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DÉCADAS DE TUCANATO ACOSTUMARAM MAL AS ELITES HEDONISTAS DE SAMPA - PARTE I

A "BOA" SOCIEDADE ACHA QUE BEBER CERVEJA É TUDO NA VIDA. DANE-SE A FOME DO OUTRO.

Meca da elite do bom atraso, a cidade de São Paulo, antes tão estranhamente estranha a mim que, assim que decidi viver na cidade, me familiarizei rapidinho, é uma cidade belíssima. Infelizmente a cidade sucumbiu a certa decadência cultural, com uma multidão de animais consumistas, gente egoísta que só quer demais para si e se acha melhor que os outros e prefere viver sua felicidade tóxica, desprezando os problemas alheios.

Mal consegue essa classe, “modelo” para todo o Brasil, disfarçar seu egoísmo quase irritado mas dito com um esforço de calma aparente. Tentam ser “generosos”, dizendo para aqueles que imploram por ajuda a “rezar e confiar em Deus” porque a prece traria tudo: da volta do amor perdido ao dinheiro para pagar as dívidas.

Mas vamos combinar que o sujeito que toma uma atitude dessas, mandando o pobre coitado rezar em vez de prestar socorro - imagine um salva-vidas cruzar os braços e mandar um afogado rezar porque tudo vai ficar bem? Pois é! - , de repente, tem o carro roubado numa bela noite, na saída de um jantar noturno. Dá voltade de dizer: “Não se preocupe, amigo, mantenha fé em Deus, fique orando a noite toda que na manhã seguinte o seu carrão volta inteiro para suas mãos. Vai que ele volta dirigido pelo próprio Deus, né?”.

Por que a sociedade brasileira, pelo menos na sua parcela mais influente, está assim tão abusiva e abusada, a ponto dela ter direito a uma colcha de retalhos de tudo quanto é falsidade, um interminável baile de máscaras de pessoas que, de tanto quererem parecer agradáveis em tudo e a todos, já nem sabem quem realmente elas são e o que realmente querem na vida.

Essas pessoas só querem consumir, feito animais coisificados e vorazes, o excesso de dinheiro que possuem em suas mãos, bolsos e contas. Nem que essa farra termine com essas pessoas se jogando dos terraços de seus prédios, o que vale é seu hedonismo, danem-se os problemas e necessidades alheios.

Por que temos pessoas comprando caro um monte de comida que, em sua boa parte, é jogada fora, sob estranhos sentimentos de desdenhoso orgulho?

Por que essas pessoas passam a madrigada perturbando o sono de quem precisa dormir para trabalhar no dia seguinte ou mesmo para caminhar ou viajar cedo numa manhã de fim de semana ou feriado, rindo alto, tocando música alta e expondo suas vidas particulares para os outros ouvirem?

Por que temos pessoas com apetite desmedido para festas, viagens, apegada a falsas necessidades, teleguiada pela mídia venal, idiotizada ao extremo - dentro de uma perigosa idiotização estudada por Humberto Eco no fim da vida - , e tomada de uma arrogância e uma megalomania sem freios que as faz pensar que têm o planeta todo nas palmas de suas mãos?

Por que temos gente assim que cobra de quem não tem mas não cede o que tem demais para auxiliar os despossuídos e devedores? Por que temos pessoas cheias de bens achando que suas felicidades são “bens pessoais e intransferíveis”?

Por que, num país em que pessoas não tem passagem de ônibus, teem ou metrô para ao menos ir procurar trabalho, quem tem demais se atreve a comprar um automóvel para cada membro da família? Ou num país de sem teto em que gente compra apartamento de três quartos, cobertura ou mansão, se atreve a colocar um aparelho de TV em cada compartimento da respectiva residência?

Por que tanto egoísmo mascarado pela alegria tóxica, pela qual só se importa o “ter” e cuja liberdade é só dos instintos que escravizam as pessoas a ponto delas jogarem fora todo tipo de escrúpulos?

Por que tanta gente abusiva e abusada, na sua aventura sem freio do prazer autodestrutivo, da insanidade psicológica desenfreada, das risadas histéricas, do consumo inconsequente, em que a alegria de viver e o sabor das coisas e dos alimentos acabam não sendo sentidos por causa dessa falta de saúde mental dessa festa que se pretende sem fim?

E por que essa festa louca que se acha sem fim, ao mesmo tempo vivida como se não houvesse amanhã e cujos beneficiários ainda têm a arrogância de impor que o amanhã repita sempre os prazeres tóxicos do hoje?

Anos e anos de tucanato político, da tirania burguesa do poder financeiro, quando a linda São Paulo tornou-se refém de apoiadores locais da ditadura militar, mostrando o poder de Paulo Maluf, dos grandes banqueiros, da burguesia esclarecida de Fernando Henrique Cardoso, todos contaminando São Paulo e desfazendo aquela vocação trazida pela geração de 1922, que usou o dinheiro da elite cafeeira para contrariar os interesses culturalistas das velhas oligarquias.


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