GENTE CONO A GENTE?
Dizem que o Brasil está vivendo a melhor fase de toda a sua História. A narrativa, compartilhada em aparente consenso por algumas centenas de pessoas nas redes sociais, é vista como “verdade absoluta” por aqueles que, já estando bem de vida, são ainda mais bemeficiados pelo neoliberalismo festivo do atual governo Lula.
No entanto, vamos prestar atenção antes de entrar numa euforia sem motivo. Perguntemos quem é que acha que vivemos o melhor de todos os tempos. Perguntemos se os tradicionais excluídos sociais estão sentindo essa mudança. E, observando bem, as respostas escapam das narrativas oficiais e persistentes do lulismo.
Enquanto os excluídos sociais da vida real, que evitamos serem confundidos com os “excluídos sociais” da propaganda de Lula, sofrem a mesma miséria, forçados a dormirem em calçadas sujas na companhia única do medo e da insegurança, quem gosta do presidente brasileiro é quem está de bem com a vida: a elite do bom atraso, a burguesia de chinelos invisível a olho nu que aposta num socialismo de boutique e de botequim.
Tomada de sua múltipla falsidade, que os fizeram bater pontos em xomunidades tipo “Eu odeio hipocrisia” no Orkut e no Facebook - verdadeiros redutos do que há de mais hipócrita na sociedade, salvo exceções de uns poucos bons samaritanos - , a elite do bom atraso se acha “mais pivo que o povo”.
Passeiam de carros modernos, incluindo SUVs e Lamborghinis, mas se acham “povo” porque tem que pagar IPVA e abastecer seus carrões de combustível. Falam portinglês com “dialetos” como “dog”, “body” (o novo estranho nome para o já galicista “maiô”), “boy”, “bike” etc, mas se acha “povo” por dizer coisas do tipo “as mina pira” e “os cara tá doido”. Tomam Moet Chandon sem cerimônia, mas se acham “povo” porque de vez em quando encaram aguardentes vagabundos nas biroscas da esquina. Se acham “povo” porque simulam “festas na laje” em seus luxuosos condomínios, com direito ao som brega-popularesco e ao consumo voraz de cerveja, em quantidades diluvianas.
Essa elite domina 95% das narrativas, crenças e valores difundidos pela mídia convencional e pelas redes sociais. Na sua falsidade, seus indivíduos consomem mídia adoidado mas fingem odiar seus porta-vozes, de William Bonner a Monark, de José Luiz Datena a Caio Coppola. Alguns, mais idiotas, chegam a dizer que “só viram Netflix desde os anos 1980”. O canal Netflix existe desde 2012.
A elite do bom atraso se acha “mais povo do que o povo” porque, para ela, só esta classe se acha “a mais legal do planeta” e a “mais equilibrada”, sob a desculpa de não ter o pessimismo existencialista europeu nem as neuroses dos africanos e asiáticos, incluindo o Oriente Médio. E acham que o povo propriamente dito “não é povo” porque não teria, em tese, tempo nem escolaridade para se reconhecer como tal.
Com seus preconceitos cruéis de classe que se autoproclama “sem preconceito”, a burguesia de chinelos se considera “gente como a gente” confundindo simplicidade com vulgaridade e irresponsabilidade. Acham que podem ser “simples” cometendo erros, grosserias e excessos que presumem serem próprias dos pobres que veem nos circuitos boêmios e prostíbulos nas cidades.
Portanto, a elite do bom atraso é mais do que uma classe média abastada. É uma classe medíocre, mas narcisista, megalomaníaca e muito egoísta, querendo tudo para si, até mesmo o domínio do mundo. Felizmente o Primeiro Mundo nunca deixa esses vira-latas culturais dominarem o planeta.
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