um triste efeito da exclusão imobiliária que forçou os pobres a improvisar construções precárias que não têm segurança nem conforto. Somente nos últimos 25 anos, surgiu a narrativa, com uma forte dose de hipocrisia social, o tratamento glamourizado das favelas, aliado à es...

LULA ESTÁ MANIPULANDO O PROCESSO ELEITORAL?

LULA DÁ INDÍCIOS DE SER POLITICAMENTE ABUSIVO AO BUSCAR VENCER A QUALQUER CUSTO A CORRIDA PRESIDENCIAL. No último fim de semana, o presidente Lula declarou, ao saber da intenção do presidente dos EUA Donald Trump de enviar dois funcionários para fiscalizar e contestar o funcionamento das urnas eletrônicas, que "quem mexer nas eleições brasileiras vai apanhar muito". A justificativa do petista é que as urnas eletrônicas são confiáveis e acusa os funcionários de Trump de quererem prejudicar as eleições brasileiras, prejudicando a soberania e o voto democrático. Tudo bem. A interferência estrangeira é uma ameaça à soberania brasileira e, com toda certeza, atenderá a um interesse externo, divergente do interesse público dos brasileiros. Garantir que o Brasil seja soberano até na realização das eleições é fundamental para a saúde sociopolítica de nosso país. O grande problema, todavia, é que Lula se vende como um "candidato único", que apenas precisa do contraponto bolso...

POR QUE UM FEMINICIDA TENDE A MORRER MAIS CEDO QUE UM HOMEM COMUM?

A tragédia pessoal de um feminicida não ocorre porque supostamente nós desejamos ou não que isso aconteça. Queiram ou não queiram, essa tragédia vem da própria personalidade tóxica do feminicida, que não tinha uma personalidade zen quando cometeu o crime e nem vira um primor de longevidade tempos depois. O próprio feminicida constrói sua morte que de qualquer maneira reduz seu tempo de vida. Antes de cometer o crime, ele desenvolve um sentimento de ódio contra sua vítima, quase sempre uma esposa ou namorada cuja relação terminou ou está para terminar. Esse ódio lhe causa mal estar e isso mina seu organismo e, não obstante, lhe tira o sono, prejudicando seu rendimento físico. Sua consciência, evidentemente, lhe adverte para não cometer o crime, mas a obsessão pelo ato lhe faz o coração bater acelerado, o que se agrava no exato momento do crime, que causa, no seu praticante, um desgaste energético que é apenas pequeno para causar algum problema de saúde, mas abala seu funcionamento de qu...

QUANDO ROCK É PURO NEGÓCIO

    O negacionismo factual dos “roqueiros de butique”, sejam filhinhos de papai, titios do food truck , tietes de parquiletes, garotas mimadas metidas a malvadas, andou prevalecendo nas redes sociais e o pessoal anda passando pano em “rádios rock” como a 89 FM, mesmo quando sua família dona da emissora ter um arrepiante histórico de defesa da ditadura militar e de pautas desumanas como a jornada excessiva de trabalho e as fortunas abusivas dos super-ricos. Para esse pessoal, isso pouco importa. Eles endeusam rádios canastronas como a 89 FM e similares pelos poucos hits roqueiros que se encorajam em ouvir. Um punhado de músicas de Beatles, Rolling Stones, Queen, Pearl Jam, Ramones, Green Day e Nirvana, grupos rebaixados a one-hit wonders como Deep Purple e AC/DC, um nome superestimado como Guns N'Roses, bobagens como Raimundos e Mamonas Assassinas e grupos de thrashno como System of a Down e Korn. E não muito além disso. A indigência da cultura rock no Brasil e o caráter cons...