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ESQUERDAS TRATAM O ORIENTE MÉDIO COMO "ASSUNTO BRASILEIRO"


No fim do mês passado, 112 palestinos foram mortos por ataques do Exército israelense em Gaza. Pessoas que esperavam receber alimentos, outros mantimentos e material de primeiros-socorros eram atacadas de diversas formas. Um episódio chocante a se somar a essa longuíssima tragédia. O atentado atual é conhecido como o "massacre da farinha" e causou comoção ecrevolta no mundo inteiro.

Não há como contestar que o povo palestino é vítima de uma longa trajetória de genocídio e de massacres que são muito chocantes. Imagine você esperar por um ônibus para ir ao local de trabalho e, num ponto onde está uma dezena de pessoas, uma explosão acontece e todos, inclusive você, morrem neste ato depois revelado como um atentado a bomba.

Antes de mais nada, defendo os povos judeus e palestinos, apoio a criação do Estado palestino, condeno a tirania de Benjamin Netanyahu, que não representa o povo judeu, e o terrorismo do Hamas, que também não representa o povo palestino. Os verdadeiros judeus e palestinos defendem a paz e conviveriam através do acordo e do diálogo. E o povo israelense foi protestar nas ruas contra Netanyahu devido ao "massacre da farinha".

O Oriente Médio vive esse grande pesadelo no qual há uma polarização entre autoridades subordinadas aos EUA e grupos terroristas que se opõem a esse poder. No momento, o tirano da vez é o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu e o grupo terrorista Hamas é o lado oposto da vez.

O problema do Brasil, pelo mesmo por parte das esquerdas médias, é a supervalorização do problema, que dá margem a uma discussão viciada, ou seja, com a obsessão dos esquerdistas em dar invertidas e apelar para a carteirada opinativa, supostamente ligada à solidariedade ao povo palestino.

As esquerdas tratam o assunto do Oriente Médio como se fosse uma pauta brasileira. É como se Gaza ficasse na Zona Norte de São Paulo. Mas o Oriente Médio é um lugar distante, sem relação direta com o Brasil. Pode haver uma relação aqui e ali, mas são relações indiretas, só o sentimentalismo teima em renegar essa diferença. Com toda a importância que deve ter o tema do Oriente Médio, ele é um assunto estrangeiro, não um problema diretamente brasileiro.

As elites "democráticas" se oreocupam pouco com os interesses internos do Brasil e se empenham em espetacularizar a pobreza, para não ronper com as desigualdades que lhes dão vantagens. Mas como querem parecer bem na fita, essas pessoas egoístas precisam parecer altruístas e usar o caso do povo palestino para forjar sua "solidariedade de emoticons".

A elite do bom atraso, a burguesia de chinelos invisível a olho nu que privatizou para si o domínio das esquerdas, mascara seu egoísmo de classe com sua hipocrisia. Não ajudam o próximo e disfarçam essa atitude egoísta com a idolatria religiosa, cultuando "médiuns espíritas" que, nem eles, ajudaram o próximo, porque sempre pregaram para os aflitos suportarem, calados e sem reclamar da vida, as piores desgraças. 

É fácil um egoísta pedir para um aflito aguentar uma vida barra pesada e se passar por pretenso generoso. A Teologia do Sofrimento, o holocausto pregado por lábios de mel, defendido por "madres" e "médiuns" em frases usadas nas redes sociais para "alegrar o dia", serve para isso. Dá para ser egoísta e se passar por generoso com tais artifícios, caprichando na voz suave que consegue enganar muita gente boa.

A propósito, comparar o genocídio contra os palestinos ao genocídio é correto. Comparar Benjamin Netanyahu a um tirano fascista não só é correto, mas ele mesmo é um tirano fascista. Mas Lula falar isso numa cúpula internacional é perigoso, porque um evento como esse não é como um refeitório de operários em que se fala mal do patrão abertamente. Foi constrangedor Lula peitar o presidente estadunidense Joe Biden, numa reunião do G-7, em que o presidente brasileiro era somente um convidado ouvinte, mas quis forjar falso protagonismo no evento. E Lula se apropriar de pautas estrangeiras é uma clara demonstração do presidente em se promover pessoalmente através dessa agenda.

Lula quase fez Netanyahu declarar guerra ao Brasil. Por sorte, as relações geopolíticas são outras mas, até pouco tempo atrás, as declarações de Lula seriam respondidas por bombardeios atingindo as capitais brasileiras. Foi vergonhoso um Leonardo Attuch, com a euforia de um torcedor de rinha de galo, comemorar que "a guerra chegou ao Brasil", como se fosse uma batalha na qual Lula sairia sempre como vencedor.

Outro problema é que a declaração que Lula fez na Cúpula Africana na Etiópia desviou o foco da reconstrução do Brasil. Nosso país está mais devastado do que se pensa, socialmente nunca conseguimos sair dos paradigmas da Era Geisel, e Lula atua de forma bipolar, às vezes admitindo a crise no Brasil, em outras, no entanto, achando que tudo já está bem a ponto do Governo Federal brasileiro oferecer empréstimo de dinheiro para outros países. Num momento, Lula fala que é preciso reconstruir o Brasil, noutro ele dá a crer que o processo já se concluiu.

A pauta de Israel abafou os temas brasileiros e Lula tornou-se pateticamente um protagonista artificial de uma pauta estrangeira. Ou seja, a brasa do noticiário internacional foi roubada por Lula para ele fritar a sua sardinha política e se promover pessoalmente com isso, o que empolga apenas o clubinho de burgueses que se acham "cheios de razão" nas redes sociais, gente bem de vida que se acha "pobre" porque paga IPVA, toma aguardente duas vezes por mês e frequenta estádios de futebol.

Mas esse pessoal não esconde sua hipocrisia quando manifesta sua solidariedade ao povo palestino, mas está indiferente ao que ocorre nas favelas, cujas tragédias não estão ao alcance dos binóculos dessa gente "sem preconceitos" mas muito preconceituosa. Porque, para nosa burguesia "gente como a gente", que acha que "vida simples" é encher a cara de aguardente em birosca de segunda categoria, as favelas são "coisas lindas se se ver", desprezando as dificuldades e dramas vividos pelos favelados.

E é justamente essa hipocrisia, partindo de uma burguesia que cultua "madres" e "médiuns", que fazem apologia da desgraça humana, que a classe empurra goela abaixo para as esquerdas apreciarem, é que o Oriente Médio torna-se uma "pauta brasileira" para abafar os problemas socioculturais e econômicos do nosso país.

Se lembrar do povo palestino e fazer invertida em toda vez que for questionado pela obsessão ao Oriente Médio, mas esquecer dos genocídios que ocorrem nas favelas, nas áreas rurais e nos territórios indígenas é de uma grande falsidade dessa elite de abastados que se acha dona de tudo, que não suportava um segundo a mais de João Goulart e Dilma Rousseff mas agora quer reeleger Lula.

Se o som dos "bailes funk", hoje fábrica de novos super-ricos dentro da seletividade meritocrática das periferias de novela, abafa os roncos dos estômagos famintos dos pobres da vida real, pouco importa, se os debates brasileiros estão sendo monopolizados por uma pauta estrangeira. Periga do Estado palestino ser inaugurado antes da reconstrução real do Brasil.

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