Nas últimas décadas, dois anos se destacam no Brasil como extremamente ruins para a manifestação do saber autêntico e da busca pelo verdadeiro conhecimento e pela visão crítica da realidade: 2015 e 2023.
Em 2015, o mercado literário viveu sua pior fase, com livros e pretensos fenômenos literários marcados pela alienação cultural e pela mal disfarçada fuga do saber. As pessoas nem esconderam isso, buscando a leitura de livros para “relaxar” e “divertir”.
E aí vieram fenômenos aberrantes como os livros de youtubers, provavelmente escritos por algum ghost writer. Romances com estudantes vampiros, cachorros com nomes de músicos, com cavaleiros medievais em crise existencial e até plágios misturados de seriados de streaming. Você misturava Bridgerton com Walking Dead e ganhava uns 15 minutos de fama vendendo umas milhares de cópias.
E junto a esses livros, tínhamos as auto-ajudas de sempre. Ainda não tínhamos livros “sobre Administração” com p4l4vr03s no título, mas o mercado prometia bloquear o funcionamento cerebral da forma mais ampla possível. E vamos nos lembrar das “psicografias” que desfiguram os mortos rebaixando-os a garotos-propaganda do Espiritismo brasileiro. O cérebro se derretia até virar gosma e as lágrimas vazavam como numa masturbação através dos olhos.
Foi horrível. Quem, nessa época, pensava em contribuir com um pouco mais de saber autêntico não conseguia vender livros. Até no mercado independente a situação era difícil. Quem escrevia obras de qualidade era passado para trás até por obras do tipo “As Aventuras de Lili e Peteco na Disney”, ou por obras místicas e ensaios bolsonaristas sobre balística. Ou então os plágios fajutos de Brumas de Avalon ou as sagas que imitam grosseiramente Harry Potter misturado com Stranger Things.
Já em 2023 o foco era outro. Depois da pandemia de Covid-19 veio a pandemia do egoísmo, com os “animais consumistas” cheios de dinheiro, egoísmo e ganância e loucos para consumir o que seus instintos ordenarem, mesmo que seja para jogar um monte de comida fora depois de umas três garfadas.
Era o período do AI-SIMco, no qual o pensamento crítico era discriminado, pois com a “democracia de um homem só” de Lula o ideal era estar de acordo com tudo. Quem questionasse, pouco importando o questionamento, era rejeitado como se o ato de pensar de forma crítica fosse coisa de bolsonarista.
O negacionista factual estava extasiado em 2023, atuando como um novo “isentão” a pedir o boicote a textos que contrariavam o “estabelecido”. Até piadas eram preferidas a textos realistas. Nem o hábito de fumar cigarro podia ser contestado. O pretexto é a “liberdade” que, mesmo em dimensões tóxicas, deveria ser aceita e nunca questionada.
Se em 2015 o período era de tramar um golpe contra Dilma Rousseff para o ano seguinte, o de 2023 era o da volta de Lula, tramada em 2022. Em ambos, porém, o ponto em comum era o esforço da burguesia ilustrada de banir o pensamento crítico através do diversionismo literário das obras “para aliviar as tensões”. Sejam livros ou postagens na Internet.
Isso serve como uma triste lição pela qual o entretenimento frenético virou uma obsessão e o Brasil está destinado a ser um mero parque de diversões, empurrado para o Primeiro Mundo sem ter condições socioculturais para isso.
A conversa mole de que o Brasil tem que ficar calado para virar país desenvolvido é uma ilusão que só favorece a elite do bom atraso e joga as sujeiras debaixo do tapete. O que não será benéfico diante dessa máscara de “pais desenvolvido” que favorecerá somente a burguesia.
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