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OLIVER STONE CELEBRA O PASSADO


O que dói no coração é ver a exploração de um mito que não existe mais, mas que teima em fingir que continua existindo. Esse é o tom que muitos admiradores de Lula mantém e que reflete no exterior, como é o caso do aclamado documentário Lula, do cineasta estadunidense Oliver Stone.

Eu admirei Lula até 2020. Seus dois primeiros mandatos eu considero bons e promissores. Eu fui incentivado, em 2003, pelo exemplo de Lula a ler mais livros. Me comovi com a prisão dele imposta pela Operação Lava Jato e ouvi vários vídeos das entrevistas dele dadas na prisão.

No entanto, sou forçado a admitir, pelos fatos, que Lula voltou estranho. Suas concessões à direita se tornaram mais acentuadas, seu clima de euforia e festa no contexto da reconstrução do Brasil é algo que me decepcionou profundamente e Lula hoje deitou na cama após a fama, sendo mais um popstar político do que um gestor. Vendo o atual mandato de Lula, ele mais parece um cruzamento de FHC com Sarney, acrescido dos programas de grife como Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida etc.

É uma série de estranhezas, para começar a pressa dos lulistas em comemorar primeiro e agir depois na reconstrução do país. E há o apoio estranho da direita moderada ao atual governo Lula, algo comparável a acreditar que raposas possam ser aliadas de um galo de briga, que pelo jeito deixou de brigar.

O documentário de Oliver Stone explora o passado de Lula. Na ironia da estrela ser o símbolo do PT, lembremos que, muitas vezes a estrela que vemos no céu pode ser uma projeção do que não existe mais, pois a estrela pode ter sido extinta, a anos-luz de nossos olhos.

No documentário, Lula é ainda o líder sindical que se tornou um político de centro-esquerda com grande vocação progressista. São hoje ideias que, por mais que se sustentem como ainda presentes e fortes nos corações dos lulistas, são hoje distantes da realidade.

O líder sindical de antigamente não existe mais. Já o gestor progressista foi reduzido a um arremedo, alimentado pela propaganda pessoal de um presidente que hoje faz pouco pelo Brasil e faz demais para si mesmo.

Vendo hoje a realidade, nota-se que as mudanças foram menos significativas do que os lulistas tanto celebram. E se Lula nunca rompeu com o velho sistema de valores vigente desde a ditadura militar - como os “brinquedos culturais” da direita moderada (“médiuns”, funqueiros, ídolos cafonas, futebolistas ricos, mulheres-objetos) - , antes o presidente o fazia por falta de enfrentamento. 

Hoje Lula faz como zelo, mantendo esse velho sistema de valores e protegendo o “mundo da direita” como se ele pudesse ser vinculado às esquerdas médias que hoje dominam as narrativas nas redes sociais e nos espaços de visibilidade da chamada opinião pública.

O documentário de Oliver Stone mostra a dependência de Lula pelo seu próprio mito. Lula precisa ser visto como o herói sindicalista, o governante esquerdista e o grande líder gestor revolucionário, mesmo quando seus dois primeiros mandatos tenham sido bons, ainda que não excepcionais, e o atual mandato se revela medíocre, apesar de toda propaganda engrandecedora.

Lula fala tanto em “sonhar grande” que faz com que seus seguidores sigam esse sonho como se ele se impusesse à realidade. Tudo é festa e magia para essa classe de abastados e privilegiados que detém a supremacia das narrativas nos canais de trânsito da chamada opinião pública. 

O problema é que, fora da bolha lulista, a pobreza cresce, com salários precários, preços caros e gente endividada pedindo ajuda. Para o Brasil que não aparece no “espetáculo do crescimento” de Lula, obras como o documentário de Oliver Stone não tem a menor serventia. Não dá para sonhar grande com o barulho da barriga roncando e dos gritos de cobrança dos credores.

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