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A LIÇÃO DE DIGNIDADE DE TINA TURNER


Hoje o mundo perdeu a grande cantora Tina Turner, uma das maiores estrelas da música internacional. Ela tinha 84 anos incompletos (seu aniversário seria em 26 de novembro) e sofria de câncer no intestino. Estava aposentada da música e vivia com o último marido, o executivo da música alemão Erwin Bach, que curiosamente a fez falar o idioma germânico. O casal viveu os últimos anos em Küsnacht, na Suíça, onde ela faleceu.

A carreira de Tina, mesmo dentro do contexto do show business e do hedonismo pop dos anos 1980, foi um grande exemplo de dignidade e superação, embora tenhamos muito cuidado quando mencionamos dramas pessoais que resultam em superações, porque não é legal ficar sofrendo o tempo todo na vida, mesmo quando depois chega o sucesso e a prosperidade. Fica algo como, conforme vemos no caso do Espiritismo brasileiro, o Catolicismo medieval de botox, sentir prazer pelo sofrimento alheio.

Não. Nada disso. Tina Turner, nascida Anne Mae Bullock em Brownsville, Tennessee, no distante ano de 1939, começou sua carreira em 1957, quando, então trabalhando como garçonete, se ofereceu para ser cantora de apoio da banda Kings of Rhythm, cujo guitarrista, Ike Turner, se tornaria depois o seu primeiro e problemático marido. 

Como cantora, sua estreia foi num compacto de 1958, puxado pela canção "Boxtop", como codinome de Little Ann, apelido dado por sua baixa estatura. A canção era composta e produzida por Ike Turner, e a então "Aninha" cantava juntamente com o vocalista dos Kings of Rhythm, Carlson Oliver.

O nome artístico de Tina Turner veio a partir de 1960. Em julho de 1960, o primeiro disco com o nome artístico foi puxado pela canção "Fool of Love". Creditada como The Ike and Tina Turner Revue, o compacto deu origem à trajetória de uma dupla de grandes canções de sucesso na soul music, como "It's Gonna Work Out Fine", "River Deep, Mountain High", "Tell Her I'm Not Home", entre outros. 

Na carreira discográica, Ike e Tina Turner trabalharam com o produtor Phil Spector, que aplicou sua "parede sonora" (The Wall of Sound), que consiste em gravar os instrumentos separados, incluindo orquestra, e juntá-los sob um tratamento técnico sofisticado de mixagem, em canções como "River Deep, Mountain High", o maior sucesso do casal, composto pelo produtor em parceria com Jeff Barry e Ellie Greenwich. Em 1968, a mesma canção teve versão pelo Deep Purple da fase Rod Evans. 

Jimi Hendrix tentou entrar nos Rhythm Kings de Ike Turner e até tocou por um breve período, em 1965, mas o estilo arrojado do jovem guitarrista, fazendo distorções e virtuoses usando o pedal fizeram com que Ike demitisse o rapaz, por conta do estilo ousado que destoava das propostas da banda.

A carreira da dupla Ike & Tina seguiu até 1975, e em 1971 um de seus sucessos foi uma cover do Creedence Clearwater Revival, "Proud Mary". Mas, por trás da carreira de sucesso e do talento habilidoso de Ike como guitarrista, pianista e copositor, a intimidade mostrava um quadro deplorável: com transtorno bipolar e vício em álcool e cocaína, Ike violentava Tina e, não satisfeito com o sucesso da dupla, acusava a mulher para contribuir para o que ele acreditava ser um fracasso.

As brigas eram constantes e Tina reagia também irritada, até que em 1976 ela decidiu deixar a dupla e dar fim ao casamento, cujo divórcio se concluiu em 1978. Ike esnobou Tina dizendo que ela não teria chance como cantora solo e a ex-mulher abriu mão da pensão, mantendo apenas o direito de usar o nome artístico, com o sobrenome do ex-marido, e aceitou recomeçar a carreira do zero.

Buscando aproximar seu estilo soul às influências do rock, Tina Turner recomeçou a carreira sob influência e apoio de David Bowie e dos Rolling Stones, para quem o antigo casal musical havia feito concerto de abertura na turnê estadunidense de 1966. Mick Jagger, cantor dos Stones, tornou-se um grande amigo e eventual parceiro de Tina Turner. 

A cantora passou a trabalhar uma imagem mais sexy nas suas performances e consagrar pelo estilo vigoroso, pela sua imponência no palco e pela consolidação de seu talento vocal já conhecido da antiga dupla. Tina criou um estilo de apresentação ao vivo que fez a sua fama no decorrer de sua carreira.

A partir dos anos 1980, mais precisamente 1983, Tina Turner passou a fazer uma trajetória mais pop, quando a indústria musical dos EUA e Grã-Bretanha passou a desenvolver um mainstream mais ascéptico musicalmente e mais grandiloquente nas apresentações ao vivo, vide o Live Aid.

Tina, no entanto, manteve sua dignidade artística mesmo em trabalhos menos inspirados, como "I Don't Wanna Lose You" e "Two People". Por outro lado, mostrava bons momentos como as interpretações peculiares de "Help", dos Beatles, e "Let's Stay Together", de Al Green. Na faixa-título do álbum Private Dancer, de 1984, uma curiosidade pode ser feita com uma canção muito conhecida da MPB.

Com uma temática envolvendo erotismo feminino e boemia, "Private Dancer" pode ser comparada a "Folhetim", música de Chico Buarque feita para a também já falecida Gal Costa. O sucesso de Tina Turner é uma composição de Mark Knopfler feita especialmente para a cantora, e, de forma insólita, o estilo de composição de cada autor se torna evidente, como se pudéssemos imaginar cada um deles cantando cada canção, o que devem ter feito na intimidade, para si mesmos, para testar a música que cada um daria para a respectiva cantora.

Tina Turner fez uma apresentação com Mick Jagger no Live Aid, em 1985. Também fez um dueto na música "Tearing Us Apart", com Eric Clapton e, na bateria, Phil Collins, em 1986 (no Brasil, a música foi tocada até como fundo musical no Cassino do Chacrinha, da Rede Globo). E também gravou "It's Only Love", dueto com Bryan Adams, também em 1985. 

Como atriz, participou do filme Mad Max - Além da Cúpula do Trovão (Mad Max Beyond Thunderdome) no papel de uma vilã, enquanto era incluída na trilha sonora com o sucesso "We Don't Need Another Hero", outro bom momento de Tina. Ela também havia atuado no filme Tommy, de 1975, baseado na opera-rock da banda The Who. Em trilhas sonoras, Tina emplacou a canção "Golden Eye", para o filme do mesmo nome da franquia 007.

Em 1989, Tina Turner lançou "The Best" (do refrão "You're simply the best"), música de Holly Knight e Mike Chapman (produtor do Blondie - a banda de Debbie Harry, por isso, homenageou Tina no seu perfil oficial do Instagram), inicialmente gravada em 1988 pela cantora inglesa Bonnie Tyler.

Tina em 1986 lançou a biografia I Tina, que virou best seller e foi adaptada para o cinema em 1993, tendo Angela Bassett no papel da cantora. Em 1988, Tina Turner se apresentou no Maracanã, no Rio de Janeiro, cuja plateia de cerca de 182 mil pessoas fez a cantora entrar no livro Guiness de recordes mundais como o maior concerto feito por uma artista solo na história.

Nos últimos anos, várias coisas aconteceram. Ike Turner faleceu de overdose em 2007. Tina Turner tornou-se budista, se aposentou em 2009, passou a viver na Suíça com o marido dos últimos anos, o produtor e empresário Erwin Back, dezessete anos mais novo. Dois filhos do casamento com Ike, Craig e Ronnie, faleceram, um de suicídio em 2018, outro de câncer em 2022. Tina deixou dois outros filhos do ex-marido, por ela adotados, Ike Turner Jr. e Michael Turner.

Tina Turner faleceu pacificamente, conforme anunciou o comunicado oficial. Numa de suas apresentações antes da aposentadoria, Tina falou que sua vida "não foi boa". No entanto, procurou viver os últimos anos em paz e com tranquilidade, em outro país, numa rotina diferente. E, diante da futilidade que está o mainstream hoje em dia, Tina Turner representa uma grande lição de dignidade e perseverança que sempre teve ao longo de sua carreira e, certamente, ela inspirará futuras gerações.

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