O endeusamento do “médium da peruca”, atitude bem caraterística do viralatismo cultural enrustido, reflete a baixeza sociocultural que envolve a classe média abastada. É uma pretensão de grandeza que, no entanto, demonstra o ressentimento de quem não pode se engrandecer de verdade e tenta compensar a falta de conteúdo pela aparência caprichada.
Um aspecto que chama atenção é que o “médium da peruca” nunca foi considerado originalmente um “símbolo de amor ao próximo”, mas somente um fenômeno sensacionalista, um pretenso paranormal que dizia “conversar com os mortos”. Um vaso apenas pitoresco, diga-se de passagem.
Somente a partir da ditadura militar, em que pese alguns ensaios regionais de falso altruísmo em Minas Gerais, que o obscurantista de Pedro Leopoldo e Uberaba passou a ser endeusado, com uma intensidade além da conta ao exercer a Síndrome de Estocolmo sobre setores sociais rejeitados pelo “médium”, como roqueiros, esquerdistas e ateus. E isso com o "médium" ter sido um protegido dos mais poderosos coronéis latifundiários do Triângulo Mineiro.
Desde quando era apenas um fenômeno de forte apelo sensacionalista, o “médium da peruca” era cultuado pela imprensa marrom, que fortaleceu seu mito desde que a mídia hegemônica, durante a ditadura, decidiu promovê-lo como “símbolo máximo de caridade humana”.
A inspiração foi um documentário inglês que o jornalista britânico, católico ultraconservador e colaborador da CIA, Malcolm Muggeridge, fez para endeusar a megera Madre Teresa de Calcutá. O filme foi lançado em 1969 e era intitulado Algo Bonito para Deus (Something Beautiful for God).
A partir desse filme, a Rede Globo, emissora que mais apoiou a ditadura militar, bolou um roteiro parecido para promover o “médium da peruca” e adaptou para o contexto brasileiro. O Globo Repórter resolveu reforçar a já em curso campanha de endeusamento do obscurantista - que ocorria a partir de 1971 através dos Diários Associados - e destacou as “cartas mediúnicas dos entes queridos”.
Essa onda de "cartas psicografadas" foi uma farsa lançada como cortina de fumaça para a crise da ditadura militar e um pretexto para aceitar as mortes violentas através da espetacularização das tragédias prematuras. Era como se o Espiritismo brasileiro dissesse que “era bom” morrer cedo.
A ideia, através desse fenômeno, é passar pano na repressão militar, dizendo que o “outro lado”, a “vida maior”, era “bem melhor” e, de discurso em discurso, o “médium da peruca “ tentava convencer os brasileiros de que os torturadores “fizeram um bem” em eliminar subversivos à ordem ditatorial, porque eles foram enviados para “um lugar melhor”. Uma baita bomba semiótica das mais explosivas, essa das “cartas psicografadas”!
E qual a mídia que mais difundiu essa onda toda? O jornalismo de primeira linha, mídia progressista, a imprensa udigrudi, a imprensa universitária? Nada disso. O que influiu nessa falsa santificação do “médium da peruca” foi a imprensa marrom, ou seja, a imprensa dedicada à cobertura sensacionalista, seja por meio do noticiário policialesco, seja a mídia fofoqueira.
Sim, trata-se do mais baixo nível de imprensa, aquele que não se compromete com a informação honesta e fidedigna, mas com a publicação eventual de mentiras ou de coberturas depreciativas que exploram a violência e degradam a dignidade humana.
Foi essa imprensa que promoveu a pretensa santidade e a falsa superioridade espiritual do “médium da peruca”, com coberturas que ultrapassaram os limites da pieguice mais cafona. Muita gente foi enganada com esta exploração fútil da emotividade humana, transformando o ato de chorar num divertimento barato, numa masturbação pelos olhos.
Eram “cartinhas mediúnicas” fake e supostamente consoladoras. Cartas que levavam os nomes de famosos falecidos, que transmitiam mensagens morais ou religiosas de um sentimentalismo brega e que fizeram promover a reputação falsamente superior do obscurantista de Pedro Leopoldo e Uberaba, cujas frases de moralismo retrógrado faziam jogos de palavras baratos - do tipo “o silêncio é a voz do sábio” - e que nada tinham da beleza alegada.
Nomes de famosos falecidos eram levianamente usados para promover mensagens religiosas que fediam a mofo tóxico de velhas catacumbas do século 12 da nossa era. Gente ingênua desperdiçou lágrimas à toa por conta dessas mensagens mórbidas e completamente inúteis.
Toda essa onda de “cartinhas mediúnicas” foi criada para tentar salvar a ditadura militar. As mensagens eram fake, pois a lógica diz que nenhum dos mortos escreveu uma vírgula sequer dessas mensagens. E o apelo era para as pessoas acreditarem que morrer cedo era o máximo, que quem sofria essa tragédia precoce virava anjinho no céu e que, portanto, não era “justo” falar mal da ditadura, cujos porões da tortura eram “oficinas de provações” que converti os torturados em “anjos felizes no além”.
E isso ocorria sem falar que essa onda fez os “médiuns” se acharem “donos dos mortos”, enquanto os falecidos são impedidos de falarem por si. Os mortos eram reduzidos a garotos-propagandas da fé "espírita", evocando os valores do velho Catolicismo da Idade Média resgatados sob a embalagem do "kardecismo", em prática que, no entanto, Allan Kardec reprovaria sem hesitar.
O “médium da peruca” havia dito, num programa de grande audiência da TV Tupi em 1971, que os militares, inclusive os torturadores, estavam produzindo um “reino de amor”. Se cairmos nessa narrativa, então esse “reino”, a tal “Pátria do Evangelho” do Brasil futuro, seria feita com o banho de sangue de milhares de inocentes, considerando que o Espiritismo brasileiro concorda com o machismo feminicida quanto à tese da “culpabilidade da vítima”.
A mídia sensacionalista cresceu muito com essa cobertura do “médium da peruca”. A mídia policialesca encontrou afinidades com o Espiritismo brasileiro quanto à espetacularização da tragédia humana. A mídia fofoqueira, por sua vez, se afinou pelo uso leviano de nomes famosos em mensagens de puro merchandising religioso. Hoje são esses setores que mais fazem sucesso entre o grande público, mesmo sendo o setor mais sórdido da nossa imprensa.
Enquanto isso, o bom jornalismo anda em baixa. Bons jornalistas perdem emprego. A mídia tendenciosa - como a Rádio Metrópole, em Salvador, protegida por um “médium” local que produz pinturas falsamente espirituais - , só explora o “jornalismo de verdade” para promover pessoalmente seus donos desonestos. E o jornalismo investigativo é uma atividade praticamente extinta, devido as relações de poder que fizeram até parte da mídia séria se subordinar a interesses financeiros.
Triste ver, nesse contexto, que a imprensa marrom foi premiada com essa "canonização" de um charlatão religioso. Isso é um retrato de um país como o Brasil, que deveria rever seus valores antes de cogitar ser um país desenvolvido, desejo impossível de ser realizado. Com o Catolicismo medieval redivivo que é o Espiritismo brasileiro, não há como o Brasil querer conduzir a humanidade planetária.
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