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"BOA" SOCIEDADE SO DEFENDE O POVO POBRE PARA LACRAR NA INTERNET

MAX ÂNGELO, ENTREGADOR DE APLICATIVO, DEPÔS EM DELEGACIA NO RIO DE JANEIRO POR TER SIDO AGREDIDO PELA EX-JOGADORA DE VÔLEI SANDRA MATHIAS.

O Brasil não está bom. Critica-se as viagens de Lula ao exterior e o pessoal que consome Internet e redes sociais em larga escala não gosta. Para todo efeito, tudo "está bem" mesmo quando está mal e nossa "boa" sociedade é que "tem razão", "está certa" e "não há como discordar dela, conscientizada socialmente que ela é".

Pois o povo pobre, as classes trabalhadoras, sofre sem ter o amparo necessário. A prometida reconstrução do Brasil ainda não aconteceu e os profissionais de aplicativos vivem no seu sacrifício diário de arrumar uns poucos trocados entregando encomendas ou comida. Cadê a regulação em favor dos entregadores de aplicativos?

Há vários dias, num posto de espera de entregadores de aplicativos - eles não são ociosos, eles ficam usando o celular na espera de algum freguês fazendo um pedido de compra - , dois entregadores foram andar na calçada e a ex-jogadora de vôlei e hoje professora de um cursinho dessa modalidade, Sandra Mathias Correia de Sá, de 53 anos, agrediu os entregadores Max Ângelo e Viviane de Souza, sendo ele agredido com uma coleira que a agressora segurava.

Sandra também fez xingamentos fascistas e homofóbicos contra, respectivamente, Max e Viviane, que é lésbica. A grosseria virou caso de polícia e os envolvidos foram prestar depoimento. O caso é um dos vários que envolvem preconceitos sociais violentos estimulados pelos ventos golpistas pós-2016.

A "boa" sociedade, no fundo, não liga muito para esse caso. Não falo das exceções que possuem consciência social, mas essas exceções não fazem parte dessa "boa" elite, ate porque a solidariedade com os excluídos e oprimidos sociais é um passo para largar a elite do atraso que se recusa a ser assim chamada para não pagar a conta dos estragos de Oito de Janeiro.

Vemos que tem muita hipocrisia entre a chamada "boa" sociedade que vive de conforto mais do que significativo. São pessoas que nunca tiveram contato real com os pobres ou, se tiveram, é sob um certo incômodo, mesmo quando se tenta ser cordial com os excluídos sociais. 

A intelectualidade "sem preconceitos", mas terrivelmente preconceituosa, que defende a bregalização cultural (ver Esses Intelectuais Pertinentes...), reflete essa visão elitista da "boa" sociedade, que mesmo vivendo "do bom e do melhor", se acha "especialista em pobre", mas sua "consciência social" é apenas um artifício para se parecer "legal" e poder lacrar nas redes sociais.

Há muita hipocrisia. Esquerdistas com alma de direitista, gente que consome mídia venal (Globo, SBT, Record, Folha, Jovem Pan, Estadão) mas jura só assistir a canais de streaming, machistas que se dizem "feministas", elitistas que se acham "mais povo que o povo" e dizem "entender de povo pobre". É gente que usa as redes sociais para mentir visando conquistar mais gente adotando uma imagem pessoal "positiva" e completamente fora da realidade.

Para esse pessoal, é maravilhoso Lula viajar o tempo todo e acreditar que isso não atrapalha a reconstrução do Brasil. Ou será que os lulistas de carteirinha não estão agindo como bolsonaristas considerando que Lula é melhor "quando está fora do Brasil"? E há gente que não suporta ouvir ou ler críticas a Lula porque isso vai contra o mundo da fantasia que lhes é crucial para a lacração na Internet e para o cotidiano confortável de consumismo pleno e emoções baratas de suas vidas.

E os entregadores de aplicativos? Um bando de gente que não presta que só serve para entregar encomendas e comida, receber pagamento e cair fora? Não se considera que eles são seres humanos, que ganham pouco dinheiro, que sofrem com o trabalho precarizado, que têm que enfrentar o tédio da espera de um freguês, que têm que enfrentar o trânsito, os riscos de assaltos, os riscos de acidentes, tudo para entregar as encomendas e a comida embalada no horário prometido?

Fora do mundinho confortável da classe média abastada, esta que pouco importa se a reconstrução do Brasil ainda vai começar ou já se concluiu, existe um monte de vida, que não é de gente correndo atrás do trio elétrico, dançando o "funk", fazendo coreografias tolas no Tik Tok, criando memes nem soltando piadas sem graça que fazem a "nação Instagram" toda rir.

São vidas dramáticas, de favelados, analfabetos, portadores de limitações físicas, sem-teto, miseráveis da Cracolândia e outros que merecem atenção e socorro. Eles estão fora desse ambiente de otimismo tóxico nas redes sociais, são um Brasil que não cabe no Instagram. Max Ângelo e Viviane de Souza, do Rio de Janeiro, são apenas dois dos milhões de brasileiros que lutam para ter uma vida minimamente digna. Eles merecem respeito e não apenas um apoio falso para lacração nas redes sociais. 

O Brasil deles é outro, não é o de Lula ficar viajando para o exterior achando que, no nosso país, já está "tudo bem". A gente que é esclarecida sabe muito bem que não está bem no Brasil. O Brasil não é um perfil no Instagram. É um país pedindo socorro respirando fora das bolhas digitais.

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