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A ELITE DO BOM ATRASO

"FUNK" É UM DOS ESTILOS PREFERIDOS DA "BOA" SOCIEDADE BRASILEIRA, COMO ATESTA O "BAILE FUNK" NUM POSTO DE GASOLINA EM SÃO PAULO.

Elite do atraso é só Jair Bolsonaro, Sérgio Moro, Deltan Dallagnol e companhia? Viralatismo cultural é só bolsonarismo, lavajatismo, jornalismo hidrófobo, neopentecostalismo rancoroso e humorismo sociopata? É tudo isso, mas não é somente isso. Há muita coisa "legal", muitas "melhores coisas da vida" que, no Brasil, são também viralatismo cultural, cultuados por uma elite do atraso que não quer ser conhecida por este nome porque senão ela chora.

Vivemos sob o signo do não-raivismo e da louca estupidez de uns 30% da sociedade brasileira que detém privilégios significativos, embora seu poder não se manifeste necessariamente pelo dinheiro, que é muito, mas abaixo das exorbitantes fortunas do grande empresariado rentista e dos banqueiros em geral. O poder da "boa" sociedade se deve pelo tráfico de influência, pelo fato dessa elite se servir do mimetismo ideológico, se achando "a humanidade" e se julgando "dona" de tudo: da verdade, do futuro, do planeta, do povo pobre, da última palavra e o que vier por aí.

Trata-se de uma elite provinciana, jeca, bairrista, pouco esclarecida e cuja submissão ao poder midiático é enrustida. Já tem rapagão "ixperto" dizendo nas redes sociais que sua geração cresceu nos anos 1990 sem mídia e apenas ouvindo a estórias da vovó nas reuniões familiares à noite. Não me parece que esse tinha sido o costume de quem foi criança ou adolescente nos anos 1990.

O pessoal ouve música popularesca e, quando muito, o hit-parade do que está além disso. Se limitam a ouvir um punhadinho de músicas estrangeiras não porque estão sintonizados com o que ocorre lá fora, mas porque essas músicas apareceram em antigas trilhas de novela da Globo ou na programação das Jovem Pan na vida, ou quando elas têm poderosos representantes nas editoras de copyright atuantes no Brasil.

É um pessoal que cultua subcelebridades, fala estranhas gírias como "balada" e "dialetos" em portinglês como "doguinho" e "lovezinho". Sua delimitação econômica vai do pobre remediado que ouve piseiro nos bares de subúrbio ao famoso que, apesar de ter uma fortuna comparável à de um banqueiro, é desprovido da mesma influência político-econômica deste.

Essa elite do atraso é uma espécie de "bolsonarista do bem". Vê o povo pobre como um bando de pessoas "ingênuas", quase uns bichinhos de Tik Tok. Por isso é que há o apreço ao divertimento brega-popularesco e o "culto à personalidade" a pretensos filantropos, de "madres" e "médiuns" que fizeram mais por si do que pelo próximo na sua caridade fajuta e pregam o quanto é lindo sofrer calado as piores desgraças. Desde que essas desgraças não atinjam a "boa" elite, tudo bem.

As pessoas dessa "boa" elite compartilham da ideia de "liberdade" difundida por um consórcio de empresas midiáticas: Globo, SBT, Record, Rede TV!, Folha de São Paulo, Band, Jovem Pan. Mas se recusam a admitir isso, pois para todo efeito o seu hedonismo festivo, brega e provinciano se desenvolveu através do ar que respiramos.

Essa elite curte humorismo de bordão. Julga o datado humorístico Chaves como "comédia de vanguarda". Supervaloriza ídolos medianos que, nos seus países de origem, são insignificantes, como Johnny Rivers e a banda Outfield. E são capazes de ouvir o mesmo limitado repertório de "grandes sucessos" (definidos sob o eufemismo de "clássicos" ou flashback) a vida toda, sem variação de canções.

Superestimam Michael Jackson definindo-o como "gênio absoluto" quando, nos EUA, ele nunca foi isso e, nos últimos anos de carreira, agia como uma celebridade em profunda decadência (vide o surto do cantor, que quase atirou seu bebê pela janela). E o pior que essa "genialidade" é motivada mais pelos clipes grandiloquentes a mascarar o repertório mediano.

Até a cultura "vintage" é peculiar: um saudosismo musical marcado por ídolos bregas dos anos 1970 aos 1990, como Michael Sullivan, Benito di Paula, Chitãozinho & Xororó, É O Tchan, Art Popular e Grupo Raça Negra. Consideram Ivete Sangalo a diva absoluta. O "novo", na música, é o som do "funk" com batida de lata de ervilha e MCs com vozes adolescentes, não raro "tratadas" com Audio Tune.

Muitos adoram fazer festas à noite, sem medir escrúpulos de incomodar a vizinhança. Adoram festas com trilha sonora popularesca, com sucessos defendidos com unhas e dentes por jovens narcisistas, que se reúnem em boates da moda ou, se não for o caso, em galpões de eventos ou em festas improvisadas em postos de gasolinas, com "direito" à arriscada combinação de álcool e volante, consumo de drogas adoidado e até um cigarrinho comum a ser fumado perto de tanques de combustíveis, perigo ignorado porque esse pessoal, por se achar "legal", acha que nunca sofrerá tragédia.

Literatura, para ela, são livros que fogem da missão de consumir conhecimento, como ficções sobre cavaleiros medievais, meninas perdidas na floresta, estudantes que viram vampiros, "livros para colorir" etc. Se as obras literárias "lembram" seriados da Netflix e do HBO, melhor. Autores de verdade, só quando os livros caem em concurso ou viram temas correntes em feiras de livros da moda. 

Cinema são só os blockbusters do momento. Comédias, as mais inócuas e, se elas mostrarem o povo pobre caricaturalmente feliz, melhor ainda. Artes plásticas, só nomes como Vik Muniz e Romero Britto, pois os grandes pintores só são apreciados quando há um modismo em alguma galeria de arte em alta, exposições de gente como Portinari, Monet e Tarsila patrocinados pela Rede Globo de Televisão.

O lazer é o mais prosaico possível: futebol, bebedeira, badalação, religião e redes sociais, à procura das mesmas bobagens do Instagram, Facebook, Twitter e outras plataformas. Preferem consumismo a cidadania. O fanatismo por futebol, pelas rodadas de cerveja (com um apetite maior do que o já fanático consumo estrangeiro) e pela religião (que faz o emoticon das mãos em prece ser um dos mais usados nas redes sociais) atingem níveis surreais, principalmente se observarmos que, no mundo desenvolvido, a fé religiosa está em declínio.

Essa "boa" sociedade, de tão desinformada, permite posturas como o mercado de trabalho contratar piadistas em vez de profissionais competentes e inovadores. Aliás, é uma multidão com grande parte de pessoas perdendo tempo fazendo das conversas diárias um "duelo" de piadas e risadas. Essas pessoas, afinal, são suficientemente ricas e bem de vida para ficarem rindo à toa.

É esse o pessoal que está feliz quando Lula está no exterior. As pessoas acreditam que Lula, ao negociar a paz entre Rússia e Ucrânia, já está reconstruindo o Brasil, por ser o Lula. E ai de quem contestar, pois essa "boa" sociedade é dona da verdade, e acha a predestinada do mundo e considera que, até dezembro, nosso país será "com certeza" potência de Primeiro Mundo, mesmo com um quadro sociocultural bastante precarizado.

Segundo essa elite do bom atraso - ou boa elite do atraso, a troca da ordem não altera o sentido - , o Brasil pode virar Primeiro Mundo assim mesmo, depois se houver problema a gente conversa. Tá, mas o problema é conversar com gente teimosa, dessa elite dos 30% que não quer ser criticada, por se achar sempre com razão. Vá entender...

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