As pessoas cometem o erro de fugir de narrativas consideradas incômodas. Vivendo uma felicidade tóxica, ignoram armadilhas e riscos graves. O Brasil ainda não resolveu muitos entulhos da ditadura militar e, o que é pior, parte dos entulhos culturais virou objeto de nostalgia.
Ultimamente, foram divulgados escândalos envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, cujo impacto é comparável ao do esquema de tráfico sexual do falecido bilionário Jeffrey Epstein. Os escândalos começam a respingar sobre políticos e celebridades e há rumores atribuindo envolvimento tanto do filho de Lula, Fábio Luís Lula da Silva, quanto da família Bolsonaro.
Mas quem pensa que a Faria Lima seria uma pequena máfia envolvida apenas em episódios como a lavagem de dinheiro do PCC e, agora, com o escândalo do Banco Master, está enganado. A Faria Lima, infelizmente, exerce um poder sobre a sociedade brasileira com muito mais intensidade do que se pensa.
A Faria Lima "desenhou" o Brasil em 1974, quando era necessário um contraponto suave para a repressão ditatorial da época, diante da crise do AI-5. A elite empresarial de São Paulo fundou o soft power à brasileira, desenvolvendo condicionamentos culturais que permitissem anestesiar a população, eliminando ou diminuindo tensões sociais que ameaçariam os lucros do empresariado.
Com parcerias com várias partes do país, propiciada pelas relações econômicas entre diversos setores, a Faria Lima chega mesmo a intervir diretamente até no foco de rebeldia, a cultura rock, já que a rádio 89 FM, de São Paulo, é controlada pelo mais poderoso empresário dessa elite, João Camargo, de uma família que apoiou abertamente a ditadura militar.
As parcerias não param por aí. A bregalização cultural e, sobretudo, musical, tem o dedo da Faria Lima, através da mídia associada, como a Rede Globo e a Folha de São Paulo, veículos que servem para, respectivamente, popularizar e dar um verniz "intelectual" para as tendências popularescas diversas, como a axé-music e o "funk".
Até nas gírias e nos modos de agir e viver no cotidiano, a Faria Lima manipula a população explorando as possibilidades de prazer, criando um padrão de comportamento através de psicólogos e publicitários que estão a serviço dessa elite empresarial e, também, da divulgação da mídia hegemônica.
A gíria "balada" tornou-se o maior símbolo dessa manobra culturalista. Uma gíria privada de jovens empresários dos anos 1990, eufemismo para rodízio de drogas alucinógenas (o ecstasy), a gíria "balada" passou a simbolizar a forma brasileira do vocabulário do poder analisado pelo jornalista inglês Robert Fisk, tentando impor como um jargão "acima dos tempos e das tribos", difundido por um lobby que contou com a participação de Tutinha, da Jovem Pan, e Luciano Huck.
Até mesmo o Espiritismo brasileiro tornou-se também parceiro da Faria Lima pela influência que os grandes coronéis do gado zebu do Triângulo Mineiro, que blindaram o "médium da peruca", atuante na região. Difundido como uma religião pretensamente futurista, essa versão repaginada do Catolicismo medieval que vigorou no Brasil colonial ganhou o rótulo farsesco de "kardecismo" ganhou a proteção da mídia venal, solidária ao poder ditatorial e, também, aos desígnios socioculturais da Faria Lima.
Muitos estranham essa realidade, pois ninguém quer admitir que o que lhes soa agradável possa ser produto de alguma manipulação. Se até os roqueiros mainstream se encanaram de achar "chato" alguém fazer qualquer associação da 89 FM com a Faria Lima, então a situação de complacência atinge níveis de grande ingenuidade.
Nem sempre aquilo que faz as pessoas sorrirem e se divertirem representa uma pureza e uma lisura socioculturais. O que vemos hoje em dia são as pessoas virarem personagens de um teatro consumista comandado por uma elite empresarial baseada no Itaim Bibi, que decide até sobre as agendas e os debates públicos.
Por isso, devemos tomar cuidado e verificar as armadilhas culturais que a Faria Lima trama para a população brasileira. Não dá para negar e recusar a influência quando tudo parece agradável, pois as piores guerras culturais no Brasil são as que justamente exploram o agrado como meio de anestesiar as pessoas, deixando elas na mediocridade sociocultural. A Faria Lima exerce um domínio muito maior do que se imagina, tornando-se o maior think tank do Brasil.
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