Já informamos aqui neste blogue que o negacionista factual é o filho do desbunde com o AI-5. Ele defende a liberdade de instintos, o hedonismo é o seu maior princípio, mas quando se trata do senso crítico, ele estabelece sérias restrições. Ele só aceita que a realidade seja interpretada por profissionais de prestígio, mesmo que essa interpretação seja tendenciosa e longe da fidelidade aos fatos.
O negacionista factual até legitima uma parcela da grande mídia de cujas abordagens ele discorda, já que seu “perímetro” midiático se situa entre veículos como Diário do Centro do Mundo, Brasil 247, portais de notícias como IG e Terra, um Jornal do Brasil aqui, uma Isto É ali e o que tiver de menos faccioso no UOL.
Mas se ele legitima um Estadão e o status profissional de uma Malu Gaspar, a colunista de O Globo considerada a “hidrófoba do momento”, ele não aceita que blogueiros com mais senso de pesquisa e maior cautela na observação dos fatos tenham voz e vez como formadores de opinião.
Por isso, o negacionista factual parte para a campanha do boicote. Se ele não concorda com a Malu Gaspar, ele pode exercitar sua pretensa imparcialidade e fazer uma abordagem oposta. Até uma narrativa bolsonarista, por outro lado, ele pode desmontar, como naqueles jogos eletrônicos em que o herói luta contra os inimigos.
Mas quando é alguém emergente, como blogues que mostram visões alternativas ao cabo-de-guerra entre lulistas e hidrófobos (e, num âmbito mais radical, os bolsonaristas), o negacionista factual se sente inseguro. Quando mexe em hábitos e crenças que soam agradáveis e confortáveis para setores influentes da sociedade, ele parte para o boicote. “Não leiam, o cara fala mal de todo mundo”, vocifera este que é o cão de guarda da elite do bom atraso.
No caso do cigarro, isso é ilustrativo. Muita gente considerada “legal” no Brasil fuma , e muito, daí que escrever um texto lamentando o grande índice de tabagismo presente em Niterói, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Porto Alegre, gera baixa repercussão. O negacionista factual entra na marcação e pede para os leitores boicotarem.
A desculpa é essa: textos que contestam o tabagismo vão contra a “felicidade” e “liberdade” de muita gente. A arrogância do hedonismo reinante e a ilusão de que ninguém vai morrer por fumar muito cigarro atinge níveis preocupantes. E o negacionista factual, zeloso com o que ele acha ser sinônimo de “liberdade humana”, não aceita que se critique o hábito de fumar um cigarro.
Vários famosos, entre atores, jornalistas e modelos, já faleceram, em média na casa dos 60 anos, por causa do fumo. Mas dizer que foi por culpa do cigarro soa ofensivo. As pessoas se revoltam com isso, como se essa informação fosse sinônimo de xingação.
Até parece que o finado guru de Jair Bolsonaro, o “fisólofo” Olavo de Carvalho, exerce influência até sobre seus opositores. Olavo, que morreu por causa do fumo, dizia que “fumar faz bem”, e eu vejo o quanto o pessoal sente orgulho de consumir um cigarro. E não raro se vê gente cheia de pose enquanto traga um cigarrinho.
Mas a turma que acha que “fumar faz bem” tem desculpas para desmentir qualquer associação a Olavo de Carvalho. Pode até ser coincidência, mas a comparação incomoda essas pessoas, que vão logo procurando fumantes de esquerda para desmentir algum cheiro de olavismo.
Na verdade, há um grande medo dessas pessoas sofrerem alguma consequência drástica com o tabagismo que praticam de forma sorridente. E o negacionista factual, com fobia de senso crítico, tem medo de tudo que ameace a estabilidade do estabelecido.
Para ele, melhor deixar tudo como está. E, no caso do fumo, que se deixe o Destino mostre as tragédias mais para depois, para evitar assustar a criançada com corpo de adulto e pulmão de velho. Para quem não sabe, o cigarro é a chupeta de gente grande.
Comentários
Postar um comentário