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LULA, O PÉSSIMO ESTRATEGISTA

 
Imagine que a casa de alguém está pegando fogo e seu proprietário, em vez de cuidar dela, decide pegar um ônibus para resolver uma briga de dois vizinhos. É o que ocorre com o Brasil, quando Lula, desafiando até mesmo as limitações de sua saúde, sobrecarrega sua agenda com viagens distantes, na esperança de se projetar como o grande herói planetário, no caso do conflito entre Rússia e Ucrânia.

O Brasil tem uma projeção de inflação aumentando 0,76% ao mês, o dólar voltou a aumentar, de R$ 5,00 para R$ 5,20, e há a crise dos combustíveis, em que se cogita desonerar seus tributos, mas sem priorizar a redução dos preços. E medidas como o Bolsa Família estão em passos lentos, só agora atuando para cancelar 160 mil benefícios que haviam sido instituídos de maneira irregular. Esse cancelamento é necessário para redistribuir os recursos para quem realmente precisa.

Lula chorou nos comícios alegando que sua prioridade máxima era atender ao povo pobre e reconstruir o Brasil. Falava tanto em colocar o povo pobre no orçamento. Fazia dramalhão para falar de seu passado como operário. Atropelando as regras da democracia que o petista tanto exalta, demonizava a concorrência na campanha presidencial achando que só ele, Lula, era capaz de fazer o Brasil a voltar a ser uma nação justa e igualitária.

Tanto apelo para ser eleito numa bizarríssima campanha eleitoral - o que me fez desistir de votar em Lula, opção que havia considerado até 2020 - para que, assim que começou a governar, Lula ter se preocupado apenas em zelar por sua imagem e desmontar o bolsonarismo.

Em janeiro e no corrente mês de fevereiro, a três dias de se encerrar, Lula só priorizou a blindagem pessoal e a sua propaganda. Viajou para falar com autoridades em diversos países no exterior. Falou com Joe Biden, presidente dos EUA, e com autoridades latino-americanas. 

No momento, Lula se empenha em comandar um grupo de países neutros para resolver o conflito entre Rússia e Ucrânia de forma pacífica, apesar do próprio Lula ter orientado seu representante a votar com os EUA (que pedem solução conflituosa) no plenário da Organização das Nações Unidas (ONU).

Mas até agora não há um sinal de uma ação concreta para combater a fome, a miséria e o desemprego. Quando muito, apenas ações remediadoras, relacionadas às tragédias sofridas pelos índios Yanomami em Roraima e pelas vítimas do temporal no Litoral Norte de São Paulo - incluindo a comunidade Barra do Sahi, em São Sebastião - , recursos (incluindo a antecipação do Bolsa Família para março, no caso do litoral) para resolver os danos humanos diversos.

Não há uma ação concreta que seja divulgada para recuperar o emprego e o poder aquisitivo e reduzir os preços dos alimentos. O leite dificilmente fica abaixo de R$ 3,90. O feijão, em relação a R$ 6,50. Um arroz de uma boa marca, que permita cozinhar uma porção que renda nas refeições não consegue mais ir abaixo de R$ 5. Uma feira livre com razoável abastecimento de frutas, legumes e verduras para uma família com dez pessoas dificilmente custa menos de R$ 600. Ou R$ 450, na hora da xepa.

Cadê a prioridade do combate à fome? Cadê a urgência do motivo maior para a eleição de Lula? Foi Lula tomar posse e, dias depois, vai viajar? Em vez disso, Lula poderia ter ficado uns meses no seu gabinete, em Brasília, onde já existem tensões suficientes a desafiar sua saúde frágil. Mas, pelo menos, ele poderia descansar entre uma medida e outra para resolver a situação dos brasileiros pobres.

Lula é um péssimo estrategista. O pior é que ele age com arrogância, por causa de sua teimosia em primeiro agir e depois verificar as consequências. Lula indica não dar ouvidos a conselhos nem a críticas, e prefere a aventura dos seus impulsos, achando que só fará ações acertadas, sob a ilusão de que mesmo seus erros trariam resultados corretos.

Enquanto os brasileiros passam fome, Lula quer promover sua imagem de "herói pacificador" no exterior. E isso confirma a decepção que Lula causou de 2021 para cá, quando o petista preferiu cometer os erros que pensa ser atitudes acertadas.

Lula lembra muito o Super Presidente, aquele super-herói que os criadores da Pantera Cor-de-Rosa, os ex-desenhistas da Warner Bros. David DePatie e Friz Freleng, criaram em 1969 e se tornou um grande fracasso. Afinal, o petista fez um grosseiro erro estratégico, que indica uma quebra de promessa de campanha, quando prometeu que sua prioridade, sua primeira ação seria reconstruir o Brasil.

A situação é tão surreal que Lula nem começou a reconstruir o Brasil, apenas se limitando a propor ou debater ideias, e no entanto o nosso país, através de eventos como o Carnaval de Salvador - primeiro evento a receber verbas do Ministério da Cultura - , já entrou em festa, comemorando algo que ainda não começou mas que é visto como se já tivesse sido terminado. Ou seja, o Brasil não entrou em reconstrução mas se festejou como se a reconstrução tivesse sido concluída.

Mas há também outro dado surreal. Lula não demonstrou em um segundo sequer que está fazendo um governo de esquerda, mas a mídia progressista, aquela que outrora prometia o resgate do verdadeiro jornalismo, delira e, sem o menor fundamento, diz que o atual presidente da República está "mais esquerdista" do que nos dois mandatos anteriores.

Falam que Lula "desafia o mercado", "não se rende ao imperialismo", "está peitando as elites neoliberais", mas não há um fundamento em tais narrativas. Tudo isso é jogado de forma solta, como mal-disfarçadas especulações.

Lula, pela minha análise, dentro do meu cuidado de verificar os fatos e juntar as peças do quebra-cabeças, está fazendo um governo neoliberal. E está sendo um péssimo estrategista, porque primeiro quer se promover como um líder internacional, para depois cuidar do povo brasileiro. Isso é muito ruim, porque, se Lula falhar, o povo brasileiro se tornará uma grande força de oposição ao presidente, por ver sua atitude em jogar o combate à miséria em segundo plano como uma traição, como um abandono.

Por isso mesmo Lula vai terminar os dois meses do seu mandato cometendo erros sérios, não fosse o bastante a campanha cheia de erros que lhe deu um resultado apertado de vitória eleitoral. Além disso, mesmo que daqui em diante ele comece a pensar no povo pobre que alegava ser sua "prioridade", Lula demonstra não ter o fôlego de "garoto de 20 anos" para governar "40 anos em 4". A rastejante performance dos primeiros meses já indica que Lula fará um governo mediano, abaixo da expectativa.

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