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GOLPE DE 2016 E A REVOLTA SELETIVA: REAÇAS TÊM SANGUE DE BARATA?


O Brasil, esse país dos Quenuncas, vive de indignação seletiva.

A corrupção política, por exemplo, só assusta as pessoas quando ela está (supostamente) associada a partidos de esquerda.

Quando não é de esquerda, é preciso a mídia dar corda aos bonequinhos "coxinhas" para produzir alguma revolta.

No Rio de Janeiro, por exemplo, a revolta seletiva segue o seguinte caminho.

Em primeiro lugar, ela é alimentada por programas policialescos da TV paulista (?!), como o Brasil Urgente de José Luiz Datena (TV Bandeirantes), cujos comentários fazem o apresentador viver seus momentos de "vaqueiro midiático" conduzindo o "gado" a se revoltar com dado assunto.

Depois, há a cobertura do Jornal Nacional, do qual a "revolta popular" depende da ênfase com que dado assunto é noticiado naqueles 45 minutos desse show noticioso da Rede Globo.

Em seguida, a matéria precisa estar em primeira capa do jornal O Dia. O jornal O Globo nem influi tanto assim, mas, ao acompanhar a agenda setting (hit-parade da notícia), ajuda a conduzir o "gado" a uma "revolta" planejada.

Se o problema ganha primeira página no Meia Hora (do grupo de O Dia), com aquelas piadas grosseiras, isso também reforça o agendamento temático da "galera" (© Fausto Silva).

Em Niterói, nota-se que o "conformavírus" já contaminou seus cidadãos há muito tempo.

Os niteroienses são muito seletivos em relação aos problemas. Até os piores problemas eles selecionam, como se estivessem anestesiados para suportar alguns deles.

Hoje os niteroienses reclamam dos engarrafamentos, provisoriamente suspensos devido às restrições de saída das pessoas devido ao coronavírus.

Mas, antes dessa realidade, havia congestionamentos tão grandes que eram "educativos" para os niteroienses, que ignoram que deveriam haver novas vias para desafogar o trânsito.

Um exemplo é criar uma nova avenida ou rodovia ligando Rio do Ouro e Várzea das Moças, a partir de um terrenão que está dando sopa e não pode ser "entregue" à favelização, à especulação mobiliária e às milícias, condenando a RJ-106, nesse trecho, à eterna sina de "avenida de bairro".

Outro exemplo é criar avenidas ligando a Rua Benjamin Constant (com duplicação no entorno do Ponto Cem Réis) e a Av. Jansen de Mello à Estrada Viçoso Jardim.

Mas tais propostas não repercutem sequer nas páginas noticiosas de Niterói nas redes sociais, como se seus jornalistas só escrevessem para os amigos e sobre situações de vivência meramente pessoal.

E isso reflete o quanto os niteroienses são seletivos no seu próprio sofrimento. A "anestesia geral" da omissão midiática - infelizmente, o Grande Rio depende da mídia para pensar ou agir sobre algo - causa sérios danos diante da conformação geral de Niterói.

É um problema que refletiu também no Brasil a partir de 2015. Ficamos imaginando que, para os problemas de Niterói causarem indignação, tinha-se que colocar a foto de Lula em cima do problema, vide o anti-petismo predominante na cidade que pensa que IDH alto é presente de Deus.

No âmbito político, esse conformismo aceitou, como se os reaças tivessem sangue de barata, as atrocidades e trapalhadas de Jair Bolsonaro.

Era um governo fácil de ser derrubado. Aliás, Jair era um candidato que nem deveria ser eleito. Até Henrique Meirelles e Álvaro Dias seriam mais aceitáveis para vencer a campanha presidencial.

E como Jair Bolsonaro conseguiu sobreviver no cargo em um ano e três meses? Simples, é aquela coisa do Quenunca: "Quem nunca errou na vida"?

Aquela eterna mania de passar pano nos próprios defeitos, uma falsa autocrítica que mais parece um orgulho mal-disfarçado dos próprios erros.

Só agora Jair Bolsonaro é repudiado em larga escala, quando o perigo toca mais direto nas pessoas.

São sempre os riscos individuais. Que triste pragmatismo só se preocupar com os problemas quando se tornam ameaças meramente pessoais.

É preciso ser altruísta e pensar no outro. Até porque quando os problemas ocorrem nos outros, as chances deles tocarem na vida pessoal de cada um são, muitas vezes, grandes.

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