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A RAIZ GOLPISTA DE PARTE DOS APOIADORES DE LULA



Há, entre os lulistas, posturas muito estranhas. Os “brinquedos culturais”, por exemplo, fazem um indivíduo das esquerdas médias pensar: “ Ele é de direita, mas eu gosto dele. Logo, ele é de esquerda”. Muita gente conservadora se passou por "progressista" por conta dessa ilusão.

Assim, valores e ídolos que estiveram em evidência como associados ao astral conservador da ditadura militar eram adotados, décadas depois, pela esquerda mainstream, por conta de pretensas simbologias como, em tese, “fazer o pobre sorrir”, ou lançar palavras-chave como “paz”, “interatividade” e “mobilidade urbana”.

A atual base de apoio de Lula pouco tem a ver com a esquerda raiz. Podemos dizer muito pouco, quase nada. Até o antigo reduto de Lula, a região Nordeste, está em declínio, seguindo a tendência da desilusão das classes populares com o petista. E parte da geração Z já começa a ver em Lula um político ultrapassado, complicando as chances de reeleição com muitos jovens que não estão identificados com ele.

A base de apoio de Lula, hoje, é a burguesia ilustrada e seus consortes, como a comunidade woke e os “pobres de novela”, gente considerada bem de vida. É uma multidão festiva, com grande ânsia para consumir e viver a vida e cuja noção de justiça social se situa nos limites de evitar que se atrapalhe o sossego e a rotina de vida dos abastados.

É aquela coisa. Os lulistas “gostam” de pobre no sentido de evitar que sejam assaltados por esses miseráveis. O desejo de bem estar social é tão restrito que ninguém se empenha em superar o suplício das favelas, lugares degradantes e difíceis para quem quer qualidade de vida.

Há também a aversão das esquerdas à brilhante antropofagia cultural da Bossa Nova e o senso crítico dos intelectuais autênticos. Preferem que a ignorância e a burrice ou mesmo a mais explícita estupidez sejam vistas como “nova inteligência” e há quem se sinta ofendido quando alguém fala em valorizar a Educação pública. Sim, há gente que se diz de esquerda que prefere ver gente burra fazendo sucesso, sem ajudá-la no aprendizado real das coisas.

A elite do bom atraso, que hoje apoia Lula e quer votar em sua reeleição “quantas vezes for possível”, mostrou sua atrofiada consciência social no episódio do atentado ao Irã. Choram pelas mortes de inocentes, sobretudo crianças, nos atentados feitos pelas forças de Israel e EUA, o que em parte é justo, mas agem em complacência com a tirania teocrática iraniana, que liquidou com o processo de modernização social daquele país.

As esquerdas médias falam em “democracia”, mas passam pano no regime autoritário dos aiatolás. Falam em “defesa” do povo pobre, desde que ele cumpra os papéis impostos pela burguesia através da Rede Globo e Folha de São Paulo. Essas esquerdas são tão estranhas que parecem mais a direita moderada transgênica por fora, mas tão terrivelmente neoliberal por dentro.

As esquerdas foram contaminadas culturalmente pelo “papa” Pedro Alexandre Sanches, apóstolo da Faria Lima em sua peregrinação na imprensa de esquerda, no esforço de fazê-la pensar igual à Ilustrada da Folha de São Paulo. Mas há também raízes sociopolíticas que explicam a adesão das esquerdas médias ao “combate ao preconceito” da bregalização cultural, esse “IPES-IBAD com chapéu de frutas na cabeça” que fez a cultura popular se degradar seriamente.

Afinal, o lulismo de hoje em dia é uma comunidade alienígena, ou seja, composta de gente cuja profissão de fé foi sempre o golpismo, mas que por razões de conveniência agora tenta fazer as pessoas acreditarem que “sempre foi esquerdista desde 22 de abril de 1500”.

São pessoas que odiaram Getúlio Vargas, interpretando mal o Estado Novo - que na prática reduziu-se a um quintal para os subordinados Filinto Muller e Lourival Fontes - , e ficaram aliviadas com o golpe de 1945, dado depois que o “ditador” Vargas regulamentou as relações trabalhistas e o salário mínimo através da CLT, criada em 1943.

São pessoas que odiaram João Goulart, atribuindo a ele o “governo da aventura” e que ficaram furiosas quando o político gaúcho determinou limites para a remessa de lucros ao exterior, fazendo a burguesia acionar os “institutos” IPES-IBAD para defender de forma “científica” o golpe de 1964.

Essas pessoas defenderam o AI-5, só aderiram à redemocratização pela aliança promíscua com o MDB, algumas apoiaram José Sarney, Fernando Collor e, em seguida, Fernando Henrique Cardoso. Só a partir de 2003 esses corvos da direita começaram a voar para cima do milho jogado ao chão pelo PT.

Mas de repente, muita gente de direita passou a se autoproclamar “esquerdista de carteirinha”, de olho nas vantagens sociais que essa postura lhes traz. O próprio Sarney, antes um ávido lambedor de botas dos generais da ditadura, agora passou a brincar de ser esquerda, juntamente com o filhote baiano dos anos de chumbo, Mário Kertèsz, e o “menino mimado” da elite da Barra da Tijuca, Eduardo Paes.

E ainda não falamos de muitos reacionários das redes sociais, muitos com experiência em liderar tribunais de Internet para agredir e humilhar as pessoas, que para disfarçar vestem a máscara do esquerdismo de fachada, imitando feito papagaios a agenda temática dos blogueiros progressistas.

É por isso que nosso esquerdismo caiu e afastou proletários, camponeses, favelados e sem teto. Os pobres estão irritados com Lula e, abandonados por ele, o abandonaram em resposta. Com a festa estranha e a gente esquisita, as esquerdas médias se transformam na “esquerda que a direita gosta e quer”. Assim a Faria Lima pira.

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