A "FELICIDADE" DA MÚSICA BREGA.
Fomos tapeados pelo discurso apelativo da intelectualidade pró-brega e seu suposto combate ao preconceito. Tanta persuasão travestida em repirtagens, artigos, documentários e até monografias, com apelos que variavam do coitadismo à arrogância, que muita gente boa caiu na retórica desses ideólogos do popularesco, que se não fossem os esforços esclarecedores do Mingau de Aço, meu antigo blogue que era um “patinho feio” da mídia alternativa, a campanha pró-brega teria sido uma unanimidade até hoje.
O que esses intelectuais festivos não disseram nem quiseram que vocês soubessem é que a música brega é uma espécie de analgésico cultural, um anestesiante cujo efeito inicial é a catarse, que depois produz uma sensação de contentamento com a inferioridade social do povo pobre.
Ontem estive no ônibus da linha 9300-10 para o Terminal Bandeira e algumas pessoas ouviam música brega antiga, arrocha e o som de Zezé di Camargo & Luciano como se estivessem felizes da vida. Só que essa “felicidade” é uma grande ilusão e uma verdadeira conformação com a condição de pobreza que a elite do bom atraso e essa intelectualidade orgânica acima citada, de maneira sutilmente perversa, converteu de um problema social para uma identidade sociocultural.
Sim. Isso mesmo. Pobreza não é mais vista como problema, mas como identidade, conforme o discurso desta intelectualidade “sem preconceitos”, mas muito preconceituosa. E a bregalização cultural foi um instrumento para anestesiar o povo pobre e arrancar deles seu pouco dinheiro para o enriquecimento exorbitante dos empresários de cerveja.
Valor cultural é uma desculpa fajuta usada pela nossa intelligentzia para forçar a aceitação dessa verdadeira degradação cultural, de cantores desengonçados ou afetados e suas músicas medíocres de lamentos resignados que nada tem a ver com música de protesto.
Pensando ao longo do tempo, vejo que a música brega propriamente dita é um anestesiante que produz uma série de efeitos:
1) A canção brega é apreciada como um desabafo passivo, um lamento relacionado a alguma decepção de âmbito social, principalmente a amorosa;
2) Esse lamento cria uma sensação de conformidade com a triste situação, causando um sentimento de resignação que faz com que esse lamento, do contrário que alardeiam os intelectuais pró-brega, não se encoraje a ser combativo;
3) A resignação se transforma em contentamento, na medida em que a pessoa passa a gostar da música brega-popularesca e, dessa forma, medir sua “felicidade” através do consumo desta música, principalmente quanto toma cerveja ou qualquer outra bebida alcoólica mais barata.
Essa análise minha derruba de vez a tese de que a música cafona seria a “verdadeira canção de protesto” do Brasil. A canção brega, até pela sua estética musical e sociocultural, tem mais a ver com a defesa da ideia de que o pobre deveria permanecer na sua situação social inferior e buscar afirmação através desta situação cruelmente precária.
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