A SITUAÇÃO DO BRASIL HOJE É DE FAZER ATÉ MUDO QUERER GRITAR POR AÍ.
O Brasil não vai para o Primeiro Mundo. Nem sonhando alto se conseguirá isso. Nem se o Produto Interno Bruto se tornar cem vezes maior, a indústria tiver uma atividade formidável e o superávit financeiro subir para níveis estratosféricos, o Brasil estará pronto para se juntar ao banquete dos países ricos e prósperos.
Isso não é pessimismo, é realismo, e a dolorosa constatação, que deve fazer a “boa” sociedade boicotar um texto como este por causa de ideia tão desagradável, tem um motivo muito simples e igualmente incômodo para aqueles que vivem nas suas zonas de conforto cotidianas.
É que o sistema de valores vigente no Brasil é velho, caquético, podre, mofado. Os heróis do Brasil são ainda os mesmos dos tempos do general Ernesto Geisel, de Gretchen ao “médium da peruca”. E se apega neuroticamente a um culturalismo vira-lata que cultua ídolos musicais popularescos e transforma o futebol numa paixão tóxica a contaminar e perturbar o sossego dos domingos. Nunca conseguimos sair dos valores socioculturais que prevaleciam na Era Geisel.
Como nosso país, afundando nessa areia movediça do atraso sociocultural gritante, mas que é erroneamente tido por muita gente boa como “as boas coisas da vida”, vai chegar ao Primeiro Mundo, a ponto dos brasileiros vira-latas enrustidos - porque, oficialmente, o viralatismo cultural se limita a ser reconhecido somente no raivismo do bolsolavajatismo e na mídia hidrófoba - esnobarem e ridicularizarem as sociedades desenvolvidas?
Até o consumo de cigarro em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Niterói, Curitiba e a hoje devastada Porto Alegre, atinge níveis comparáveis aos anos 1970. Sempre o período do “milagre brasileiro”, da elite abastada e cheia da grana que hoje se mascara de “gente simples” nas redes sociais e se esconde protegida sob os paletós azuis do presidente Lula.
E o mercado de trabalho? Marcado pelas exigências surreais - como a improcedente combinação de longa experiência e pouca idade - , o mercado profissional não valoriza de forma adequada o talento e a competência e, quando tenta valorizar, não ensina o aspirante a desenvolver o talento latente que apenas é exercido com erros iniciais nos primeiros dias. Há preconceitos de ordem meritocrática, lúdica e etarista que complicam as exigências e acabam prejudicando o cotidiano de trabalho contratando profissionais medíocres mas que se encaixam nas exigências vigentes, incluindo o “quem indica” do clientelismo profissional.
Até os concursos públicos, marcados também pelo preconceito meritocrático, em que pese sua flexibilidade etária, pecam pelas questões complicadas e prolixas. Já exigiram Matemática (sob o rótulo de “raciocínio lógico”) até em áreas onde o cálculo aritmético era desnecessário, mas essa onda já passou. Mas continuam, não obstante, contratando servidores errados, enquanto os servidores desejados são reprovados pela demora em ler questões prolixas, na margem de erros dos gabaritos e até nas falhas de leitura ótica da ficha de respostas.
Na cultura , o mais assustador é que, quando o assunto é nostalgia, as referências são quase sempre de períodos políticos conservadores: generais Médici e Geisel, Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso.
Nosso vintage musical é horroroso. A pieguice gosmenta de Michael Sullivan, a positividade tóxica do É O Tchan, a cafonice catártica de “Evidências” nas vozes de Chitãozinho e Xororó mostram o quanto nosso país virou um lamaçal do atraso retumbante e até piorado em muitos aspectos.
Como, por exemplo, jogar comida fora, motivo de orgulho para a burguesia enrustida metida a ser “gente como a gente”. A permanência dos grotescos parquiletes (parklets), currais humanos que a propaganda enganosa vende como “praças públicas”, ao serem instaladas em plenas ruas, se tornam um acinte à mobilidade urbana.
Mas até o desconfiômetro reduziu. Pessoas estão adorando marcas de café ruins, que não passam de miaturas de cevada, pó-de-serra, alpiste, farinha de todo tipo e até restos de baratas que, de café mesmo, só tem pouco. E se as esquerdas passaram a adorar ver deputados federais ganhando milhões de reais para votar com Lula, a situação é de fazer até mudo sair correndo pelas ruas gritando por socorro. Principalmente se observarmos que os brasileiros eram mais questionadores e desconfiados há 50 anos, em detrimento da complacência fácil de hoje em dia.
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