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POR QUE OS BRASILEIROS TÊM MEDO DE SABER QUE FEMINICIDAS TAMBÉM MORREM?

ACREDITE SE QUISER, MAS ADULTOS ACREDITAM, POR SUPERSTIÇÃO, QUE FEMINICIDAS, AO MORREREM, "MIGRAM" PARA MANSÕES ABANDONADAS E SUPOSTAMENTE MAL-ASSOMBRADAS.

Um enorme tabu é notado na sociedade brasileira, ainda marcada por profundo atraso sociocultural e valores ultraconservadores que contaminam até uma boa parcela que se diz “moderna e progressista”. Trata-se do medo da sociedade saber que os feminicidas, homens que eliminam as vidas das mulheres por questão de gênero, também morrem e, muitas vezes, mais cedo do que se imagina. 

Só para se ter uma ideia, um homem em condições saudáveis e economicamente prósperas no Brasil tem uma expectativa de vida estimada para cerca de 76 anos. Se esse mesmo homem cometeu um feminicídio em algum momento na vida, essa expectativa cai para, em média, 57 anos de idade.

A mortalidade dos feminicidas, considerando aqueles que não cometeram suicídio, é uma das mais altas no Brasil. Muita gente não percebe porque os falecidos cometeram o crime muito antes, geralmente entre os anos 1970 e 2000. Estima-se que a maioria das mortes de homens que praticaram feminicídio se situa entre os 51 e 79 anos de idade.

A frequência de óbitos entre os feminicidas, por conta de seu comportamento tóxico, se compara ao de atores recorrentes ou, às vezes, de papéis de destaque em seriados de TV nos EUA. Por exemplo, em um mês morre um ator que participou em um seriado policial e, noutro, falece um que protagonizou uma sitcom, e no terceiro morre aquele ator recorrente de outro seriado televisivo. 

No caso dos feminicidas, num mês morre aos 69 anos um ex-advogado que matou a esposa há cerca de 25 anos e, no mês seguinte, entra em óbito, aos 62 anos, um homem que, quando universitário há 35 anos, havia assassinado a namorada durante uma discussão. E, no meio do caminho, morre também aquele ex-juiz de 70 anos que assassinou a esposa há 25 anos.

A combinação de personalidade tóxica e a repercussão social dos feminicidas os faz verdadeiras bombas-relógio de si mesmos. As pressões da sociedade, cada vez maiores, contra o feminicídio ainda podem piorar mais as coisas. 

As tragédias que os feminicidas causam a si mesmos trazem riscos que vão desde morrer em desastres automobilísticos até serem mortos por estranhos que, atraídos pela beleza das vítimas ao verem os noticiários da mídia, se revoltam contra os crimes. Até sofrerem um desmaio fatal em locais movimentados como o Largo da Carioca, no Rio de Janeiro, ou o Vale do Anhangabaú, em São Paulo, são riscos potenciais de feminicidas.

Houve casos de feminicidas que receberam ameaças de morte de familiares das vítimas. Nas redes sociais, os feminicidas recebem ameaças de morte constantemente nos fóruns de mensagens, já que o clima de ódio é comum nesses ambientes digitais. 

Daí terem sido fake news alegar, em 2015, que Doca Street, que matou Ângela Diniz em 1976, estaria “muito ativo nas redes sociais”, pois ele, aos 80 anos na época - ele faleceu em 2020 de infarto com indícios de ter sofrido também câncer e mal de Alzheimer - , não teria condições físicas nem psicológicas para enfrentar odiadores (haters) na Internet.

E se o temperamento irritado deles os faz tirarem as vidas de suas mulheres, em contrapartida os faz serem mortos em assaltos, com chances quase totais. Eles nem precisam reagir, o olhar duro já irrita o ladrão que, mesmo sendo um pé-de-chinelo, pode atirar contra o valentão por puro instinto. É fácil um homem sacar sua arma para atirar numa mulher, mas fazer o mesmo diante de um assaltante é inútil, porque este atira antes do feminicida tirar sua arma do bolso.

Feminicidas também sofrem doenças graves, como câncer, doenças cardiorrespiratórias e outras. Podem sofrer transtornos bipolares agravados pelo comportamento tóxico, num momento sentindo orgulho vingativo pelo crime cometido e, em outro, sofrendo um forte trauma por um ato maléfico que eles não podem reverter. Num dia, é a frieza tranquila pelo crime cometido. Noutro, o medo terrível de ser vítima de uma represália. Os feminicidas também envelhecem mais rápido que os homens comuns em condições de saúde física semelhantes.

Diante dessa realidade, por que existe uma cultura pela qual as pessoas têm medo de saber que algum feminicida morreu ou vai morrer - lembremos que o ex-jornalista Pimenta Neves, pela idade e doenças como câncer, hipertensão e diabetes, pode morrer a qualquer momento - , fazendo com que esses homens sejam considerados “proibidos” de encerrar a vida?

Existem vários fatores. Vivemos em uma sociedade patriarcal, o machismo estrutural é muito forte. Daí que, por motivos diferentes, feministas e machistas querem ver os feminicidas “fortes e saudáveis”, de preferência vivendo, pelo menos, até os 85 anos, ainda que “carregando doenças”. No caso das feministas, atribuir fragilidade a um feminicida daria impressão de sugerir vitimismo.

Existe também o moralismo religioso, tanto pelo punitivismo reacionário das seitas neopentecostais contra as mulheres, quanto pela misericórdia tóxica (complacente com os abusos e crimes de algozes) de religiões de inspiração doutrinária medieval, como o Espiritismo brasileiro. 

Tive conhecimento de romance “espírita” que tratava um feminicida como um “coitadinho”, quando eu seguia essa religião infeliz. Não me lembro do nome do livro nem do seu autor, mas vi a obra numa livraria de um "centro espírita" há mais de 30 anos. Uma verdadeira passagem de pano literária que, felizmente, não fez sucesso.

Mas um dos aspectos mais insólitos daqueles que sentem pavor de ver um feminicida morrer é a superstição pura e simples. A lenda de que um feminicida, ao morrer, iria morar com a vítima em qualquer casa que fosse abandonada, seja um casarão ou sobrado antigos.

Sim, são traumas infantis em mentes adultas, a ideia de haver casas mal-assombradas onde fantasmas do feminicida e de sua vítima viveriam não se sabe por que motivo. Algo aberrante, pois até crianças, hoje em dia, aceitam a ideia de outras crianças morrerem, como por câncer.

Ver que adultos se arrepiam e se revoltam quando feminicidas morrem é uma insensatez. A “surpresa” da morte de Doca Street, a “cautela” com que a mídia venal (machista?) noticiou o falecimento de Lindomar Castilho e o despreparo pelo vindouro óbito de Pimenta Neves, gravemente doente aos 89 anos, dizem muito. É sinal de que o velho patriarcalismo persiste em níveis surreais neste Brasil atrasado que ainda quer se achar um “país desenvolvido”.

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