COMO UM CRIME ELEITORAL PÔDE SERVIR DE INSPIRAÇÃO PARA UMA SUPOSTA CARIDADE TIDA COMO “INDISCUTÍVEL”
MERAMENTE PALIATIVA, A DOAÇÃO DE MANTIMENTOS NÃO RESOLVE ESTRUTURALMENTE A MISÉRIA NO BRASIL, SÓ SERVINDO PARA A PROMOÇÃO PESSOAL DE PRETENSOS CARIDOSOS.
A burguesia ilustrada e as pessoas que seguem sei embalo acreditaram muito no mito do “médium da peruca” como um pretenso símbolo de “amor e dedicação ao próximo”. Esse mito, plantado pela mídia hegemônica e apoiadora da ditadura militar, tornou-se uma narrativa unilateral devido ao AI-5, que, devido à censura, não permitia questionamentos. O "médium" foi um "João de Deus" que se deu bem e quase virou uma pretensa unanimidade, enganando uma maior variedade de segmentos sociais.
Colaborador de grandes fazendeiros do Triângulo Mineiro, tendo trabalhado como inspetor sanitário do gado bovino, o “médium da peruca”, aliado do coronelismo local, quando foi avisado de charlatanismo que, já no texto original do Código Penal de 1940, era considerado crime, teve que recorrer a um artifício para se livrar de punição, até porque, em 1944, virou réu no caso de Humberto de Campos e foi beneficiado por um juiz de baixa expressão no meio jurídico e entregue à impunidade.
Nos ambientes coronelistas, era comum a prática de distribuição de cestas básicas para eleger políticos defendidos pelo poder local. Como uma forma de agrado, candidatos dos proprietários de terras davam pacotes de cestas básicas, como meio de atrair o apoio dos miseráveis e fazê-los, através do voto, perpetuar o domínio coronelista na respectiva região.
Prática muito comum nas campanhas eleitorais do interior do Brasil, a concessão de cestas básicas é hoje considerado um crime eleitoral, por forçar o apoio do eleitorado através de uma prática abusiva, que coloca em vantagem ilícita o candidato do poder dominante.
Mas o “médium da peruca” viu nessa prática um outro apelo demagógico, o de promover um falso altruísmo, provocando a comoção fútil e vulgar - a chamada “masturbação pelos olhos”, ou seja, o ato de chorar como um divertimento leviano - das pessoas.
O ato constrange as classes mais pobres, que formavam longas filas para receber pacotes de mantimentos que se esgotaram em poucos dias. Essa suposta ajuda ao próximo não resolvia os problemas da miséria mas era defendido pela burguesia ilustrada como “indiscutível ato de amor ao próximo”, uma narrativa bem de acordo com o paternalismo hipócrita dessa classe. Qualquer semelhança com o moleiro do conto “O amigo dedicado” de Oscar Wilde não é mera coincidência.
A narrativa que atribui esse ato a uma pretensa solidariedade, infelizmente, prevaleceu e ganhou o status de “verdade absoluta” transformando o “médium da peruca” num pretenso “espírito de luz”, fazendo o mesmo ato que a Justiça Eleitoral de hoje considera um crime.
E para quem salta da cadeira irritado com as criticas a esse ato paliativo, devemos lembrar que, além desse filantropia não tirar os pobres de sua situação degradante, trata-se de uma ação que deixa os pobres em situação passiva, como reféns da própria miséria.
O ideal seria dar cursos profissionalizantes, empregos e um apoio social mais atuante. Mas,para um “médium” de ideias medievais e que defendeu que os oprimidos deveriam permanecer na desgraça em troca de “bençãos futuras”, progresso humano não era a sua causa.
E, cá para nós, trata-se de uma “caridade” que beneficia mais o suposto benfeitor do que os mais necessitados. Estes nem tem nome nem rosto e são tratados como bichos, a receber, por mês, uns poucos mantimentos que se esgotam rapidinho, considerando que as famílias pobres são geralmente muito numerosas.
Daí a vergonha de tanta briga na Internet para blindar um ídolo religioso em torno de uma suposta filantropia. Os pobres são só um detalhe, eles podem voltar a ter fome que a “boa” sociedade nem liga. O importante, para ela, é garantir o céu para o suposto benfeitor. Quanta hipocrisia.
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