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O CASO BEYONCÉ E A SOCIEDADE DO ESPETÁCULO À BRASILEIRA

 
A elite do bom atraso, a "frente ampla" que envolve desde a burguesia "civilizada" até a esquerda identitária, incluindo toda uma sociedade de "gente simples" a consumir muito dinheiro só com festas e diversão, se acha "dona da verdade". Não quer ser contrariada, afinal é só ela que tem muito dinheiro, consome bens culturais considerados "legais", pode ir com seu carro para qualquer lugar e tem passaporte para viajar para o exterior quando bem entender. 

E, pasmem, essa classe ainda se acha "pobrezinha" o suficiente para pedir ao presidente Lula verbas estatais para seus projetos "culturais", mesmo que esses projetos se limitem a "choppadas" de universidades em Salvador, feitas com parceria de grêmios estudantis com blocos de Carnaval baiano visando obter dinheiro. O dinheiro "privado" para as contas particulares da "boa" sociedade, o dinheiro estatal para bancar os custos da recreação respectiva.

Essa elite é invisível a olho nu, é pretensamente diversificada e tenta se impor como a "cara do Brasil", quando na verdade é a cara de uns poucos brasileiros que acham que a bregalização cultural é o máximo, que a religião está acima da Ciência e quem tem talento para trabalhar que dê murro em ponta de faca para arrumar um emprego, porque a luz do Sol brilha mais para quem é "bacana" e "divertido". Uma sociedade que discrimina solteirões caseiros, cientistas questionadores e artistas sofisticados, a "nata" dos que estão fora da festa identitarista do governo Lula 3.0.

Dito isso, eu comento aqui a repercussão negativa que o artigo que comentei ontem, do ator Pedro Cardoso, teve não só nas redes sociais, como também em setores influentes da chamada "opinião pública". Beyoncé é um dos totens sagrados que não podem receber um pingo de crítica, como não se pode dizer, por exemplo, que o "funk" gourmetiza a pobreza no Brasil e o É O Tchan é o símbolo máximo da felicidade tóxica que contamina a nossa sociedade.

Pedro Cardoso levou, erroneamente, o crédito de "racista", por vários internautas, que se esqueceram que o ator defendeu a Tracy Chapman, uma negra "mais negra" e sem o padrão estético glamouroso da sensual cantora de "Single Ladies".

Para piorar, um articulista do Brasil 247, Neggo Tom - que passou pano no "médium" picareta de Pedro Leopoldo e Uberaba ao atribuir, através de acusações descontextualizadas de racismo (se esquecendo que a negritude passou a ser valorizada a partir da Antropologia do Seculo XX), os males do Espiritismo brasileiro ao pedagogo francês Allan Kardec - também cometeu o equívoco de apelar para a meritocracia ao defender o "sucesso" de Beyoncé Knowles como se fosse a "vitória do povo negro".

Discretamente, Neggo Tom, ao corroborar com as acusações de "racismo" contra Pedro Cardoso, tentou creditar a cantora Tracy Chapman como uma "negra aceita pelos padrões da Casa Grande", mas a verdade é o extremo contrário, pois Tracy está fora da grande mídia, tem trabalhos recentes que nem as rádios de adulto contemporâneo se encorajam a tocar e, repetindo, a cantora folk não se enquadra nos padrões estéticos dos negros que "agradam" os brancos politicamente corretos.

Já a "diva" Beyoncé, no entanto, é uma negra que obteve sucesso se adaptando ao mundo branco. A "Queen B" adorada pelos identitários brasileiros pode até cantar sobre violência policial contra o povo negro estadunidense, uma barbaridade que ninguém em sã consciência pode aceitar. no entanto tem alguns pontos contra em sua trajetória.

Beyoncé é milionária e dona de uma das mansões mais caras de Los Angeles. É também empresária e acusada de empregar trabalho escravo para confecção de roupas de sua grife. Se diz feminista mas seu marido, o rapper Jay-Z (também rico e empresário), já foi acusado de violência sexual contra a própria esposa.

Neggo Tom se esquece que Tracy Chapman é, comparativamente, mais negra em aparência do que Beyoncé, que constantemente usa maquiagem e, nas fotos, iluminação para clarear a pele e tinge o cabelo de louro.  Qual das duas, afinal, é mais do agrado das elites da Casa Grande?

Neggo Tom ainda cobrou, de Pedro Cardoso e de Pitty, citada por articulista, que criticassem também a cantora Taylor Swift, por ser uma branca e loura. Mas creio que não houve contexto para isso, embora eu admito que Taylor é criticável, sim, por ter trocado o despretensioso folk do começo da carreira por um pop sem rumo marcado por muita coreografia e muito pleibeque.

Infelizmente, o identitarismo brasileiro, apenas uma parcela "humilde" da elite do bom atraso que quer mandar no mundo através do cenário brasileiro governado por Lula, não admite questionamentos. Aliás, me lembro da filósofa Marilena Chauí, que chegou a ser aluna nos últimos meses do ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros), em 1964, quando ainda se pensava e debatia sobre os rumos do Brasil, diferente, por exemplo, da exaltação hipócrita das favelas pela intelectualidade "bacana".

Chauí classifica a classe média brasileira (definida com base nas ideias de Jessé Souza) como "autoritária" e vejo o quanto as pessoas que navegam no espírito do tempo do Brasil de Lula 3.0 não aceitam senso crítico, textos realistas, questionamentos severos. A sociedade "esclarecida" e "legal" que prevalece no senso comum brasileiro tem sua raiz justamente nas elites escravocratas e golpistas das quais tenta se desvincular adotando uma postura "democrática" de "socialismo de butique e de boteco".

A propósito, na cultura musical brasileira, tivemos Elza Soares e ainda temos Alaíde Costa, duas grandes cantoras negras brasileiras e profundamente batalhadoras na música de qualidade, discriminadas pelas poucas rádios de MPB existentes no Brasil, que preferem tocar a geração carneirinha do pop brasileiro dos últimos tempos (tipo Anavitória, Tiago Iorc, Vitão e similares) e o brega gourmetizado de Michael Sullivan e Odair José do que mergulhar em pérolas esquecidas da nossa rica música brasileira.

Vivemos a "sociedade do espetáculo" enrustida. Ela é enrustida porque não temos intelectuais de renome. Nossos cursos de pós-graduação reprimem o pensamento crítico, preferindo acolher verdadeiros flanelinhas intelectuais, a passar pano nas fenomenologias existentes, pois o pensamento crítico, no Brasil, incomoda o interesse de um mercado oculto de financiamento de monografias. 

Se fossem brasileiros, Umberto Eco, Guy Debord, Jean Baudrillard, Paul Virilio etc mal conseguiriam uma suada graduação no curso universitário comum, de Bacharelado ou Licenciatura, e mal conseguiriam ter a oportunidade de fazer blogues ou publicar livros por conta própria que, infelizmente, repercutiriam de maneira medíocre pois o leitor médio não gosta de textos que "toquem em feridas", aqui a leitura de livros é um processo anestésico mesmo, feito a mil anos-luz de distância do Conhecimento e do Saber.

Por isso ninguém percebe a "sociedade do espetáculo" à brasileira, num Brasil ignorante e desinformado que acredita que o "funk", um subproduto do miami bass da Flórida anticastrista, teria surgido no Quilombo de Palmares. Enquanto pensam que a "sociedade do espetáculo" só existe nos castelos perdidos na Bavária, seu sentido contemporâneo é servido de graça, para todo mundo ver, no mundinho hedonista, consumista e festivo de subcelebridades e pseudoartistas noticiado por portais de entretenimento na Internet, na TV aberta e nas redes sociais.

Mas para que discutir com a "boa" burguesia que se acha "esclarecida" só porque ganha mais de oito salários mínimos na moleza? Quem está dentro da festa da "sociedade do espetáculo" à brasileira pensa que essa sociedade não existe, que é chilique de "preconceituosos" de plantão. Esta "sociedade do espetáculo" à brasileira é a "caverna de Platão" na qual seus ocupantes se acham o "universo inteiro" e quem criticar esse "mundo" não presta.

Trata-se dessa "frente ampla" da elite do bom atraso. Uma elite que, só ela, se acha "a mais legal do planeta". Uma elite autoritária enrustida, que odeia senso crítico, chegando a pedir para internautas evitassem criticar o governo Lula, para opinadores apagarem textos realistas - como um que disse que Pedro Cardoso "ainda tinha tempo para apagar seu texto".

Não posso, na segurança de uma residência modesta, onde é tabu passar as noites de sábado confinado, escrever textos realistas, enquanto lancho tomando leite e comendo biscoitos. O risco de cancelamento é muito grande. Em compensação, se eu estiver, nas noites de sábado, numa boate da moda, me entupindo de cerveja bebida em doses diluvianas, pegando uma mulher qualquer nota para "ficar" e passando pano nos absurdos da vida, eu seria considerado "a pessoa mais legal do mundo".

Nosso país anda complicado. Pedro Cardoso não foi racista, não foi ofensivo, eu li todo o texto dele e vi uma dose equilibrada de realismo, com questionamentos contundentes. O pessoal é que não entendeu direito, pois vive a euforia do hedonismo identitarista e festivo que o establishment hoje oferece num Brasil dominado por uma elite politicamente correta, que tenta ocultar seu passado escravocrata e golpista, e que endeusa astros como Beyoncé, a negra que se adequa aos padrões burgueses da sociedade branca e rica dos EUA que a "boa" sociedade brasileira tanto define como o "paraíso".


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