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O CASO VINI JR. E A HIPOCRISIA DA "BOA" SOCIEDADE

VINI JR. FOI ALVO DE ATAQUE RACISTA QUE REVOLTOU O BRASIL E O MUNDO.

A realidade do futebol é tão tóxica que o fanatismo dos torcedores apela para a violência, o ódio, o preconceito. O que poderia ser uma simples diversão, o futebol se torna um lazer tóxico em que o fanatismo ocorre de diversas maneiras, e, para piorar, com fortes ataques de ódio e preconceito vindos de torcedores reacionários.

No último domingo, em Valência, Espanha, havia a partida do campeonato nacional La Liga, entre os times de Valência e Real Madrid, e no segundo tempo torcedores xingaram o jogador Vinícius Júnior, o Vini, de "mono" ("macaco", em espanhol) e um torcedor teria jogado uma bola para atrapalhar a jogada do futebolista. Vini Jr. reclamou com a arbitragem, mas depois a torcida que estava na parte da arquibancada próxima do gol do Valência aumentou o tom das xingações. Mais tarde, os torcedores agressores foram identificados como membros do grupo neonazista Ultra Yomus.

Negro, Vini Jr. escreveu uma mensagem nas redes sociais acusando as autoridades esportivas espanholas de conivência. O ataque de anteontem não foi o primeiro sofrido pelo jogador, que havia sido vítima de incidentes semelhantes. Ele foi vítima de, pelo menos, dez ataques racistas. Ele entrou na Justiça por conta do crime de racismo que o atingiu. Seis árbitros da partida já tiveram sua demissão anunciada, por agirem pela expulsão de campo de Vinícius. Felizmente, Vinícius teve o cartão vermelho anulado e foi autorizado pela Justiça a continuar jogando.

O caso causou profunda revolta, tomou conta da agenda setting da Internet no fim do último domingo e até a estátua do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, teve a iluminação desligada naquela noite como protesto contra o racismo que atingiu o jogador. Comovido, Vini Jr. elogiou a iniciativa: "preto e imponente", escreveu, a respeito da estátua mantida no escuro noturno.

Sem dúvida, o episódio causa indignação e mostra a grosseria preconceituosa de torcedores europeus, e o Real Madrid já entrou com ação na Justiça espanhola contra a permissividade das autoridades esportivas para que atos como os ataques racistas continuassem acontecendo.

A grande imprensa manteve o seu dever de repercutir corretamente o caso, com muitas informações sobre os efeitos do triste incidente. A mídia esquerdista brasileira alternou a cobertura correta, colhida a partir de informações de agências de notícias, e artigos que chegam a fazer certos exageros, tratando Vini Jr. como se fosse um "herói bolivariano". Menos, menos. Vini é apenas um astro do futebol, negro de origem pobre, hoje rico e famoso, que luta para punir aqueles que se envolveram nos ataques racistas.

Nas redes sociais, então, a rasgação de seda foi exagerada, e vamos combinar que o fato de Vini Jr. ser um negro pesou menos na ótica da "boa" sociedade do Brasil-Instagram. Vini só recebeu "solidariedade" porque era famoso e astro de futebol, esporte que é alvo, no Brasil, de um dos mais doentios fanatismos existentes no mundo.

É a mesma sociedade que, quando vê outros negros sem a sorte de Vini Jr., reage com muito desprezo e até repugnância. Quando veem negros pobres pedindo esmola, viram a cara e resmungam consigo mesmos "Ora, vão trabalhar!". Quando veem negros pobres, desesperados e famintos, furtando carne num supermercado, vão logo dizer que são "criminosos", ignorando a falta de oportunidades que motivou essa atitude. E, nas periferias, o racismo contra pretos, muitas vezes, não se dá pela palavra, mas a bala, como divulgam a tragédia estatística que ceifa muitos jovens negros.

Ou seja, a "gente bem" que se esconde sob a capa da "esquerda democrática" nas redes sociais para apagar o passado anti-Dilma e pró-Temer de suas antigas postagens, a burguesia que se sente orgulhosa do que imaginam ser o ato de "entender de povo pobre", não está apoiando Vini Jr. por ser um negro, mas pelas manobras identitaristas do racismo estrutural, que "valoriza" o negro desde que delimitado em papéis reservados pela sociedade burguesa que domina o Brasil há, pelo menos, 50 anos.

Negro, para essa "boa" sociedade, pode ser funqueiro, jogador de futebol, pagodeiro, camelô. Mas o negro se tornando advogado, jurista, artista plástico e pediatra, para essa "gente bem" a coisa só deixa de ser incômoda através de muito contexto feito para "normalizar" a condição, mesmo assim tratada de maneira excepcional.

Por isso vemos a hipocrisia de uma parcela de pessoas que pegam carona no caso Vini Jr, visando lacrar a Internet e levando em conta o fanatismo pelo futebol, esporte que mais parece causar tensões do que divertir e alegrar. No mesmo domingo dos ataques a Vini Jr., torcedores do São Paulo e do Vasco da Gama brigaram na estação da CPTM em Pinheiros, na capital paulista, com saldo de alguns feridos.

Apoiamos totalmente a iniciativa de Vini Jr. em buscar justiça contra o racismo que sofreu. Que ele consiga punir os culpados por essa agressão abominável. Vini Jr. merece respeito, como todo ser humano merece, e principalmente pelo fato de que os negros não podem ser excluídos do direito de serem respeitados. Já basta a forma trágica com que seus ancestrais chegaram e a vida humilhante que tiveram no Brasil, durante várias gerações.

No entanto, Vini Jr. é uma celebridade rica e o futebol é apenas um entretenimento. Futebol não é um protesto político nem uma cultura de vanguarda, é apenas diversão. Respeitemos Vini Jr. totalmente, mas nos lembremos dos negros pobres sem chance de ter a fortuna e a visibilidade dos atletas de futebol, e que por isso sofrem um racismo ainda mais doloroso, porque não é percebido pela "boa" sociedade (de)formadora de opinião.

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