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POR QUE A CULTURA ROCK NO BRASIL IGNORA O XTC?

FORMAÇÃO DO XTC EM 1978: DA ESQUERDA, ANDY PARTRIDGE, COLIN MOULDING, TERRY CHAMBERS E BARRY ANDREWS.

Tem vezes que não dá para esconder que o Brasil é uma grande província.

Ainda mais desde que, em maio de 2016, uma parcela influente e teimosa da população queria retroceder o calendário para, pelo menos, 1974, na melhor de todas as hipóteses.

Porque, na pior delas, o calendário se retarda a antes da Inconfidência Mineira.

Se temos a dita cultura popular brasileira em estado deplorável - os clamores do "combate ao preconceito" tentaram, em vão, abafar essa "cultura" que trata o povo de forma caricatural - , a assimilação da cultura internacional também vai de mal a pior.

Nem vamos falar do chamado pop adulto que, à exceção da Antena 1, é de uma indigência abominável.

Mais parece uma subserviência ao hit-parade dos EUA.

Vendo um comercial de detergente com uma versão de "Maniac", de Michael Sembello, fico imaginando o quanto é grave essa subserviência do público médio aos listões da Billboard, a ponto desta mais parecer uma "Biblioard".

Vamos nos ater na cultura rock, em que, só no Brasil, o Guns N'Roses é tratado como se fosse uma "divindade".

E isso com música tipo "I Used to Love Her" cuja letra é uma festa para os machistas mais reaças, desses à beira de um ataque de fúria.

E o pior que essa "cultura rock" das 89 FM da vida, que "formaram" a geração "coxinha" que louva Lobão e Roger Rocha Moreira, que reivindicam intervenção militar etc.

E que se tornaram aberrações do tipo "fãs de uma música só", como "Smoke on the Water" do Deep Purple e "Back in Black" do AC/DC.

Nos anos 80, havia espírito de garimpagem e ninguém ficava rezando novena com as páginas da Billboard.

E aí temos uma banda britânica, de uma cidade pouco conhecida, Swindon, chamada XTC.

O nome é um trocadilho com a palavra "êxtase" em inglês.

A banda está inativa há 11 anos e sua formação girava em torno de dois integrantes, os vocalistas Andy Partridge, guitarrista, e Colin Moulding, baixista.

O grupo é um daqueles que, depois do ocaso do punk rock, foi fazer um misto de new wave com art rock.

Gravou seu primeiro disco em 1977 e encerrou atividades em 2006.

No Brasil teve um monte de canções tocadas na Fluminense FM, mas como não temos mais rádios à sua altura, a única canção "tocável" é "The Ballad of Peter Pumpkinhead", de 1992.

Até um "lado B" (no sentido de faixa de compacto, mesmo) como a vibrante "Take This Town" foi jogada na programação da Fluminense, sem qualquer promessa de lançamento por aqui.

Se fosse uma Rádio Cidade da vida, nem se fizesse simpatia.

Tinha que esperar que "Take This Town" virasse tema de uma animação blockbuster da Pixar.

Nem o pegajoso "oh-ooh-oh-oh-ohoo-ohoo" e os assobios na música estimulam algum sucesso.

O único disco com alguma tiragem significativa lançado no Brasil foi Oranges and Lemons, de 1989, que eu havia adquirido em vinil naquele mesmo ano.

Foi o primeiro disco prensado no Brasil e, fora dele, só a coletânea Fossil Fuel, e, mesmo assim, em baixa tiragem.

Fico pasmo como grupos como XTC ou outros como Buzzcocks e Ride são praticamente desconhecidos no Brasil.

E o Renato Russo era fã do Ride, e praticamente acabaram juntos em 1996, a vida dele e a trajetória da banda inglesa que ele tanto adorava.

Se o público de rock brasileiro é tapado e ainda dá chilique quando alguém critica as bandas de poser metal, então o Brasil está perdido, mesmo.

Com roqueiros "coxinhas" fãs de uma música só por banda e apegados ao hit-parade, fica fácil até para reativar o regime de trabalho escravo no Brasil.

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