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ESTRANHO O CENÁRIO BRASILEIRO PARECER FÁCIL DEMAIS PARA OS LULISTAS


Não custa lembrar novamente que, na vida, as coisas não tendem a ocorrer de maneira rápida e fácil. Mas a teimosia da "boa" sociedade, o "clube de membros VIP" da "democracia de um homem só" de Lula 3.0, insiste em acreditar que é possível o Brasil progredir rápido demais, indo do inferno bolsonarista ao paraíso lulista sem escalas, num processo em que muitos acreditam garantir o ingresso do nosso país no clube das nações desenvolvidas.

Nunca fui um lulista de carteirinha, mas já apoiei Lula, até que a campanha presidencial de 2022, aliás, a pré-campanha, demonstrar um estranho clima de festa para um país em reconstrução. Será que as pessoas não percebem que a reconstrução requer uma frieza cirúrgica, não uma euforia, e que não dá para comemorar antes da hora nem em crer que as coisas fluem fáceis demais?

O recente aumento do Produto Interno Bruto (PIB) se deu porque a classe média abastada impulsionou o consumismo. Não foi o povo pobre da vida real, invisível na narrativa lulista, que somente contempla o "pobre de novela", aquele estereótipo "feliz" do pobre domesticado que desce sambando os morros das favelas.

As narrativas do lulismo estão monopolizadas nas mãos de uma elite que já foi abertamente golpista, reacionária, cujos ancestrais exterminaram índios e escravizavam negros. A elite que já foi definida como a do atraso hoje é "boazinha", se autoproclama "de esquerda" seis décadas após seus avós bradarem, desesperados, a deposição de João Goulart, nem que os EUA bombardeassem Brasília com seus aviões carregados de mísseis.

Os netos das elites golpistas, que repetem os privilégios do "milagre brasileiro" mas assimilaram o desbunde da geração hippie-brega pós-tropicalista dos tempos do general Ernesto Geisel, hoje acham que Karl Marx é uma espécie de Clóvis Bornay da política. Nunca leram uma vírgula da literatura marxista e se gabam em gostar do economista alemão, assim como dizem gostar de Frida Kahlo sem conhecer uma única obra da icônica artista plástica mxicana.

A sociedade infantilizada do lulismo atual, com jovens que parecem repetir os roteiros domesticados de Malhação, e idosos também contaminados de tanta ingenuidade, não permitem o debate real, o pensamento crítico, o questionamento. Estamos no clima do AI-SIMco, quando pessoas preferem rir, sem saber que nosso país não está tão próspero assim e, no âmbito cultural, está muito deteriorado.

É constrangedor ver que o governo Lula 3.0 mostra uma facilidade de contos de fadas em promover o suposto protagonismo das esquerdas num Brasil nem tão esquerdista assim, e em realizar o suposto desenvolvimento através dos recursos discursivos das canetadas, estatísticas, opiniões, propagandas, promessas etc. Tudo fácil, extremamente fácil.

Até o extremo-direitismo que chegou a ter um perigoso protagonismo anos atrás, parece ruir da noite para o dia. Jair Bolsonaro vive um inferno astral e, agora, Sérgio Moro sofre uma decadência, ameaçado de sofrer um processo na Justiça por causa de uma aparente gravação em que o ex-líder da Operação Lava Jato, de maneira jocosa, propunha "comprar habeas corpus" para o ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes.

Até parece que vivemos em contos de fadas. De repente, nosso país será oitava economia do mundo e temos que acreditar no sonho, na fantasia, sonhar grande demais ignorando o risco de levarmos um tombo após cairmos da "nuvem nove" do lulismo paz e amor da "democracia de um homem só", em que só Lula decide e o povo brasileiro é convidado a festejar, dançar, brincar e dar gargalhada.

Não se pode dizer que a coisa está fácil e rápida demais, levando em conta que Lula foi passear pelo mundo afora no primeiro ano de governo, adiando por meses até o "combate à fome" que fez o petista choramingar no palanque, suplicando votos para ele.

Não se pode dizer a verdade, não se pode questionar o processo rápido e fácil demais das supostas façanhas de Lula, enquanto, na vida real, há desde miseráveis maltrapilhos dormindo no chão e tentando, quase sempre em vão, vender doces para sobreviver, até pessoas antes relativamente prósperas que agora estão prestes a entrar nos bancos dos réus por causa da inadimplência crônica.

A coisa só está boa para o "clube de membros VIP" da "democracia" lulista. Monopolizando as narrativas, esse pessoal que se acha "mais povo que o povo" é que tem as desculpas na ponta da língua para dizer que suas convicções e fantasias valem mais do que qualquer verdade dolorosamente realista.

Em outras palavras, temos que engolir o clima de festa de uns "bacanas" que se acham "donos da verdade", que chegam a dizer coisas como "deixa o Brasil entrar no Primeiro Mundo de qualquer maneira e depois a gente conversa" e não aceitam visões críticas em relação a Lula.

A gente vê que, mesmo em relação aos mandatos anteriores, Lula apenas é uma sombra pálida do que fez entre 2003 e 2010, pois o que se nota hoje é uma promiscuidade entre o neoliberalismo enrustido e relativos benefícios pontuais para a população, que na prática só trazem mais vantagens para a relativa multidão que vai de pobres abastados que podem encher suas casas de aparelhos de TV aos famosos com contas em paraísos fiscais.

O confuso clima emocional do Brasil em reconstrução só faz sentido para quem vê as coisas de maneira fragmentada e aceita ouvir Lula dizendo uma coisa num momento e, depois, dizendo outra coisa em outra situação. Reconstruir o Brasil com clima de festa é um cenário estranho, que só empolga o "clube de membros VIP" do lulismo, um "povo" que já exclui solteirões, intelectuais verdadeiros, miseráveis, proletários, camponeses e outros que não participam da festa identitária dos "bacanas".

Para quem é excluído da festança lulista, até agora não se sabe se o Brasil já foi reconstruído ou se ainda começará a se reconstruir. O consolo é que o Brasil não vai ingressar no Primeiro Mundo por um motivo muito simples: o Primeiro Mundo não vai deixar.

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