O Vocabulário do Poder (Words of Power) de que falava o jornalista britânico Robert Fisk, no Brasil, não se aplica necessariamente ao noticiário político. Na cultura e no entretenimento estão as piores armadilhas culturais, fazendo com que até o distante caipira do Acre, desde que faça uso das redes sociais, fale a língua da Faria Lima.
As guerras culturais tem mais Tchan do que OTAN e até o portinglês remete a um viralatismo cultural nunca assumido. A Faria Lima não tem descanso na tarefa de manipular o inconsciente coletivo, através da grande mídia e das redes sociais, estas controladas pelas big techs, ao mesmo tempo que tenta nos fazer crer de que todo esse culturalismo flui como o ar que respiramos.
Sem percebermos o quanto esse “ar puro” vem dos escritórios empresariais do Itaim Bibi, muitos de nós pautamos gostos, hábitos, crenças e até linguagens como se fôssemos brinquedinhos das elites empresariais. Nada é verdadeiramente nosso, pois até comidas e bebidas parecem responder às exigências da Faria Lima, tanto que muita gente joga comida fora, pois o apetite falta a essas pessoas.
Programas de entretenimento da TV aberta e até de alguns canais da TV paga, mais os feeds do Tik Tok e do Instagram, conhecidos como reels, fazem as cabeças de muitos, inserindo nos corações e mentes uma forma bastarda de olhar o mundo, que parece natural porque nossos instintos são condicionados a isso, repetindo no cotidiano todos os papéis que a Faria Lima designa para o público brasileiro médio.
As pessoas viraram personagens de ficção. Tudo parece encenado, até gostar de açaí e de pistache diz muito pouco a seus sabores do que ao fato de que “todo mundo” está aderindo. Onde o gado vai, o boi vai atrás. A música popularesca, a cultura rock pasteurizada pela 89 FM, a supervalorização de Michael Jackson e de Guns N'Roses, o sucesso imposto pelos reality shows, principalmente o “obrigatório” Big Brother Brasil, tudo isso acaba transformando pessoas em zumbis festivos.
E isso envolve relações de poder, sim. Não é um fato inocente a dita “maior rádio rock do Brasil” ser controlada por um dos mais ricos e poderosos empresários de São Paulo, o chefão da Faria Lima João Camargo. Quanta ingenuidade achar que isso é coincidência ou que serve para “viabilizar economicamente” a cultura rock.
A Faria Lima lançou as gírias “balada” e “ galera” não porque estava querendo valorizar os modos de vida e os anseios das pessoas comuns. Há um propósito linguístico e ele nada tem de generoso e que serve para atingir finalidades de dominação e manipulação do inconsciente coletivo.
As duas gírias servem para garantir o lucro dos empresários de casas noturnas, boates, restaurantes e festivais de música, assim como os empresários e dirigentes de clubes de futebol. São gírias que se recusam a expressar o caráter temporário e grupal de uma gíria de verdade.
Surgida como um jargão privativo de jovens empresários da Zona Sul de São Paulo, nos anos 1990, para definir um rodízio de pílulas alucinógenas (as “balas”), a gíria “balada”, mesmo caducando, foi perpetuada pelo poder midiático e virou uma mercadoria, um pretenso ideal de vida marcado pela diversão noturna obsessiva. Patenteada por Luciano Huck e Tutinha (Jovem Pan), a gíria “balada” hoje é de propriedade de um grupo de publicitários.
A gíria “galera”, antes um jargão militar que se referia a uma parte de um navio e, depois, à sua tripulação, virou depois uma gíria do futebol, com estádios lembrando a estética de navios. “Galera” passou a ser sinônimo de torcida de futebol. Com o tempo, “galera” passou a se referir, de forma irresponsavelmente preguiçosa, ao coletivo de qualquer tipo de pessoa. Ficou até complicado, pois, por exemplo, em vez de dizer “família”, se fala em “galera lá de casa”.
E qual o objetivo dessas manobras “giriátricas”? Manifestar as vivências e anseios das pessoas mais simples? Seria terrivelmente ingênuo que se considerasse assim. O objetivo real é atender aos interesses de empresários, que se valem de certos termos coloquiais para manipular e dominar corações e mentes de pessoas desprevenidas.
“Balada” representa um produto, a vida noturna, com uma ideologia hedonista que inclui sexo, consumo de bebidas e frequência de boates e bares e, mais recentemente, o uso de redes sociais. Vários produtos estão envolvidos e exigem pagamento em dinheiro: ingresso em casas noturnas, gastos com bebida alcoólica e comida, gastos com celulares e Internet (inclui a aquisição de planos móveis) e compra de automóveis, para o processo de ir e vir.
Isso significa que há empresários interessados na perpetuação da gíria “balada”, devido a um aparente processo social que garante lucros exorbitantes. Ou seja, cada hábito requer o uso de uma mercadoria e isso garante o faturamento de cada envolvido na tal “balada”, do dono da boate até a matriz do fabricante do automóvel. Isso fora a indústria de cerveja, que mais fatura com o entretenimento das pessoas.
E a palavra “galera”? Seu uso “universal” permite que o futebol, que lançou essa gíria, atinja maiores públicos e, com isso, atraiam demanda para os estádios, fazendo com que os dirigentes esportivos, os chamados “cartolas”, obtenham mais lucros.
A associação subliminar da gíria “galera” e tudo que for coletivo de pessoas ao futebol faz com que o esporte reforce sua pretensa unanimidade e, diante dessa simbologia, atraia mais gente aos estádios ou então atrair mais assinantes para planos de TV que incluam canais de transmissão esportiva totais, como Premiere Esportes, ou eventuais, como Amazon e HBO Max.
Assim, vemos o quanto essas duas gírias, “balada” e “galera”, não representam o dia a dia comum de pessoas simples. Atribuir dessa forma é fazer propaganda enganosa, pois está na cara que são gírias que expressam os interesses empresariais estratégicos visando garantir o poder e os lucros da elite sediada na Faria Lima.
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