"É um mundo maravilhoso.../ Para você, não para mim". Dialogando com versos de "Shiny Happy People", do R.E.M., como "Não há tempo para chorar.../ Feliz, feliz...", podem ser mencionadas nesse contexto de felicidade tóxica que o Brasil vive hoje, quando as pessoas privilegiadas mas fantasiadas de "gente simples" consomem suas emoções baratas feito animais famintos.
Nas redes sociais ou mesmo na mídia lulista, as pessoas alegam que o Brasil vive o melhor de todos os momentos de toda sua história. Aliás, no momento em que digito este parágrafo, toca lá fora a música "ouvi Dizer", do Melim, do refrão "Ouvi dizer / Que existe paraíso na Terra". Melim é um dos nomes da MPB carneirinha bem à altura desse momento em que se vive no nosso país.
Perguntamos então de onde vem essa suposta constatação, narrada com muito entusiasmo na Internet, de que o Brasil vive o melhor de todos os momentos de toda a sua História. Vem exatamente do povo, da gente simples, do proletariado, do campesinato, dos sem-teto?
A resposta é curta e grossa: NÃO.
Um quadro de degradação cultural e de profunda crise sociocultural, mais um sistema de valores tão velho que fede a mofo tóxico e dá a impressão de nunca sairmos da Era Geisel, mostra que essa declaração de que o Brasil virou um paraíso na Terra não parte do povo em geral, mas de uma elite restrita que domina as narrativas nos espaços em que se transita a chamada opinião pública.
Quem acha que o Brasil vive o melhor de todos os momentos é quem está bem de vida e, cheio de dinheiro nos bolsos, nas bolsas e nos bancos, mas monopoliza as narrativas na Internet de tal forma que pensamos que essa elite é o povo.
A verdade é que nunca na História do nosso país a burguesia brasileira conquistou protagonismo e plenitude de privilégios sob um cenário de paz institucional e política. A Casa Grande de hoje está livre das revoltas dos Malês do passado, das insurreições diversas, das greves dos trabalhadores, das invasões de sem-terra, e até os estudantes não estão mais com vontade de protestar nas ruas.
Agora as forças mobilizadoras do passado estão tão fora de ação, de tão domesticadas ou sem espaços de expressão, que até o neoliberal enrustido se atreve a se dizer "de esquerda" e se proclamar "mais povo que o povo". Como se o direito de opinião fosse uma questão de ter maior poder aquisitivo.
Enquanto isso, fora da bolha lulista, as pessoas sofrem com os velhos problemas de sempre, que não foram resolvidos por um Lula hoje mais preocupado em ser a mascote da alta sociedade. Mas as redes sociais não vão lhe dizer que Lula virou pelego. A burguesia beneficiada pelo presidente brasileiro não quer que você saiba disso. Sem tempo para chorar, o momento é ter felicidade tóxica, mesmo sob o barulho das barrigas roncando.
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