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NOS ANOS 90, PROGRAMAÇÃO DAS "RÁDIOS ROCK" PARECIA MATINÊ


O que mais me revoltou nos anos 1990, quando ouvi as "rádios rock" de então, é a linguagem pop de suas programações diárias, limitadas a tocar os mesmos hits de sempre com locutores "engraçadinhos" falando em cima das músicas. Tínhamos que ter sangue frio, eu e pessoas com posturas semelhantes, para não cometermos a injustiça de jogarmos nossos aparelhos de rádio, que não têm culpa de irradiar tamanhas sandices, pela janela.

Eu tinha 11 quando, morando num apartamento da Rua São João, em Niterói, em 1982, um vizinho que tocava guitarra estava sintonizado na Rádio Fluminense FM. Pude conhecer, mesmo criancinha e muito "careta" para curtir rock, bandas como XTC, Gentle Giant, King Crimson, Thin Lizzy e outras, sem falar de grupos consagrados como Led Zeppelin, Who e Deep Purple, por exemplo. E ouvia locutores sóbrios, informais sem sucumbir à linguagem afetada das rádios pop.

Mas aí, em 1990, uma matéria do programa Matéria Prima de Serginho Groisman, na TV Cultura, mostrou a programação da 89 FM, a "rádio rock" da Faria Lima, e um dos locutores mostrados falava justamente naquele estilo enjoado dos radialistas pop que pareciam falar para donas de casa. No mesmo ano, uma prima me informou que havia uma "rádio rock" em Salvador e, ao descobrir que se tratava da 96 FM, fui conferir e vi que a programação era um desastre, pouca coisa se salvava, como o programa de Luiz Cláudio Garrido, jornalista que era uma espécie de cosplei baiano do Luiz Antônio Mello).

Na verdade, as ditas "rádios rock" dos anos 1990 só "funcionavam" à noite. Esse papo de "programação 24 horas de puro rock'n'roll" era conversa furada, pois a "programação rock", mesmo, tendia a ser transmitida entre as 22 horas e meia-noite. Fora isso, havia as madrugadas que eram meio qualquer nota, mas havia uma relativa liberdade de tocar algo mais do que os "sucessos do momento".

A mídia costumava elogiar ou passar pano nessas "rádios rock" - até pouco tempo atrás, Maurício Valladares, que chegou a brigar com Alex Mariano, foi passar pano em Demmy Morales, daquela turma de radialistas que se dividiu entre derrubar a Fluminense FM e a trajetória pop da Rádio Cidade, há 30 anos - porque só sintonizava essas rádios nessa faixa de horário, até porque trabalhavam no período diurno para conhecer o lado "Jovem Pan com guitarras" (conceito baseado no fenômeno Jovem Pan dos anos 1990) dessas emissoras.

É claro que também havia muito solipsismo. Era aquele programa do colega jornalista ou daquele músico conceituado que era transmitido no fim de noite na rádio comercial "de rock", e por isso havia elogios exagerados a respeito.

Além disso, havia também uma intenção oculta de querer uma fatia na "grade noturna" que as rádios comerciais "roqueiras" ofereciam para programas de especialistas. A Internacional Magazine, de Marcelo Fróes, não iria chamar a programação "roqueira" da Rádio Cidade de "bem intencionada" por causa do corpo sarado do Rhoodes Dantas, não é mesmo?

A programação normal parecia matinê infantil. Locutores sem especialização em rock que estavam mais preocupados em sortear ingressos e prêmios, anunciavam o que se podia tocar de sucessos de rock como se fossem hits de dance music. Era horrível. E ver que os adolescentes teriam que esperar anos para ver as "rádios rock" se evoluírem parecia uma eternidade. Nem se o tempo passasse e os adolescentes virarem adultos pais de adolescentes isso iria acontecer.

Era constrangedor locutores mauricinhos olhando que nem tarados para ouvintes e músicos dando sugestões, e ver que nada se resolvia quando esses locutores, mesmo com o padrão de voz parecido com o de Emílio Surita, Celso Portiolli e companhia, se concentravam em textos "sérios" sobre notícias do rock, isso ficava ainda mais vergonhoso. Afinal, esses locutores liam e até pronunciavam bem os textos, mas tudo isso sem conhecimento de causa.

E aí vemos que, com a passagem do tempo, o radialismo rock decaiu porque a maior parte do dia era reservada para um perfil mais próximo do radialismo pop convencional. E o mais irônico é que eu tinha 11 anos e entendia a linguagem da Fluminense FM de 1982 direitinho. Dá pena ver gente mais velha do que eu (até mais velha do que meus 53 anos atuais) passando pano em locutor "engraçadinho" anunciando bandas de rock. 

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