Pular para o conteúdo principal

A RESSACA DOS TEMPOS PÓS-IMPEACHMENT

ESSA RESSACA EM COPACABANA, RIO DE JANEIRO, FOI EM 2012 E AO PÉ DA LETRA. NO SENTIDO PSICOLÓGICO, A RESSACA QUE O RIO E O RESTO DO BRASIL VIVEM É OUTRA.

A sociedade conservadora é boa de festa, mas ruim de ressaca.

Depois da vitória do impeachment e da comemoração pela saída de Dilma Rousseff do poder, os conservadores passaram a digerir uma pesada ressaca.

Direitistas andam se desentendendo. O bolo do patrimonialismo não será dividido para todo mundo.

Muitos dos 342 deputados que votaram a favor da abertura do processo de impeachment e dos 61 senadores que votaram por sua conclusão, cairão no esquecimento e perderão o protagonismo.

Uma série de fatores políticos provocou a crise e a decadência do governo do presidente Michel Temer, praticamente isolado e governando às costas do povo.

É um contexto em que, pelo menos, dois "heróis" da direita militante tiveram encrencas sérias.

Meses atrás, Alexandre Frota, que chegou a apresentar um "projeto pedagógico" para um ministro de Temer, teve conta cancelada no Twitter por conta de seu radicalismo reacionário.

Mais recentemente, Janaína Paschoal, jurista que participou da elaboração do pedido de impeachment, foi reprovada num concurso para ser professora da USP.

Ela tentou disfarçar, dizendo que "ficou em último lugar" entre os aprovados.

Não queria repercutir mal, trocando a busca de protagonismo pela conquista de um "mico".

Ela não evitou, todavia, que surgissem piadas nas mídias sociais.

Uma delas, sobre Biologia, diz, sobre uma hipotética questão de prova que Janaína errou:

"Qual é a função do esqueleto? (Resposta atribuída a Janaína) Invadir o Castelo de Greyskull".

Esqueleto (no original, Skeletor) também é o nome do vilão do seriado de animação de He-Man, da produtora Filmation".

Apesar desses momentos hilários, o Brasil está tenso, desta vez com o país à deriva nos dois lados, esquerda e direita.

Um comentário de um general do Exército, atuando em cargo burocrático, trouxe preocupação não pela atitude em si, mas pela repercussão que isso pode causar depois em outras pessoas.

O general Antônio Hamilton Mourão, em ativa na carreira e secretário de Economia e Finanças do Exército, falou em "intervenção militar", algo que causa êxtase nos partidários de Jair Bolsonaro.

A declaração foi dada em uma loja macônica em Brasília, na última sexta-feira.

Mourão não tem relações de parentesco com outro Mourão golpista, o general mineiro Olímpio Mourão Filho, que consumou o golpe militar em Primeiro de Abril, em 1964.

Olímpio também redigiu o fictício "Plano Cohen", pretexto para o governo Vargas decretar o Estado Novo, em 1937.

Olímpio instalou a ditadura militar, mas perdeu o protagonismo e foi deixado de lado, ganhando o apelido de "vaca fardada", um trocadilho com "vaca de presépio", usada só como enfeite.

Mourão sugeriu que, se o Judiciário não resolver o problema da corrupção, seus "companheiros do Alto Comando do Exército" deveriam realizar uma intervenção militar.

Nem o governo Temer gostou da declaração, bastante extremista, do lado da direita.

O ministro da Defesa, Raul Jungmann, declarou ter convocado o comandante do Exército, o general Eduardo Villas Boas, a pedir explicações sobre as declarações de Antônio Mourão, considerado "general sem tropa".

Legalista, Villas Boas também não aprova a declaração do general, que pode até mesmo ser considerada quebra de hierarquia funcional dentro do generalato e incitação à desordem pública.

Villas Boas já exonerou Antônio Mourão do Comando Militar do Sul, em Porto Alegre, pelas declarações contra a presidenta Dilma Rousseff. A exoneração fez Mourão assumir a atual função, meramente administrativa.

A declaração de Mourão não tem efeitos concretos diretos, porque as Forças Armadas não estão interessadas em golpe e o Brasil não vive um clima explícito de Guerra Fria, tal como em 1964.

Mas o perigo é a causa ser adotada pelos bolsomitos e Jair Bolsonaro se tornar o guia dessa lamentável iniciativa.

A extrema-direita é uma ameaça real ao Brasil, apesar de ser pitoresca demais para muitos acreditarem ser politicamente vitoriosa nas urnas.

Mas Donald Trump era caricato e risível demais para ser eleito presidente dos EUA. Mas foi eleito e hoje está no poder.

Enquanto essa ameaça está cozinhando nas panelas antes usadas para abafar discursos de petistas transmitidos na televisão, Rodrigo Janot se despediu da Procuradoria-Geral da República.

Em seu lugar entrou Raquel Dodge, indicada por Temer mas cuja linha de atuação é um mistério.

Fala-se que Raquel irá investigar Janot, que irá trocar parte da equipe da Operação Lava Jato, que irá passar a limpo o ritual das delações premiadas.

Mas nada de concreto agora foi sequer anunciado.

Em tese, o Brasil da retomada ultraconservadora não parece ameaçado de intervenção militar, porque o golpe hoje é jurídico, com respaldo parlamentar e midiático.

Há um simulacro de democracia e legalidade que se compara ao simulacro que a ditadura militar armou entre 1964 e 1968.

A dissimulação é tão típica no Brasil que até uma religião espiritualista, tida como "honesta" e "acima de qualquer suspeita", pratica, e muito, e de maneira mais vergonhosa do que se imagina.

Afinal, ela é movida por "palestrantes", vários ditos "paranormais", que se dizem "iluminados" mas praticam caridade fajuta, enquanto excursionam pelo Brasil e pelo mundo em busca de medalhas e prêmios por suas oratórias que, de tão açucaradas palavras, soam diabéticas e enjoativas.

A dissimulação é um mal que faz com que retrógrados se passem por modernos e pessoas desobedeçam as leis sob pretextos que vão da "liberdade de expressão" a, pasmem, o próprio "respeito às leis" (sic).

Vide a reforma trabalhista, que violenta a Consolidação das Leis Trabalhistas sob a desculpa de "respeitá-la".

Graças a essa mania de dissimulação, as pessoas vivem em grande estado de conformismo social e com uma despreocupação que é extremamente preocupante.

Pessoas nas ruas, extremamente felizes, achando que vivem os seus melhores anos.

E isso se vê muito no Estado do Rio de Janeiro, cujo povo, salvo exceções, se comporta como bonecos de corda, pois, se não der um puxão, ninguém age.

O Rio de Janeiro, antecipando os retrocessos brasileiros desde, pelo menos, 2007,  é o Brasil levado às últimas consequências.

Isso se deu quando os cariocas passaram a ter urna podre, elegendo os fisiológicos do PMDB carioca e a família Bolsonaro para o Legislativo federal ou estadual.

Ou quando aceitaram bovinamente coisas deploráveis como "rádios rock" fajutas, ônibus com pintura padronizada, além de creditar o "funk" como uma pretensa vanguarda artístico-cultural (na prática, o "funk" é o extremo oposto disso).

Os cariocas acreditam que o paraíso já se constitui com o cenário praiano conhecido, o Sol dando um calor de 40 graus e a vitória de qualquer dos quatro times de futebol no Brasileirão.

Achar isso tudo é se contentar com pouco, um complexo de vira-lata carioca que antecipa o astral bovino do Brasil da Era Temer, uma festa reaça que já está dando numa ressaca que ainda trará muita dor de cabeça, vômitos e outros mal-estares.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

GOVERNO TEMER E A REVOLTA DOS UMBIGOS

A "revolta dos umbigos" que surgiu nas mídias sociais achou que tinha o poder pleno nas mãos.

Lutaram para ter Michel Temer no lugar de Dilma Rousseff para realizar uma agenda mais conservadora para o Brasil.

Essa agenda é um misto do programa eleitoral derrotado de Aécio Neves em 2014 com as "pautas-bombas" do então presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha.

Primeiro, os "revoltados" na Internet se escondiam nas mídias sociais, se limitavam a trolar assuntos culturais ou coisa próxima e fingiam serem progressistas.

Depois, deixaram a máscara cair e iniciaram uma campanha para derrubar Dilma Rousseff.

Conseguiram o que fizeram, pois faziam parte de uma "frente ampla" às avessas, que clamavam por retrocessos políticos sob a desculpa do "combate à corrupção".

Estavam junto dos empresários em geral e, em parte, os que controlam a grande mídia.

Foram animadores juvenis de uma campanha que ludibriou a sociedade inteira, que passou …

ESTUPRO COLETIVO DERRUBA MITO DA "LIBERDADE DO CORPO"

O vergonhoso caso do estupro coletivo desmascarou uma situação que a intelectualidade "bacana" sempre abafou com falso relativismo.

O mito da "liberdade do corpo" num país do combate ao assédio abusivo.

O terrível caso ocorreu num bairro popular, na região de Jacarepaguá.

33 homens afoitos cercando uma moça de 16 anos, dopando a menina, depois a estuprando sob o registro da câmera do celular e depois publicando na Internet.

Um episódio de pura truculência, mas condicionado pela ilusão de liberdade sexual que a intelectualidade "bacana", que apostava num Brasil brega, queria para as classes pobres.

Mesmo mulheres aparentemente ativistas, dentro dessa intelectualidade, davam dois pesos e duas medidas.

Elas reclamavam contra a imagem caricatural que as mulheres, de classe média, recebiam dos comerciais de TV.

Mas consentiam que a mesma imagem fosse impunemente abordada sob o rótulo do "popular".

Reclamavam quando a imagem da mulher de classe média…

A GAFE MUNDIAL DE GUILHERME FIÚZA

Há praticamente dez anos morreu Bussunda, um dos mais talentosos humoristas do país.

Mas seu biógrafo, Guilherme Fiúza, passou a atrair as gargalhadas que antes eram dadas ao falecido membro do Casseta & Planeta.

Fiúza é membro-fundador do Instituto Millenium, junto com Pedro Bial, Rodrigo Constantino, Gustavo Franco e companhia.

Gustavo Franco, com sua pinta de falso nerd (a turma do "cervejão-ão-ão" iria adorar), é uma espécie de "padrinho" de Guilherme Fiúza.

O valente Fiúza foi namorado da socialite Narcisa Tamborindeguy, que foi mulher de um empresário do grupo Gerdau, Caco Gerdau Johannpeter.

Não por acaso, o grupo Gerdau patrocina o Instituto Millenium.

Guilherme Fiúza escreveu um texto na sua coluna da revista Época em que lançou uma tese debiloide.

A de que o New York Times é um jornal patrocinado pelo PT.

Nossa, que imaginação possuem os reaças da nossa mídia, que põem seus cérebros a serviço de seus umbigos!

Imagine, um jornal bastante conhecido nos…

O CASO SURREAL DO MINISTRO DA EDUCAÇÃO DE JAIR BOLSONARO

Por breves momentos, o governo Jair Bolsonaro quase conseguiu minimizar sua tragicomédia de erros, a menos de dez semanas de se iniciar.

Cogitou-se a escolha de Mozart Neves, ligado a Vivianne Senna, irmã de Ayrton Senna e responsável pelo instituto com o nome do falecido corredor, que tinha um perfil mais técnico.

Por ser contrário a Escola Sem Partido, a trevosa proposta pedagógica a ser votada no Congresso Nacional na próxima quinta-feira, Mozart foi descartado.

E aí foi escolhido o colombiano naturalizado brasileiro, Ricardo Veléz Rodriguez, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, da cidade onde, ironicamente, o presidente eleito sofreu um atentado.

Isso porque ele é anti-marxista convicto, ultraconservador de carteirinha e que pretende proibir o debate sobre "ideologia de gênero" nas escolas em geral.

Dois dados surreais.

A exemplo do "diplomata" Ernesto Araújo, o lunático futuro ministro das Relações Exteriores que disse que o aquecimento global é…

A PROPAGANDA 'FUCKER & SUCKER' DA PETROLEIRA TOTAL

Há quatro anos, um comercial passava na televisão, pelo menos a Rede Globo, com uma dublagem tosca.

O comercial, em si, é sofisticado, mas é estrangeiro. Transmitido no Brasil, passou com uma dublagem tipo "Fucker & Sucker".

Para quem não sabe, "Fucker & Sucker" era um quadro do Casseta & Planeta que, tal como o Bruce Kane de Chico Anysio, tirava sarro com as dublagens que não conseguiam sincronizar as palavras da tradução brasileira com os movimentos labiais dos personagens dos vídeos originais.

O comercial é da petrolífera Total, então desconhecida dos brasileiros, e cuja sede é na França.

A peça publicitária seria uma tentativa de, no mundo inteiro - ela foi transmitida em vários países - melhorar a imagem institucional na companhia, abalada no mundo capitalista.

Via o comercial durante o desjejum enquanto meus pais viam o Bom Dia Brasil, noticiário matinal da Globo.

A Total tinha presença discreta no Brasil, mas hoje eu coloco esta postagem porque …

O GOVERNO BOLSONARO É UM CAMINHO SEM VOLTA?

Fiquei doente quando, da volta de uma caminhada, refleti com aflição diante da promessa de que o governo Jair Bolsonaro será um "longo reinado".

Foi vendo a primeira página do Jornal do Brasil impresso, nas bancas de Niterói, e vendo a chamada da coluna de Teresa Cruvinel.

Tossi, tive febre, fiquei de repouso, e ontem não pus postagem no blogue. Sério.

É uma aflição muito grande, porque o país ruma para tantos retrocessos.

Jair Bolsonaro é apenas o showman do espetáculo, mas conta com muitos articuladores.

O principal de seus três filhos políticos, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, tornou-se um articulador político ambicioso, a comandar o movimento Cúpula Conservadora.

Ela será o extremo oposto do Foro de São Paulo, que foi o movimento de nações progressistas latino-americanas que permitiu as experiências na Venezuela, Bolívia e Brasil.

Hoje há um desmonte em tudo isso, de um ritmo assustador.

A arrogância dos extremo-direitistas quer até que se sacrifique a realidade e…

SOLTEIRAS, NO BRASIL, SÃO INDUZIDAS PELO CORONELISMO MIDIÁTICO A OUVIR MÚSICAS DE VALOR DUVIDOSO

O gosto musical do "popular demais" não é livre. Ele é induzido pelo coronelismo midiático local, que determina o que o "povão" deverá ouvir.

É claro que não estamos aqui fazendo "teoria hipodérmica", tendência crítica da Teoria da Comunicação que via na manipulação do poder midiático algo simplório e bruto.

Teorias posteriores revelaram que existem mecanismos de persuasão do receptor de uma mensagem comunicativa, que envolve o conhecimento das fraquezas emotivas do público.

Neste momento de "lavagem de roupa suja" depois do ridículo "combate ao preconceito" brega que só gerou mais preconceitos - que culminaram na eleição de Jair Bolsonaro - , o coronelismo radiofônico deve ser discutido também sob o âmbito do "popular demais".

A "cultura" brega-popularesca que transformou o povo pobre em caricatura de si mesmo e promoveu mais consumismo que cidadania causou estragos diversos na população.

A intelectualidade "…

GÍRIA "BALADA" FOI TESTE PARA CAMPANHA DE JAIR BOLSONARO

TUTINHA, O VERDADEIRO REI DA "BALADA".

Como havia escrito, tive um incidente no Orkut por ter criticado a gíria "balada", por reacionários que eram membros da comunidade "Eu Odeio Acordar Cedo".

Esses caras anteciparam, em uma década, a ação furiosa dos bolsomínions de hoje. Fizeram valentonismo digital (cyberbullying) e tive que desfazer de minha conta.

Eu já notava um caráter agressivo, autoritário, debiloide e intransigente.

Entendo como essas pessoas, tão reacionárias, tinham que se apoiar numa gíria idiota - que tentou subverter as naturais condições de efemeridade e grupo de uma verdadeira gíria, se impondo "acima dos tempos e das tribos" - pois tinham que usar o aparato "moderno" de um colóquio.

A gíria "balada" virou um símbolo da mídia venal no seu processo de influenciar os jovens.

A gíria não tem pé nem cabeça. Subverte o sentido de outra "balada", aquela palavra que significa música lenta ou história tri…

O BRASIL NOS CINQUENTA ANOS DO AI-5

ATENTADO EM UMA IGREJA CATÓLICA DE CAMPINAS, QUE CAUSOU CINCO MORTES.

No dia em que se lembra dos 50 anos do AI-5, num contexto em que nos preparamos para encarar o governo ultraconservador de Jair Bolsonaro, incidentes graves vêm à tona.

O quinto ato institucional da ditadura militar a tornava mais rígida, levando adiante o cenário autoritário iniciado em 1964, só que de maneira mais agressiva.

E aí temos o "período 1964" redivivo em Temer e o "AI-5" de Bolsonaro, botando o país à deriva.

Alguns incidentes, então, vêm para trazer reflexão.

Um é a acusação do "médium" João Teixeira de Faria, o João de Deus, latifundiário e charlatão - se dizia curandeiro mas era incapaz de se auto-curar de um câncer - de ter feito assédio sexual contra várias mulheres.

As denúncias de assédio começaram no programa Conversa com Bial, da Rede Globo, uma pauta que surgiu por acaso.

A roteirista e jornalista Camila Appel foi para Abadiânia, Goiás, para convidar o "médium…

QUEM SERÁ O EDWARD MURROW BRASILEIRO?

Pesquisando sobre o macartismo, período relativamente trevoso que marcou os EUA na década de 1950, fico informado da figura do jornalista Edward Murrow.

Repórter correspondente da Segunda Guerra Mundial e âncora da rede CBS, Murrow foi um dos notáveis jornalistas estadunidenses da história contemporânea.

Me lembro do apelido jocoso que Paulo Henrique Amorim deu a Sérgio Moro, devido à sua servilidade aos EUA, de "Judge Murrow".

Só que o Murrow que descrevo é outro e atuou em trincheira oposta a políticas reacionárias.

Cito Edward Murrow porque vivemos, no Brasil, um período semelhante, embora mais agressivo e imprevisível, de macartismo.

Com sua vida breve de apenas 57 anos (morreu em 1965; deve ser por causa do cigarro, conforme vi em algumas fotos), Murrow teve seu momento mais destacado durante o macartismo.

Ele realizou várias reportagens e também comentários denunciando a violação dos direitos humanos que o macartismo provocava na sociedade estadunidense.

Por ironia, o…