Você não pode ser realista no Brasil. Exercendo senso crítico para questionar o "estabelecido", há um risco de ser cancelado na Internet, de ser esnobado nas redes sociais, de ser considerado "chato" e viver um inferno astral por conta da falsa atribuição de rabugice.
Num momento de positividade tóxica, em que multidões consomem música popularesca ao ponto de plateias cantarem entusiasmadas uma porcaria de canção como "Evidências", da dupla canastrona Chitãozinho & Xororó - que eu e meu irmão tivemos que aturar, com calma e paciência, na festa do Reveillon da Avenida Paulista, há poucos dias - , a "sociedade do espetáculo" à brasileira, considerada "o cenário cultural mais legal do planeta", passou a reivindicar uma reputação de "verdade absoluta".
Não se podem criticar conjuntos vocais adolescentes, ídolos pop internacionais, ídolos popularescos. "Vacas sagradas" da música brasileira se tornaram nomes como Odair José, Michael Sullivan, Grupo Raça Negra, Grupo Molejo. É O Tchan virou símbolo do que há "de mais legal no planeta", esbanjando felicidade tóxica para um público que consome cerveja em dimensões diluvianas de domingo a domingo.
Com esse quadro infeliz, vemos o quanto representou a arrogância da elite do bom atraso no linchamento feito em Ciro Gomes na campanha presidencial. Ciro possui lá seus defeitos, mas uma demonstração de violenta intolerância por parte de lulistas o fez desistir da campanha eleitoral e, utilizando da Projeção Psicológica (síndrome na qual um agressor tenta se passar por vítima de quem é agredido), agrediu o político cearense que, ultimamente, andava menos pretensioso do que o espetaculoso Lula de hoje.
E essa arrogância se deu quando, recentemente, o ator Pedro Cardoso resolveu criticar a "diva" Beyoncé Knowles, fazendo uma comparação com a cantora folk Tracy Chapman. Cardoso diz "não gostar nem desgostar" de Beyoncé (que recentemente esteve em Salvador), também conhecida como "Queen B", mas atribui o sucesso dela à obsessão da "cultura do espetáculo" ao sexo. O ator fez um contraste entre a personalidade discreta e talentosa de Tracy com o apelo sexualizado da esposa de Jay-Z.
Pedro Cardoso escreveu um longo texto, inteiramente reproduzido no final desta postagem, falando sobre como as biografias dos chamados "famosos" quase nada falam sobre arte, preferindo falar de "namoros", "negócios", "treinos" e até "crimes", através das "intimidades inventadas" das supostas vidas pessoais das celebridades e subcelebridades.
Num país em que um Umberto Eco ou Jean Baudrillard nunca passariam em testes para Mestrado ou Doutorado nas faculdades brasileiras (inclusive as públicas!), verdadeiros terrenos para a flanelagem acadêmica, Cardoso foi esculhambado nas redes sociais por internautas tomados de pura arrogância, que não toleram que se critique um espirro da "genial" Beyoncé, que possui até uma excelente voz como cantora, mas musicalmente é medíocre e bastante irregular no seu fraco repertório musical.
Um sujeito "vomitou" o comentário de que o comentário de Cardoso é "a primeira besteira escrita em 2024". Este internauta que criticou o ator esbanjou arrogância e profundo complexo de superioridade nas suas convicções de sujeito ressentido em sua vida particular que necessita da catarse momentânea da "sociedade do espetáculo" que lhe faz recorrer à idolatria cega, ao mundo da fantasia do seu hedonismo frenético.
Outro "isentão" de plantão pediu para Pedro Cardoso apagar, usando de falso racismo como alegação, como se fosse proibido um sujeito branco falar de duas cantoras negras, e olhe que Tracy Chapman é uma negra fora de padrões estéticos, diferente da aparência sexy e atraente de Beyoncé. Pura arrogância de gente desesperada em blindar ídolos pop considerados "sagrados" e "absolutos".
Este internauta segue o rumo da elite do bom atraso, que transformou o Brasil num parque de diversões sob o sinal verde dado por Lula (ele mesmo querendo ser um popstar da política), onde a fantasia se impõe à realidade, as convicções se impõem aos fatos e o consumismo se impõe à dignidade, num contexto em que o hedonismo identitário, do qual nomes como Beyoncé Knowles e Michael Jackson são "símbolos mundiais", se impõe como uma doutrina totalitária no Brasil da "democracia de um homem só" (o presidente Lula).
Não observamos sinal de besteira alguma no texto de Pedro Cardoso, que reserva seu besteirol para suas obras humorísticas. Aqui ele procura ser equilibradamente realista, dizendo verdades contundentes, pois é preocupante ver que o mundo da fama se torna cada vez mais fútil e cada vez com gente menos talentosa.
Para cada um Carlinhos Lyra, um João Donato, uma Leny Andrade ou um Erasmo Carlos que morrem, surgem milhões de Pipokinhas, Luans e Léos Santanas, Cabelinhos, Brunos e Marrones a emporcalhar o já degradado showbiz brasileiro. No âmbito internacional, não podemos ouvir nomes como Laura Nyro e XTC porque as editoras musicais, que servem de "alfândega" para a música estrangeira que se permite ser ouvida no Brasil, não liberam coisas que acontecem fora do terreno limitado do hit-parade.
E olha que Pedro Cardoso falou de Tracy Chapman, um nome relativamente acessível, embora ela esteja limitada aos sucessos do primeiro LP, pois o nosso perverso hit-parade à brasileira, dominado pelos editores que controlam o playlist a ser apreciado pelo público médio brasileiro, não existe um acompanhamento sobre o que a cantora folk anda fazendo atualmente.
Reproduzimos, então, todo o texto de Pedro Cardoso, para o pessoal conferir:
"Bom ano. A mim, mais me toca a arte de Trace Chapman do que a de Beyonce. Seria gosto… Mas a minha questão aqui é a razão de a Beyonce ser mais consumida do que Trace. A mesma pergunta eu posso fazer para outros pares de artistas cujas as artes eu admiro mais do que a de outros, igualmente bons artistas, e mais consumidos do que os que prefiro. E desconfio que o maior sucesso comercial das “Beyonce” frente as “Chapman” se deve aquelas venderem, além de sua arte, também a sua vida pessoal. Cito a própria Tracy, no wikipedia: “Tenho uma vida pública, que é a do meu trabalho; e uma vida pessoal”. Hoje, há mais consumo de biografia espetacularizada de artistas do que de arte. Os jornais noticiam como fatos da cultura os namoros, os negócios, os treinos, os crimes etc e, principalmente, a vida sexual dos ditos “famosos”! Quase nada dizem sobre a arte deles! Mesmo porque, mais das vezes, pouca arte é produzida pelos artistas inventados pela indústria de biografias espetaculares; o que produzem é mesmo mais os escândalos de suas intimidades inventadas. Não gosto nem desgosto especialmente de Beyonce mas da vida pessoal de Tracy eu nada sei; da de Beyonce, sem que eu procure, chegam-me mil fofocas. Para fazer o sucesso comercial tal qual o de Beyonce é preciso um empenho de promoção tão milionário qto os milhões que se quer ganhar. A arte não se presta ao comércio tanto quanto bem mais se presta a vida sexual dos artistas. Sexo vende-se mais facilmente que poesia. Mas a demanda por fofoca sexual, há. Mas, além de haver, é, e muito, estimulada a ser insaciável. Quem muito vive a vida dos outros, busca distrair-se da sua, eu acho; e me parece natural. Problema para mim é se fazer um comercio ganancioso que não apenas atende a uma demanda psicológica natural mas a super excita artificialmente fabricando contos de fadas sexuais exuberantes de famosos. E nisso, a arte se torna um adorno secundário da vida pessoal dos artistas. A indústria que vende biografias íntimas de artistas é tão rica hoje que ela mesma produz os artistas sem arte que explora. E os artistas autênticos, e suas artes, circulam menos pelo planeta. Sem vender a vida, “Beyonces” não venderiam tanto".
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