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O RÉQUIEM POLÍTICO DO LULA PROGRESSISTA

 
Hoje Lula rompeu definitivamente com suas raízes de esquerda. 

Oficialmente, Lula virou "centro", eufemismo para uma centro-direita neoliberal que se diz desvinculada dos extremismos de gente como Jair Bolsonaro.

A cerimônia foi realizada num hotel na Zona Sul daqui de São Paulo, com o objetivo de lançar a chapa presidencial de Lula, tendo como candidato a vice-presidente Geraldo Alckmin, agora no PSB.

"É plenamente possível duas forças com projetos diferentes, mas com princípios iguais, se juntarem em um momento de necessidade do povo", disse Lula.

Nas redes sociais, ilustrada por uma foto com Lula e Alckmin apertando as mãos, o petista publicou a mensagem: "Nossa vontade é de reconstruir o Brasil. A partir de agora é companheiro Alckmin e companheiro Lula".

O "companheirismo" se estende também pela oferta de Geraldo Alckmin em ser, ele e sua Lu Alckmin, padrinhos de casamento de Lula e Rosângela da Silva, a Janja.

Tudo se torna lindo, na teoria. No mundo ideal, Lula apenas "adapta" suas raízes progressistas para um contexto de "amplo diálogo" até com as forças divergentes.

Também no mundo ideal, imagina-se que Lula, mesmo nesse diálogo, preservaria seu projeto político original, voltado prioritariamente para as classes trabalhadoras, com paradigmas de esquerda como o fortalecimento do Estado e a proteção aos direitos trabalhistas.

Mas no mundo real, Lula já demonstra que está cedendo e se rendendo, aos poucos, às forças divergentes com as quais propõe "diálogo aberto".

Lula, que não está sendo autocrítico nem estratégico, sinalizou que não irá romper com os retrocessos do golpe político de 2016.

Ele já trocou os verbos de duas medidas. Não irá revogar a reforma trabalhista de Michel Temer, mas "revê-la". E não vai romper o teto de gastos públicos, mas "mudá-lo".

Os apoiadores de Lula podem gastar saliva e palavras escritas para argumentar o impossível: de que Lula, mesmo aliado à centro-direita neoliberal, fará um governo "mais à esquerda" do que os dois anteriores.

Nem em sonhos. E Lula já começa a se render também quando ameniza sua intenção de "enfrentar o mercado" e cobrar dos empresários alguma posição em relação aos projetos sociais. Ele diz que vai falar com a "Faria Lima" para "questionar", mas depois suavizou a retórica dizendo que "também vai ouvir".

Há também uma ênfase estranha na "democracia", para justificação da aliança de forças tão divergentes, confundindo entendimento com cumplicidade.

É sempre a cultura da "união sem afinidade", uma falácia que, na vida amorosa, já fez muitos casais, em momentos de crise, serem dissolvidos pelo feminicídio.

Na teoria é fácil juntar, à força das circunstâncias e conveniências, pessoas divergentes. Na fantasia fácil da teoria, supõe-se que o entendimento é sempre certo e que as diferenças se resolverão sem dificuldade.

Mas na prática é que os problemas aparecem, mais complexos, difíceis e nem sempre resolvidos de maneira justa, igualitária ou benéfica.

Este é o grande medo do futuro governo Lula.

E aí Lula resolveu sepultar, de vez, o antigo líder operário que atuava há cerca de 50 anos.

Os últimos vestígios do Lula operário que existiram até 2020 desapareceram de vez. A antiga lucidez, manifesta nas entrevistas admiráveis de Lula na prisão, simplesmente foi extinta.

E acredita-se que é um caminho sem volta, por mais que os seguidores e admiradores de Lula ainda sonhem com o "Lulão dos sindicatos" ressurgindo de forma gigantesca no terceiro mandato presidencial.

O Lula que se configura não é mais o Lula de esquerda. Até chamá-lo de centro-esquerda seria uma demonstração de pura ingenuidade.

Envolto em histerias emocionais, sentimentos que fizeram muitos jornalistas da mídia progressista trocarem a antiga sensatez por um sentimentalismo infantil que beira à pieguice e à ingenuidade, o "Lulão dos sindicatos" é apenas uma fantasia que tenta se impor à realidade.

Na mídia progressista, as histerias emocionais fazem com que seus personagens, iludidos com a chance de serem "donos da História", abram mão da coerência ou mesmo da humildade.

Até humoristas apoiadores de Lula passam a serem tomados de cegueira hidrófoba contra os críticos. E continuam sonhando com o "Lulão dos sindicatos", acreditando que a "Faria Lima" se ajoelhou aos pés do petista.

A crença sentimentalista é a de que Lula se engrandeceu tanto que o "mercado" e as elites em geral se subordinaram a ele.

Tudo imaginação, fantasia, se perceber o que é a realidade, com Lula sendo visto pelo "mercado" como "mais do que moderado".

Por isso é que o empresariado "faz fila" para falar com Lula. É porque Lula é capaz de ceder ao mercado, às imposições neoliberais.

No jargão dos trabalhadores, Lula está agindo conforme o que se conhece como "pelego".

O pelego é aquele sindicalista que, indo negociar com os patrões, sob a promessa de atender às reivindicações dos empregados, acaba conquistando, para a classe, muito menos do que foi reivindicado, devido a vantagens por fora obtidas pelo patronato.

Infelizmente, Lula atua como um pelego. Diz não querer governar para o mercado, mas é isso que ele sinaliza.

Lula fala demais a respeito da "vontade de conversar", de "fazer diálogo aberto" etc. Mas, na prática, ele, que nunca é de fazer autocrítica, prefere ouvir mais quem lhe é divergente do que seus colegas do próprio Partido dos Trabalhadores.

No PT, figuras como Rui Falcão e José Genoíno, ex-presidentes da sigla, e Thomas Traumann, ex-assessor de Antônio Palocci, reclamam que Lula não está atendendo às reivindicações do próprio partido, de evitar se aliar com figuras ligadas ao golpe político de 2016.

Em vez de atender, Lula vem com essa, de que se não se aliasse com os golpistas de 2016, teria "apenas o apoio de 10% da população brasileira".

Como assim. Não é o Lulão fortão, invencível, que ganha todas, o único capaz de vencer a campanha presidencial, já que, em tese, Jair Bolsonaro e a Terceira Via estão "mortos"?

Diante destas e de tantas outras contradições, o lançamento da chapa Lula-Alckmin soa mais como um réquiem político do antigo líder sindical.

O Lula das lutas sindicais é apenas uma pálida lembrança do passado, cujos últimos vestígios foram extintos, para sempre, há dois anos.

Como esquerdista, como um autêntico progressista de esquerda, Lula morreu e a formalização da chapa com Geraldo Alckmin está mais para o funeral desse esquerdismo.

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